BELO MONTE: UM DESABAFO

Hegel disse há muito tempo atrás que todo processo histórico está destinado ocorrer duas vezes. Karl Marx acrescentou a essa frase a seguinte observação: ”Na primeira vez, o evento ocorrerá como tragédia, na segunda como farsa.”

Estima-se que no Brasil viviam cerca de cinco milhões de pessoas por volta de 1500. Índios, claro, mais de mil povos se comunicando em cerca de mil e trezentas línguas diferentes. Então atracaram no litoral, com suas imensas caravelas vindas de terras distantes, os exploradores portugueses. Foi dado inicio o processo que estou chamando de TRAGÉDIA.

O que se seguiu foi um genocídio capaz de fazer Hitler parecer moderado. Pólvora, sabres, catequização, escravidão e doenças trazidas da Europa reduziram esses cinco milhões de seres humanos a uma ridícula população de trezentos mil indivíduos nos dias de hoje. Dos mil povos, restaram duzentos e vinte e sete. Das mil e trezentas línguas, restaram cento e sessenta e nove. Nosso solo se tingiu de sangue. Culturas inteiras caíram no esquecimento.

O erro histórico que resultou no sangrento massacre descrito acima está sendo repetido, agora na forma de FARSA. Vemos ele se repetir, ano após ano, a medida que restringimos as reservas indígenas a espaços cada vez menores, a medida que ignoramos os massacres realizados por fazendeiros no Pará e estados vizinhos, a medida que realocamos os moradores originais de nossos tristes trópicos cada vez mais à margem de um mundo que ignora tudo aquilo que não se adequa à lógica econômica que o move.

Lógica que sustenta agora a construção da Usina de Belo Monte, personagem central dessa FARSA em 2011, e também assunto principal deste artigo que procurei dividir em 2 partes.

Na primeira vou resumir tanto quanto possível a polêmica e obscura história dessa usina.

Na segunda vou brincar de “Maquiavel”, ignorando todo o processo histórico duvidoso dessa barragem e focando apenas nos diversos pontos “positivos” e “negativos” de sua construção.

Como de costume, apresentarei toda a informação que puder, para que cada um tire suas próprias conclusões, mas também não tentarei fingir uma imparcialidade impossível para qualquer pessoa de carne e osso. Não sou imparcial. Sou contra a construção de Belo Monte. Mas convido todo aquele que for a favor a ler e comentar meu texto, expor seus argumentos, me criticar e quem sabe mudar minha opinião.

Esse texto, como tudo mais que eu escrevo, é dirigido aos dispostos a refletir, e não aos que procuram respostas prontas. Boa leitura!

Primeira Parte – A HISTÓRIA DA FARSA

A história da polêmica obra de Belo Monte começou em 1975, em plena Ditadura Militar, quando foi realizado o Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu. Identificado o enorme potencial hidrelétrico dessa bacia, o governo realizou em parceria com a Eletronorte um estudo de viabilidade econômica para a construção de uma hidrelétrica. O problema é que a obra sairia caro demais, e a região do Xingu era a área mais rica em populações indígenas de todo o país. O projeto acabou sendo engavetado e passaram-se muitos anos.

Segundo nossa constituição (artigo 231) qualquer exploração econômica feita em terra indígena só pode ser feita com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as lideranças comunitárias afetadas por essa exploração. Por esse motivo, quando decidiu-se retomar as discussões para construção da hidrelétrica, em 1989, foi realizado o primeiro encontro dos povos indígenas do Rio Xingu com a Eletronorte para discutir o projeto.

O encontro conseguiu reunir considerável representatividade dos povos Kaiapó, Xypaia, Tembé, Maitapu, Arapium,Tupinambá, Cara-Preta, Xicrin, Assurini, Munduruku, Suruí, Guarani, Amanayé, Atikum e Kuruaya, entre tantos outros. A oposição ao empreendimento foi unânime.

A barragem alagaria trechos imensos de floresta, desalojando comunidades e tribos inteiras, destruindo áreas de caça e pesca das quais os grupos dependiam para sobreviver.

Ficou famosa a foto da líder Kaiapó, Tuira, encostando uma faca no rosto do então presidente da Eletronorte, José Antonio Muniz, em protesto contra a usina. A polemica inicial, a instabilidade política de um país ainda reconstruindo sua democracia, a falta de dinheiro, acabaram protelando a obra novamente.

Passados mais 10 anos de turbulências, e com muito mais dinheiro no bolso, o governo federal tomou a decisão de fazer acontecer de vez a polêmica obra. Traumatizados pela ultima vez que tentaram discutir a questão com os índios, nossos governantes tentaram se esquivar desse “detalhe”, iniciando medições sem consulta alguma dos povos do Xingu (decisão inconstitucional).Foi encomendado um novo Estudo de Impacto Ambiental.

O estudo, encomendado  pela própria ELETRONORTE (sem licitação, diga-se de passagem) para a FADESP, tinha naturalmente o objetivo de provar para todo mundo que Belo Monte seria ecologicamente viável. Ele foi concluído em março de 2001, antes de serem realizadas muitas das viagens de estudo de campo que a própria FADESP marcou. Vamos analisar essa passagem com mais atenção: Os estudos de campo seriam concluídos em novembro, mas o relatório final foi entregue oito meses antes, em março. Tempo é dinheiro não é mesmo?

Além de ter um cronograma bem esquisito, esse estudo é extremamente questionável pelo simples fato de que ele nunca foi aberto ao publico.

O estudo carecia de diversos documentos essenciais, entre eles a autorização do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, exigido quando a área em questão abriga sítios arqueológicos (como é o caso).

Diante de tudo isso, a Justiça Federal não encontrou solução além de determinar a paralisação de tudo. A primeira de muitas. O governo federal recorreu duas vezes, uma delas ao Supremo, e perdeu as duas. A obra, da forma que estava sendo projetada, era uma afronta direta à própria constituição, nas palavras do ministro Marco Aurélio. Uma primeira batalha estava vencida, mas a guerra estava longe de terminar.

Os cinco anos de paralisação que se seguiram mostraram para o governo federal que a obra não seria autorizada sem o amém do IBAMA, além da autorização do Congresso Nacional.

A transição de partido que estava no poder, no PSDB para o PT, pouco mudou o ímpeto original de viabilizar a usina, traduzido em uma nova proposta de decreto legislativo para autorizar Belo Monte.

Como já foi dito, nossa constituição estabelece que essa proposta só seria valida se tivessem sido ouvidas as comunidades indígenas, o que nunca ocorreu. Mesmo assim, em 15 dias úteis a proposta é aprovada na Câmara e no Senado. Aprovação relâmpago.

Engraçado como a velocidade com que uma proposta é aprovada em nosso país é diretamente proporcional a seu grau de impopularidade ou o quão questionável ela é, não é mesmo?

Por ser extremamente frágil e desrespeitar a constituição a proposta foi derrubada uma vez mais por liminar que a paralisou até 2007, quando o STF liberou novamente o projeto.

Com pressa em tentar viabilizar Belo Monte dessa vez, o governo federal se apressou a licenciar a obra quando ela foi liberada, esquecendo-se no processo de realizar novo Termo de Referência (documento exigido pelo IBAMA).

Claro que nessa altura do campeonato a obtenção desses documentos tornou-se uma mera burocracia, já que o interesse em realizar a obra datava em mais de 20 anos e um estudo sério sobre seu impacto ambiental jamais havia sido feito e muito menos apresentado ao publico.

Bom, “documento para inglês ver” ou não, foi elaborado um novo Relatório de Impacto Ambiental, em parceria com as 3 maiores empreiteras do país : Camargo Correa, Norberto Odebrecht e Andrade Gutierrez. Quando eu uso o termo “parceria” aqui, fica-se subentendido que estou falando de “contrato sem licitação” OK?

Esse detalhe merece um pouco mais de atenção: A Eletrobrás contratou os caras para fazerem um ESTUDO DE VIABILIDADE AMBIENTAL da obra, mas o motivo usado para explicar sua contratação sem licitação foi justamente a possibilidade de VIABILIZAR A OBRA O MAIS RAPIDO POSSÏVEL. Nessa altura do campeonato, se eles descobrissem com o estudo deles que a construção de Belo Monte afundaria a floresta amazônica inteira, provavelmente não iriam mudar de idéia. Isso já estava fora de cogitação.

Vale dizer que como o acordo tinha clausula de confidencialidade o resultado desse estudo não poderia ser divulgado até a expedição da Licença Prévia. Basicamente, só poderíamos ver o resultado desse estudo depois que a obra já estivesse em andamento. Interessante não é?

Vamos contando até agora:

  • Licitações ilegais
  • Desrespeito à Constituição ao ignorar o diálogo com os índios
  • Aprovações em congresso em tempo recorde, para se esquivar da opinião pública.
  • Ausência de documentação necessária…

O estudo foi entregue em 2009 ao IBAMA, extremamente incompleto, resultando em seu veto pela instituição. Foi solicitada uma revisão completa do estudo, mas no final do mesmo dia, esse documento foi submetido novamente e então aprovado. Qualquer suspeita de suborno ou corrupção nesse processo é mera paranóia OK?

Todas as audiências públicas convocadas posteriormente para discutir a Usina foram feitas de surpresa, em espaços reduzidos, limitando a participação da população. Enfim, uma farsa.

Devido à repercussão horrível dessas audiências fraudulentas, que além de tudo ignoravam oito dos onze municípios atingidos, o MPF entrou com Ação de Improbidade Administrativa contra a obra, conseguindo uma vez mais parar a execução de Belo Monte.

Buscando criar um espaço de dialogo que realmente representasse todos os povos atingidos, a liderança comunitária de Altamira/PA promoveu um enorme encontro de povos indígenas. Nesse evento o único representante enviado pelo governo federal, o engenheiro Paulo Fernando Rezende, falou por 40 minutos, se irritou com as vaias dos índios e concluiu sua fala dizendo que as barragens seriam construídas “quer eles quisessem ou não”.

Acho que estou me tornando repetitivo. A historia continua se repetindo em incidentes semelhantes em uma masturbação sem fim da qual eu pretendo poupá-los de agora em diante. Só pra resumir a situação hoje, o IBAMA concedeu uma LP (licença provisória) para que a Eletrobrás prossiga os estudos sobre a obra, mas ainda não concedeu a LI (licença de instalação). Ou seja, até agora, tudo pode acontecer.

Acontece que toda essa movimentação foi conquistando a atenção das pessoas. De um lado, lindos cartazes em aeroportos patrocinados pelo governo federal nos informavam sobre as maravilhas dessa usina. Do outro lado, escândalos e mais escândalos minavam continuamente a imagem do empreendimento.

O atual presidente do Ibama, Curt Trennepohl, declara em entrevista para rede Australiana que seu trabalho não é defender o meio ambiente, mas sim minimizar os impactos, e fala (sem saber que estava sendo filmado) que o Brasil fará com os indios a mesma coisa que a Australia fez com os aborigenes. Pra quem não sabe a Australia praticamente ACABOU com os aborigenes.

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/943942-presidente-do-ibama-causa-polemica-em-entrevista-a-tv-australiana.shtml

Algumas pessoas escolheram um lado ou outro. A maioria foi só ficando confusa.

Comecou a circular na rede um video cheio de “atores globais”, necessário, porém um pouco leviano e cheio de argumentos errados, com direito a Maitê Proença tirando o sutiã, apoiando o Movimento Gota D’Agua (contrário à construção da usina) e a coisa pega fogo. Subitamente, todo mundo tem uma opinião sobre o assunto, apesar de pouca gente realmente saber o que está acontecendo.

Segunda Parte – OS PRÓS E OS CONTRAS

Acho que qualquer pessoa que estudar um pouquinho a história dessa barragem vai sentir que tem algo fedendo muito nisso tudo. A simples podridão subliminar na história de Belo Monte faz com que eu me sinta naturalmente impelido a ir contra ela, como eu seria automaticamente contra uma obra anunciada pelo Maluf, por exemplo.

Presumindo que algumas pessoas simplesmente não se importam com  falsas licitações, desvios de dinheiro e violações na constituição, e estejam preocupados pura e simplesmente com a capacidade da Usina em gerar energia e ajudar a “levar nosso país rumo ao futuro”, escrevi essa (mais breve) parte 2, onde me concentro nos aspectos técnicos da construção dessa barragem.

O perigo é que, em uma análise superficial desses aspectos técnicos, Belo Monte parece mesmo ser um empreendimento interessante:

1-      Um dos maiores argumentos técnicos contra Belo Monte, que é a incapacidade da usina de explorar 100% de seu potencial (vai usar 42% em média), é falacioso. A usina tem que estar preparada para os momentos de maior cheia. Não existe uma parte da bacia que “praticamente seca”, como aquele Vídeo da Globo fala.

2-      Os 640 km2 (ou 516 km2?) de floresta que serão alagados representam uma área razoavelmente modesta se comparada a obras como Itaipu, que alagou 1320 km2.

3-      O Brasil está crescendo muito, e demandará um crescimento de produção de energia de 2,2 % ao ano por pelo menos 20 anos. Em 2010 crescemos nosso consumo de energia em 7,8%.

4-      É fato que a energia hidrelétrica é uma das mais baratas que existem. Seriam necessárias 19 usinas termelétricas, ou 17 usinas nucleares ou 49,9 milhões de placas de energia solar, para gerar a mesma quantidade de energia de Belo Monte.  Ela não polui o ar e seus riscos são relativamente baixos.

Já mudou de idéia? Não tão rápido assim meu amigo. Vale à pena pensar no seguinte:

1 – Possuímos turbinas muito antigas ainda em operação em diversas hidrelétricas do país, e estima-se que a repotenciação dessas usinas poderia aumentar em até 20% a eficiência das barragens que JÁ POSSUIMOS. Claro, obras de manutenção não envolvem contratos milionários com empreiteiras, então deixemos isso de lado.

2- Segundo estudo do Instituto Akatu cerca de 30% da energia que o Brasil produz HOJE é desperdiçado por maus hábitos de consumo. Simplificando de uma forma esdrúxula, porém incomodativamente verdadeira: Se o governo possuísse leis mais rígidas contra o desperdício de energia nas indústrias nossa capacidade de produção atual atenderia o aumento de demanda por anos.

3 – A despeito de nosso IMENSO território, menos de 2% da energia produzida no Brasil hoje é eólica, contra mais de 10% nos EUA por exemplo.

4 – Hidrelétricas podem não poluir o ar, mas causam estragos irreversíveis na fauna dos rios onde são instaladas, afetando de forma totalmente imprevisível o ciclo de vida do Rio. Na China, por exemplo, o boto chinês e muitas outras espécies foram extintas pela construção de hidrelétricas.

5 – Além da extinção de espécies, esse tipo de impacto ambiental pode tornar a sobrevivência de uma população que dependa da coleta ou caça (como a indígena) completamente impossível em certo local. Não basta mandar os índios para outra área, se essa área não puder prover o mínimo necessário para sua sobrevivência. Esse é um erro recorrente na maneira com que o governo tem lidado com a questão indígena nas ultimas décadas.

6 – O fato da bacia do Rio Xingu (onde vive a maioria das populações indigenas) ficar no Mato Grosso e não no Pará, onde a barragem seria construida, não muda o fato de que 40.000 pessoas terão que ser SIM realocadas.

7 – Nosso investimento atual em pesquisas com energias verdes é 0,35% de nosso PIB. Em contrapartida, gastamos 44% dele em pagamento de juros bancários para sustentar nossa divida interna. Não estamos realmente nos esforçando muito para encontrar alternativas não é?

8 – Segundo Celio Bermann, especialista em eletricidade e antigo acessor da Dilma na obra, os dados apresentados pelo governo que pregam eficiencia e baixo custo por megawatt de Belo Monte são FALSOS:

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html

….

De todos esses pontos, o que mais chama a minha atenção (tirando a entrevista com o Bermann …BOMBA) é o seguinte: Se fossemos mais rígidos no que concerne o recordista desperdício de energia de nosso país, e procurássemos atualizar as hidrelétricas que já possuímos e regular o uso da energia da qual já dispomos, conseguiríamos atender a demanda de nosso crescente desenvolvimento econômico por muitos e muitos anos.

“Mas não para sempre!”, dizem os defensores da barragem.

Isso nos leva ao ultimo ponto importantíssimo, que gostaria de ressaltar em meu texto.

Não adianta estudarmos de que maneira seremos capazes de atender a crescente demanda de energia, se não estudarmos as maneiras de reduzir essa demanda, que hábitos precisam ser mudados, qual será o fim disso tudo.

Retomando o que disse em meu artigo “Sobre Steve Jobs, Zeitgeist e Revolução”, para produzir mudanças realmente significativas no mundo temos que parar de usar a régua mental de nossos pais e avós para planejar o futuro. Temos que fazer uma auto-reflexão.

Vocês conhecem o famigerado exemplo do Sapo, usado por Al Gore em seu filme “Uma verdade inconveniente”, para falar sobre a forma com que a raça humana tem aceitado a destruição do próprio planeta?

Bom, se jogado em uma panela de água fervente, o sapo se assusta com o calor, salta pra fora rapidamente e se salva. Por outro lado, se você colocá-lo em uma panela de água fria e aquecer ela aos poucos, o sapo nem percebe o aumento da temperatura e morre cozido. Se coloque agora no lugar desse sapo: Quantas pequenas concessões nós não fizemos ao longo de dezenas de séculos, especialmente depois da revolução industrial? Será que a panela já não está fervendo?

Grande parte da floresta européia (ou da mata atlântica), centenas de milhares de espécies,a qualidade do nosso ar e metade da vida marinha do globo foram “sacrifícios necessários” em nome de nosso desenvolvimento, em nome da manutenção de nosso “estilo de vida”. Nós precisamos mesmo entrar em um colapso energético para concluir que o excesso de luzes de natal na Paulista é um desperdício? Precisamos acabar com todos os peixes do mar para entender que não dá pra almoçar sushi todo dia?

Da mesma forma que os habitantes da Ilha de Páscoa um dia acharam que cortar as árvores de sua própria casa era um “mal necessário” para manter seu estilo de vida, não estaremos abrindo concessões demais? Eles queriam adorar aqueles imensos ídolos de pedra que construíam e precisavam deslocar para toda parte, por outro lado nós queremos trocar o Iphone todo ano, trocar o carro a cada nova geração, nunca ter que pensar que os recursos do planeta são limitados. Pois vivemos como se não fossem.

A despeito do fetiche de nossa geração pelos filmes-catástrofe ou profecias apocalípticas (quantas vezes não anunciaram o fim do mundo desde que você nasceu?), nós não perderemos o mundo de uma só vez. Nós estamos fazendo isso de pouquinho em pouquinho, concessão por concessão.

Nós caminhamos em passos curtos, porém acelerados, em direção a um mundo pior, toda vez que aceitamos que a extinção de uma espécie, que o fim de uma cultura tradicional, é um “sacrifício aceitável” para o desenvolvimento econômico de nosso país.

Mas desenvolvimento em nome do que?

Veja bem, não sou nenhum tipo de fanático anti-progressista, que acha que a solução para os problemas do mundo é voltarmos a morar em cavernas. Eu mataria o ultimo urso polar do mundo, acenderia fogo no Louvre, transformaria a floresta amazônica em um enorme estacionamento de shopping, se isso representasse o fim da fome, da miséria ou da guerra no mundo. Faria isso sem remorso, em nome de um futuro melhor, em nome de um bem maior.

Mas infelizmente 99% da degradação ambiental do mundo hoje não está se refletindo em melhoras na vida das pessoas. Está enriquecendo meia dúzia de empresários, políticos ou banqueiros espalhados pelo mundo. Grande maioria dos celulares, televisões ou carcaças de carros que formam pilhas mais altas que a Torre de Babel em países de terceiro mundo só existem porque nós fomos doutrinados em uma religião de consumo irresponsável, de materialismo, de comportamento auto-destrutivo, porque se nossa economia não crescer uma certa porcentagem por ano isso siginificará que o mundo vai acabar.

Um aviso: O mundo não vai acabar se a economia não crescer. O mundo vai acabar no dia que não houver mais chão para plantar alimento, pois tudo estará asfaltado ou contaminado pela indústria. O mundo não vai acabar se o PIB de um país estagnar em um certo ano, ele vai acabar se a temperatura do planeta derreter as calotas polares e formar um tsunami capaz de engolir metade da superfície terrestre. Eu não estou desviando do assunto, eu não estou generalizando demais a argumentação e perdendo o foco. Ainda estamos falando sobre Belo Monte.

O vídeo dos atores globais é falacioso porque tenta explicar, sob nossa lógica atual, que Belo Monte não é necessária e nem trará benefícios reais. Por isso seus argumentos são falaciosos. Sob a ótica atual, Belo Monte (ou algo parecido com ela) será mais cedo ou mais tarde necessária. Podemos, com outras medidas, ganhar algumas décadas no máximo, mas não vai bastar.

Em um quadro de concessões aceitáveis, em uma relação custo-benefício meramente econômica, Belo Monte acaba sendo um bom negócio. Não é a toa que existe tanto esforço da parte de vários grupos para tornar esse projeto realidade, a despeito de todas as suas falhas e irregularidades.

O problema é que sob essa mesma ótica uma segunda, uma terceira, e uma quarta Belo Monte serão necessárias para acompanhar o desenvolvimento que esperamos ter daqui a 50, 100, 200 anos.

Ninguém investe em energia verde pois ela é cara, e porque os custos para trocar uma linha de produção inteira são milhões de vezes maiores do que os custos para mudar um pouco o design de uma coisa velha e vende-la como nova. Já falei disso em meu texto “Por que o Capitalismo não é a solução”.

Cuidado ao pesar os prós e contras de Belo Monte seguindo a mentalidade econômica atual. Como o (muito mais inteligente e bem argumentado) vídeo que alguns universitários gravaram em resposta ao vídeo dos globais, se você fizer isso (ignorando a historia da barragem e a tudo o que não tiver valor economico, como peixes ou indios por exemplo), Belo Monte ganha. Apenas elevando a discussão para um nível mais amplo, respeitando o processo histórico (tanto o passado quanto nossa perspectiva futura) a coisa muda de figura. Sob essa ótica Belo Monte, bem como todo nosso estilo de vida atual, é uma insanidade sem precedentes.

A ciência econômica tradicional busca atribuir um valor monetário a todas as coisas que existem, e por meio desse valor monetário determina o que é interessante ou viável em uma relação custo-benefício.

Quanto vale a sobrevivência do Tigre de Bengala ? do Urso Polar? Da floresta amazônica?

Quanto vale a preservação das pirâmides do Egito? De Matchu Pitchu?

Quanto valia o patrimônio cultural  dos 773 povos indígenas que desapareceram durante a colonização do Brasil?

Quanto vale a sobrevivência da raça humana?

Se quisermos continuar existindo nos próximos séculos, temos que aceitar a idéia de que certas coisas não podem ser valoradas, certas coisas simplesmente não tem preço.

Temos que começar a tomar decisões importantes baseados em uma lógica ética, em uma lógica filosófica, em uma lógica HUMANA. Temos que parar de deixar o Excel pensar por nós. Reassumir o controle.E assumir o preço que teremos que pagar por isso.

A maior importância da discussão levantada por Belo Monte não é decidir se aceitaremos que 640 km2 (ou 516 km2 ?) de floresta sejam alagados. Precisamos decidir se continuaremos aceitando essa grande FARSA que foi criada para nos distrair enquanto nossos índios morrem, enquanto nossa terra e nosso futuro são comprometidos, talvez para sempre, ou se vamos fazer alguma coisa a respeito.

Chegou a hora de invadir o palco, de rasgar os figurinos, de quebrar o cenário. Chegou a hora de tomar o controle do Teatro, de expulsar os diretores…

Se não nos permitirmos um pouco mais de urgência, logo chegaremos em um ponto onde a máxima de Karl Marx se provará imperfeita…

Vivenciaremos uma grande TRAGÉDIA.

E talvez não vá sobrar ninguém para representar a FARSA que poderia se seguir…

……….

 

NOTA POSTERIOR À PUBLICACAO DO ARTIGO: 

No dia 17/12/2011, foi realizada uma série de passeatas contra a Usina de Belo Monte em diversas capitais do país.

Tive a oportunidade de comparecer à passeata na Paulista. O que vi foi um maravilhoso grupo de mais de 500 pessoas, inclusive indígenas, que após se reunir sob o Vão do Masp, marchou pela Avenida Paulista (ocupando 3 faixas). A marcha seguiu até a Rua Augusta, onde bloqueou o cruzamento por mais de 10 minutos (todos deitados, simbolizando a morte da floresta). Depois o grupo desceu até a Republica.

Passeatas semelhantes ocorreram em Campinas, Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília e Belém.

A mídia praticamente ignorou o evento, que não mereceu sequer uma nota de rodapé no Estadão, por exemplo. Mas já sabemos que não se pode confiar neles não é?

MATERIAL COMPLEMENTAR:

Video muito bom sobre Belo Monte, os interesses da Unicamp, do Governo Federal e outros atores em sua construção:

http://www.youtube.com/watch?v=M7xyKQ7IGew&context=C38d1127ADOEgsToPDskJ7vntSowGKAyOkAKM0M0EW

Sobre a degradação de Altamira:

http://vimeo.com/33750674

Sobre os protestos do dia 17/12:

http://g1.globo.com/videos/sao-paulo/sptv-2edicao/t/edicoes/v/protesto-contra-a-obra-da-usina-de-belo-monte-acontece-na-avenida-paulista/1735472/

Petição do Avaaz contra o financiamento de Belo Monte no BNDES:

http://www.avaaz.org/po/belo_monte_people_vs_profits/?vl

Artigos interessantes sobre Belo Monte:

http://belomontedeviolencias.blogspot.com/search/label/hist%C3%B3rico%20judicial

http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/09/28/prefeitura-de-altamira-pede-suspensao-de-belo-monte/

http://catarse.me/pt/projects/459-belo-monte-anuncio-de-uma-guerra

http://www.internationalrivers.org/files/Belo%20Monte%20pareceres%20IBAMA_online3%29.pdf

Videos Relevantes sobre o assunto:

http://www.youtube.com/watch?v=xnitmB22JtQ

http://www.youtube.com/watch?v=kAAdXrdXSpM&feature=related

Link da Wikipedia contando um histórico sobre Belo Monte:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_Hidrel%C3%A9trica_de_Belo_Monte

Estudo do próprio governo federal sobre a repotenciação de usinas (o estudo preve um potencial de acréscimo bem menor do que o apontado por estudos independentes):

http://www.epe.gov.br/mercado/Documents/S%C3%A9rie%20Estudos%20de%20Energia/20081201_1.pdf

Estudo de 230 páginas feito por 27 especialistas, mais 14 colaboradores

http://www.internationalrivers.org/files/Belo%20Monte%20pareceres%20IBAMA_onl…

Entrevista com Célio Bermann, professor da USP e ex assessor de Dilma no ministério de Minas e Energia

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinh…

Sobre a poluição DO AR gerada por hidrelétricas:

http://www.apoena.org.br/artigos-detalhe.php?cod=207

http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:rhtRhjDFWaoJ:www.oecologiaaustr…

Sobre a extinção de peixes em Belo Monte:

http://pib.socioambiental.org/pt/noticias?id=84882

Sobre a demissão do presidente do IBAMA:

http://exame.abril.com.br/economia/meio-ambiente-e-energia/noticias/president…

IBAMA concede licença pra construção de Belo Monte:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2011/06/ibama-concede-licenca-de-instala…

Sobre as críticas da OEA e a resposta do Itamaraty:

http://g1.globo.com/politica/noticia/2011/04/posicao-da-oea-sobre-belo-monte-…
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/04/30/dilma-retalia-oea-por-be…

Crítica ao projeto gota d’Água, por Marcelo Carneiro da Cunha

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5475583-EI8423,00-Os%20Belos%2…

Sobre hidrelétricas como opção energética:

http://inovacao.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-2394200…

Apanhado crítico de Alexandre Porto

http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=4&post=2783

Sobre o Bispo Erwin Kräutler:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Erwin_Kr%C3%A4utler

Sobre superlotação de Altamira

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/10075-altamira-pede-suspensao-de-bel…

Reportagem da TV Folha sobre Altamira

http://www.youtube.com/watch?v=qNljSZZEWYk&feature=player_embedded

Vídeo do Daniel Fraga

http://www.youtube.com/watch?v=OJuxqXBPLPI

Usina de Três Gargantas na China, não só falhou em reduzir a poluição como PIOROU ela:

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/760942-poluicao-em-hidreletrica-de-tres…

Link do projeto Gota D’Água, com novos vídeos:

http://movimentogotadagua.com.br/

Tirinha-resumo do texto para viralizar:

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USP: Um desabafo

Aviso: Esse artigo possui 6 páginas. Se você achar longo demais não se preocupe, certamente a VEJA ou a GLOBO poderão te dar um resuminho que você será capaz de processar em 3 minutinhos, antes de assistir o Big Brother. Obrigado por nos visitar.

 “Cinco da manhã. Você mora no CRUSP, mas não é afiliado a partido nenhum. Sempre foi apenas estudar, diz que se sente orgulhoso pela coroação do seu próprio esforço em conseguir passar na USP, e por isso mesmo sempre foi contra qualquer paralização – a Universidade é para estudar, não é para discutir política. Você estuda Literatura, então te interessa discutir o texto crítico que fala da obra literária que fala de política. Essa é sua carreira. Então começa a respirar mal, dormindo, porque tem gás lacrimogênio entrando pela sua janela. Tenta sair, mas tem luz de helicoptero na sua cara. Ouve bala de borracha de madrugada, e criança chorando, vê de relance cavalos e fuzis de verdade, gente algemada, gente gritando. Chega mais perto no meio da fumaça, para ver o que é. Sente a força nas costas, cai no chão. É algemado. Entenderam tudo errado. Você não queria ajudar ninguém…”

-Yuri Bossonaro

Esse artigo tem como objetivo lançar uma luz sobre os eventos lamentáveis do dia 08/11, ultima terça, quando a ocupação da reitoria na USP se tornou uma zona de guerra com mais de 400 policiais da tropa de choque, 3 helicópteros, policia montada, fuzis, gás lacrimogêneo e bala de borracha. 72 estudantes e funcionários da USP foram detidos. Dezenas de outros, como o coitado do texto acima, apanharam por estar no lugar errado na hora errada.

A despeito de minha raiva instantânea por tudo o que aconteceu, o pior veio depois, ao me deparar com a hedionda complacência e quase admiração com que amigos, familiares e tantos outros aplaudiram as ações da PM, como se estivéssemos falando da ocupação de um morro tomado por traficantes e não da invasão de uma reitoria repleta de alunos, estudantes…

Talvez isso se deva ao fato de que grande parte dessas pessoas não tenha a menor idéia de quem seja João Grandino Rodas, o reitor da USP e responsável pelo “massacre” da ultima terça, e também não tenha a menor idéia do que os alunos realmente reivindicavam. Prefiro tentar manter algum otimismo ou esperança na minha espécie.

Decidi perfurar o “lobby” da grande midia uma vez mais e fornecer algumas informações.  O que cada um fará com elas, ou se elas serão capazes de mudar a cabeça de alguém, ja nao posso dizer. Só não posso me calar.

Antes de falar sobre o ocorrido da ultima terça, acho interessante um breve esclarecimento sobre os 3 principais elementos da tragédia: Os estudantes da FFLCH, João Grandino Rodas e a Policia Militar Brasileira.

Sobre os estudantes:  

Segundo ranking internacional feito pela Top Universities, nove cursos da USP figuram entre os 200 melhores do mundo. Dentre esses, seis são da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas: Filosofia, Sociologia, História, Lingüística, Ciências Políticas e Geografia.

http://www.topuniversities.com/

Posto que esse índice mede o resultado do aprendizado do aluno, é interessante citá-lo para mostrar como aqueles barbudos subversivos que nossa mídia marrom tem pintado como um “bando de baderneiros sem causa” são na verdade as maiores mentes de nosso país, pelo menos sob o aspecto acadêmico.

Pode-se alegar que os responsáveis pela ocupação na reitoria não representam a vontade de todos os alunos da FFLCH, isso é fato. Mas se existem divergências quanto aos meios adotados pelos ocupantes e os demais alunos, o mesmo não se aplica aos fins. Que fins são esses? Voltaremos nisso em breve.

Sobre João Grandino Rodas:

Reitor da USP, colocado lá por José Serra em 2009, Grandino Rodas participa do corpo docente da universidade a muito mais tempo, possuindo um histórico bastante questionável de relacionamento com militares durante o período da ditadura.

Rodas também está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção pelo envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.

É considerado o reitor mais ausente da história da universidade, jamais se colocando a disposição tanto dos alunos quanto do próprio corpo docente, sendo inclusive o primeiro reitor da história a ser considerado “persona non grata” pela Congregação da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em represália a constantes ataques contra seu atual diretor.

Desde muito antes dos recentes episódios que colocaram em cheque a segurança da universidade, como o assassinato do aluno no estacionamento, já possui um histórico extremamente próximo com a Policia Militar. Em 22 de agosto de 2007, na época diretor da Faculdade de Direito, foi responsável pela entrada da tropa de choque na Faculdade, expulsando manifestantes da UNE e do MST, estudantes e membros do diretório acadêmico que haviam ocupado o prédio como parte das manifestações da Jornada da Defesa da Educação.

Em janeiro de 2011 foi responsável pela demissão em massa de 270 funcionários, por corte de verbas – a despeito dos imensos desvios e má aplicação do orçamento. Esse fato e diversas outras denuncias lhe renderam um convite para prestar esclarecimentos na Assembléia Legislativa de São Paulo (24 de março de 2011), mas ele não compareceu. Ele também não compareceu a dezenas de outras reivindicações e assembléias convocadas pelos alunos e professores ao longo de seu mandato. O que se fala é que é mais eficiente reclamar para Deus do que para João Grandino Rodas, no que concerne qualquer problema, duvida ou questionamento a respeito do que se passa na USP.

Sobre a Polícia Militar

Considerada uma das policias mais violentas do mundo, é um órgão que durante as décadas de ditadura foi usado como maquina de repressão do estado sobre a população. Foi NO MINIMO indiretamente responsável ou NO MINIMO conivente com o desaparecimento e assassinato de pelo menos 475 pessoas, segundo o livro “Direito a memória e à verdade”, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos na ultima década.

Durante o período da ditadura a Policia Militar e a USP tiveram um relacionamento particularmente tenso, já que os principais movimentos de combate à ditadura no Brasil nasceram na universidade. Uma parcela considerável de nossos desaparecidos políticos daquele período eram alunos ou professores.

É uma policia subordinada aos governos dos estados e não às prefeituras, um modelo bastante raro no mundo. É apenas uma das muitas alternativas para assegurar a segurança pública, como a Policia Civil ou a Guarda Civil da USP, que deixou de receber treinamento e investimento por decisão do próprio Grandino.

Protagonizaram diversos eventos recentes de abuso de violência e repressão a artistas de rua, passeatas pacíficas ou movimentos como o Acampa Sampa.

O então delegado da Policia Militar (e hoje deputado estadual) Hélio Luz deu um chocante depoimento no documentário “Noticias de uma Guerra Particular” onde ele é bem categórico em dizer que “a polícia faz o papel de ‘proteção da elite’ e só pode usar a repressão para controlar dois milhões de pessoas nas favelas”. Ele admite que a polícia é uma instituição corrupta e afirma que “nós garantimos uma sociedade injusta”.

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Apresentados os personagens da tragédia, vamos aos fatos.

A despeito da crença popular de que o fato que desencadeou  na invasão da reitoria e subseqüente violência da ultima terça tenha sido a prisão de 3 estudantes por estar fumando maconha no campus, os problemas do movimento estudantil que resultaram na ocupação da reitoria datam de muito antes.

A USP carece de planejamento urbanístico que favoreça a segurança, carece de iluminação apropriada e desde que Grandino Rodas assumiu a Guarda Universitária – real responsável pela segurança da autarquia (significa pela constituição que possui direito à autonomia administrativa) que é a USP – tem sofrido constantes cortes orçamentários, cortes em treinamento, equipamento, etc.

Isso já é pauta de discussão entre os diversos membros do movimento estudantil faz anos. Grandino Rodas não apenas ignorou durante anos os apelos do movimento, como adotou algumas outras medidas “excelentes” para a segurança da faculdade, como proibir a circulação de não-alunos nas dependências da Universidade.

Obviamente essa proibição vale apenas para as pessoas que como eu ou você, usam a portaria da USP, mas não para os trombadinhas ou traficantes que pulam os muros ou se embrenham pelas matas que cercam o campus. A USP já era um local ermo, se tornou um lugar ainda mais vazio. Sem iluminação e sem investimento algum em segurança, se tornou realmente terra de ninguém.

O que poucos enxergam é que isso foi deliberadamente provocado por Rodas ao longo de anos, sob constantes protestos e reclamações do corpo estudantil, para criar uma situação que JUSTIFICASSE a presença da PM na universidade.

As reivindicações dos alunos que invadiram a reitoria e foram arrancados de lá na porrada essa semana não eram”poder fumar maconha no campus”. O que eles queriam era o que já estavam pedindo a anos: Investimento real na segurança da Universidade, mas não abrindo as portas para a PM e fechando para a população (o que Rodas fez).

Grande parte do movimento estudantil da USP era contrário à ocupação do prédio da reitoria, mas são TOTALMENTE solidários às reivindicações listadas acima. Prova disso é a adesão de mais de 3000 alunos na assembléia realizada no dia 08/11, onde se decidiu pela greve.

Todas as decisões de Rodas nos últimos anos confluem para um único fim: Coibir a autonomia administrativa da universidade. Implodir sua estrutura de forma a justificar uma presença cada vez mais constante do estado, um movimento para a privatização das universidades e sua subseqüente subordinação ao segundo setor.

A palavra “Democracia” é derivada do grego “demo” (povo) e “cracia” (poder ou governo). Em um mundo onde nossa “democracia” tem se tornado uma ditadura subliminar, em que o estado se coloca sobre o povo e as empresas e corporações se colocam sobre o estado, a USP (berço intelectual, historicamente responsável pelo nascimento da maioria das revoluções que nosso país conheceu) possuir autonomia administrativa é uma imensa ameaça e um incomodo a ser extirpado.

E usando os bons e velhos artifícios de MEDO para convencer a população de que é preferível abrir mão da própria liberdade para ter segurança (11/09 e o ato patriótico nos EUA, só pra dar um exemplo bem recente) os grandes veículos de mídia, subordinados ao estado e às grandes empresas, estão conseguindo virar a opinião pública contra aqueles que lutam pela nossa liberdade.

Agora está feito. Você pode ter lido (talvez pela primeira vez) os motivos REAIS da ocupação no prédio da reitoria, pode ter ouvido um outro ponto de vista, e continuar achando tudo isso sem significado, continuar achando a causa vazia. Tudo bem.

Não acho que toda a população precise concordar com os motivos de um protesto ou de outro. Como me disseram ontem e eu concordo, “democracia também é divergência de opiniões”. A única coisa que espero da população é que não concorde com a violência que rolou. O cassetete que usaram é um só, pra bater na cabeça deles ontem e na minha (e na sua) amanhã.

Há um direito que antecede o direito codificado, o direito natural. Um código inerente à humanidade presente em todo ser humano, que faz a morte ser crime em quase todo canto, ou acende a luz dentro da maioria, criando desconforto ao saber do apenamento com a morte. Estrahamente esse mesmo código não indica à maioria que, NUNCA, meninos ou homens podem ser espancados, mesmo após condenação. Simplesmente não consigo entender o sangue nos olhos, quase em júbilo, com que algumas pessoas defenderam a violencia que foi perpretada na USP ontem. Me faz me perguntar se estamos perdendo nossa humanidade. Nós evoluimos alguma coisa desde que ficavamos em arquibancadas do coliseu babando enquanto gladiadores eram decapitados ?

Sei que toda generalização é burra, que não existe apenas um tipo A e um tipo B de pessoa, e também não gosto de ficar citando rede social de internet em meus textos, acaba zicando um pouco o ar de “atemporalidade” que eu gosto de dar para eles. Mas é impressionante como todas as pessoas que ontem de manha, no Facebook, estavam defendendo a invasão violenta da PM na reitoria, que estavam chamando os estudantes de “maconheiros sem causa”, de noite já estavam falando sobre a novela, o jogo de futebol, postando foto do brigadeiro que fizeram no microondas. E aqueles que se horrorizaram com o que aconteceu, que replicaram os manifestos dos estudantes, as fotos da violencia, de noite continuavam trocando textos, informações, se indignando. E hoje continuaram fazendo o mesmo…

E esse primeiro “tipo A” hipotético (a do futebol ou da novela) também é o mesmo tipo de pessoa que costumava usar os jargões “Dilma terrorista” ou “Bolsa-Esmola”, entre outros. É nosso brasileiro burguês médio, que só gosta de discutir politica na medida necessária para não fazer feio nas conversas de escritório, mas no fundo não está realmente interessado em nada e prefere viver como escravo – fingindo que é livre por poder trocar o Iphone todo ano – do que enxergar a verdade desconfortável.

É o cara que se tivesse vivido em 70 e poucos no Brasil, chamaria o guerrilheiro que lutava contra a ditadura de “ladrão” ou “terrorista”, e que acharia que é OK um estudante ou professor sumir ou tomar um tiro numa ruela por aí, afinal eles estavam “pedindo por isso mesmo”.

Todo mundo quer que as coisas fiquem bem, sem ter que limpar a sujeira depois. É patético o argumento de que “nao queremos pagar a conta” de meia de duzia de móveis quebrados na reitoria, enquanto Rodas esta sendo investigado por desvios de MILHÕES !  A desinformação do povo me dói o estomago …..

Como diria o ditado popular, “as vezes é necessário quebrar alguns ovos para fazer uma omelete”. Mas o burgues brasileiro médio é do tipo que come em restaurantes, ele nao sabe quebrar ovos nem fazer omelete.

Uma vez mais, cabe aos “barbudos que moram de aluguel”  oferecer a outra face (e infelizmente as vezes uma cadeira ou um tomate) para o cassetete e o escudo da tropa de choque, na luta para construir as mudanças das quais um dia todos esperamos usufruir …

Mais de 3 mil estudantes se reuniram, em greve, não só os “barbudos maconheiros inuteis” mas também seus futuros advogados e médicos, dispostos a discutir o que aconteceu e por um fim no terror que se instituiu na USP. Mas todos eles devem ser mesmo apenas um bando de desocupados lutando por seu direito de fumar maconha livremente e estar acima da lei …

Encerro meu texto com um pedido simples e direto: Ninguém é obrigado a ter uma opinião sobre esse assunto (ainda que eu ache estranho que isso nao ocorra naturalmente). Ninguém é obrigado a concordar com isso tudo, aliás falei com muita gente razoável e inteligente que continua sendo contra a ocupação e não tenho problema algum com isso. Ninguém é obrigado a ter uma causa, em primeiro lugar. Conheço pessoas incríveis que preferem fazer milhares de coisas em vez de se aborrecer com política e respeito isso totalmente. São as pessoas tipo C, D, E, F, G, etc desse mundo. Diversidade é essencial em qualquer sociedade saudável.

Mas, às pessoas que ficaram lotando meu facebook, caixa de e-mail ou meus ouvidos mesmo, com argumentos parcos sobre “maconheiros vagabundos” e sobre como a policia “tem mais é que descer o cacete”. A essas pessoas eu mando um recado.

Todo mundo que quiser opinar sobre o assunto com essa intensidade – nem que seja para condenar os estudantes e defender Rodas e a PM – tem que se informar o mínimo primeiro.

Toda discordancia, todo questionamento, será benvindo e acrescenta na discussão. Isso é democracia. Mas falar sem pensar não acrescenta. É só produzir barulho.

Melhor voltar pro Big Brother.

Se não for ajudar, pelo menos não atrapalhe.

………

NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESSE ARTIGO – Hoje, dia 11/11, o Estado de São Paulo anunciou a decisão da PM em construir sua primeira unidade DENTRO da Universidade de São Paulo. Já existe planejamento de local, construção, já existe projeto feito.

Mais do que nunca sou levado a acreditar que a prisão dos 3 estudantes fumando maconha na outra semana foi um ato deliberado feito com o objetivo de criar revolta nos estudantes e atrair a atenção da midia, garantindo a manipulação da opinião publica.

A PM tem circulado pela USP faz semanas, e a despeito do consumo de maconha la dentro realmente ocorrer com certa liberdade, nunca ninguém foi preso. De repente, uma semana antes de anunciarem a criação dessa unidade dentro do Campus, a policia resolveu prender alguém. Coincidência ?

Acho que não … E infelizmente os estudantes morderam a isca…

MATERIAIS COMPLEMENTARES INTERESSANTES:

Paulo Moreira: Uma verdade sobre a USP

http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/?p=3314&cp=all#comments

Eugenio Bucci : Entre o capuz e o capacete

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,usp–entre-o-capuz–e-o-capacete-,799415,0.htm

Carta Maior: Relatos dos alunos sobre a violencia policial na invasão

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19076

Carta Capital: Do massacre do Carandiru ao comando da Rota

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/do-massacre-no-carandiru-ao-comando-da-rota/

Luiz Carlos Azenha: Violencia da PM Paulista, seu proprio brasão explica

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/violencia-da-pm-paulista-seu-proprio-brasao-explica.html

Estado: Cresce numero de mortos envolvendo a Rota

http://blogs.estadao.com.br/jt-seguranca/cresce-numero-de-mortes-envolvendo-a-rota/