“Como desafiar o Status Quo” ou “Resposta a um amigo”

Ontem um amigo meu comentou que as manifestações sindicais dessa ultima quinta feira não são realmente revolucionárias porque “defendem o status quo atual”, simplesmente por não apresentarem oposição direta à presidente Dilma Roussef.

Pensei bastante sobre isso e achei pertinente escrever esse texto, porque eu acho que está realmente rolando muita confusão nos últimos tempos sobre o que é o “status quo” atual, e contra quem lutar no momento em que vamos pra rua levantar uma placa.

Como de costume, não estou aqui para dizer pra ninguém contra quem lutar, ou que posição assumir. Mas também não sou demagogo, não esconderei minhas preferências pessoais, e acima de tudo gostaria de propor uma reflexão essencial:

O que exatamente é “estar no poder”?

É possuir a cadeira da presidência? É representatividade de cadeiras no congresso? Barak Obama teve como promessa de campanha acabar com as guerras no oriente médio e fechar Guantánamo, e não fez nenhuma dessas duas coisas. É necessário compreender que “estar no poder” é muito mais do que ganhar as eleições, na verdade esse é apenas o primeiro passo de uma luta muito maior em busca da governabilidade.

Hoje em dia essa luta envolve principalmente conquistar apoio interno o suficiente para superar a sempre presente oposição, é manter-se fiel aos compromissos estabelecidos com as empresas privadas que sustentam seu partido e suas campanhas e ao mesmo tempo ser fiel às promessas feitas ao povo que te elegeu.

Disso se conclui que o “status quo” não é um cargo político (no caso, o de presidente) e sim toda uma trama de poderes estabelecida, que de forma simplificada, é formada pelos seguintes elementos abaixo (abrirei pequenos parênteses após cada um deles, para comentar algumas coisas):

1 – Os imensos grupos corporativos que financiam campanhas e monopolizam meios de comunicação e licitações públicas no geral, entre eles o Grupo EBX (do nosso querido Eike Batista), o Grupo Globo, o Grupo Abril, o Grupo Estado, a Odebretch, a Monsanto, MRV, Grupo Brookfield e os bancos Itaú Unibanco, Santander, Safra e outros.

Existem leis no Brasil que teoricamente impediriam a formação de certos grupos financeiros, justamente para limitar o poder de monopólio que eles podem exercer. Uma dessas leis prevê que nenhum grupo midiático pode possuir mais do que X canais de televisão, Y publicações impressas, etc. A Rede Globo sozinha excede em dezenas de vezes os limites permitidos pela nossa legislação, operando abertamente contra a lei brasileira a décadas. Porque ninguém faz nada?

Por causa do “Status Quo”

Esse mesmo “Status Quo” é o que permitiu que a Odebretch, principal responsável pelas obras da Usina de Belo Monte, fosse a autora dos estudos de viabilidade ambiental da própria usina (algo completamente ilegal), é o mesmo que permite que a Editora Abril seja a fornecedora EXCLUSIVA de revistas para todas as repartições e escolas públicas do país sem nunca ter participado de uma única licitação, entre outros imensos absurdos que certamente só fazem aumentar o já imenso poder que elas detém.

Esse tal “Status Quo”

2 – As famílias que estabeleceram verdadeiras oligarquias em certas regiões do Brasil, grupo composto não apenas pelas célebres famílias coronelistas como a Calheiros mas também família Marinho, família Moreira Salles, família Lemann, etc. Essas famílias controlam um patrimônio tão gigantesco, e possuem sob suas “asas” uma rede de empresas e negócios tão complexa com o governo, que fazer oposição a elas é suicídio político.

As cinco mil famílias mais ricas do Brasil possuem um patrimônio equivalente a 40% do PIB do país. Em números de 2010, equivale a R$ 1,65

TRILHÕES de reais. É uma média de R$ 294 milhões por família.

Existe um projeto da deputada Jandira Feghali, do PC do B do Rio de Janeiro, para instituir de uma vez um imposto sobre grandes riquezas no Brasil, algo que já existe em praticamente toda a Europa (as nações mais poderosas, como Alemanha e França, instituíram esse imposto a muito tempo). Foi encampada como bandeira pela CUT (segundo meu amigo, esses ‘defensores do status quo’) e apresentada à Dilma Rousseff.

O texto prevê a criação de nove faixas de riqueza em que os contribuintes ficariam obrigados a pagar esta contribuição. Só paga quem tiver patrimônio acima de R$ 4 milhões. Começa pagando anualmente 0,4% sobre o patrimônio, vai subindo até 2,1% para fortunas de R$ 150 milhões ou mais. De toda a população brasileira, aproximadamente 800 contribuintes atingiriam essa faixa.

Alguma chance desse projeto ir pra frente? Muito improvável. Por que? Por causa do “status quo”.

3 – Os diversos grupos políticos já estabelecidos no poder, que fazem constante lobby  e impedem que um presidente possua livre governabilidade. Entre eles podemos citar a famosa “Bancada Ruralista”, que força goela abaixo do presidente diversas medidas para reduzir a rigidez nos controles ambientais, conseguiu reduzir a área de proteção de margens de rios no ano passado e todos os dias tenta tornar nosso código ambiental mais e mais brando. Podemos citar a “Bancada Evangélica”, que ganha mais poder a cada dia que passa e se concentra prioritariamente em medidas que desafiam a natureza laica do estado brasileiro. Podemos citar os partidos-máfia como o DEM e o PMDB, que possuem como modus operandi a venda de votos internos e são verdadeiros “seqüestradores de governabilidade, em troca de apoio político”, entre muitos outros.

TODOS ESSES ACIMA CITADOS FORMAM O QUE A MAIORIA DAS PESSOAS CHAMA DE STATUS QUO, E COSTUMA ATRIBUIR EXCLUSIVAMENTE AO PARTIDO COM A CADEIRA DA PRESIDÊNCIA.

Dentro desse panorama que eu estabeleci (e submeto a questionamento) falar que uma passeata a favor da presidente atual é uma passeata a favor do status quo, não poderia ser falácia maior.

A rede de poderes que se formou para REALMENTE governar nosso país transcende em muito os cargos políticos. Na verdade, políticos de “esquerda” e de “direita” hoje se alternam no poder para atender aos interesses desses mesmos grupos. PT e PSDB possuem os mesmos patrões, e te garanto que esses patrões NÃO SÂO O POVO.

Uma passeata que apresenta apoio à Dilma hoje não faz isso por estar plenamente de acordo com o governo atual, o faz por ver na Dilma um “mau menor” entre as demais opções pré-estabelecidas. Faz isso porque, só pra usar um exemplo, Dilma estava pelo menos TENTANDO estabelecer um plebiscito (uma coisa é certa: plebiscito no mínimo ameaça o ‘status quo’ vigente), enquanto o principal candidato da oposição, o Aécio Neves, se declarou abertamente opositor dessa medida.

Sabe qual o é principal ideal do ser humano? A luta pelo poder. Nietzsche afirmou na “Vontade da Potência” e  eu concordo plenamente. Acima de tudo, TODO MUNDO LISTADO ACIMA QUER ACIMA DE TUDO MANTER O PODER. Isso não exclui a Dilma não, é óbvio, TODO MUNDO.

Escolhemos nossas posições políticas baseados naquilo que acreditamos fazer mais sentido, e escolhemos os nossos candidatos tentando dar ferramentas às pessoas que acreditamos ser mais capazes de apontar o leme de nossa sociedade um “pouquinho” mais pro lado que consideramos correto.

Ao contrário do que muita gente pensa, “socialismo” não é uma doutrina oposta ao capitalismo. Ambas são irmãs gêmeas. Nasceram na mesma época, e tem sofrido constante simbiose mútua desde o principio dos tempos. Se hoje você trabalha apenas 8 horas por dia (e recebe hora extra quando passa disso), se tem direito a férias, ou fundo de garantia, ou seguro desemprego, é porque algum “esquerdinha sindicalista” conquistou isso pra você.

Nenhum “vermelhinho” em sã consciência realmente acredita que votando no PSTU vai conseguir instituir um governo socialista aos moldes da União Soviética de décadas atrás. Mas muita gente vota nesses caras, e SIM, ainda no PT, por acreditar que, a despeito de todo esse STATUS QUO estabelecido lá em cima, esses partidos possuem uma inclinação maior a investir em políticas sociais, a adotar medidas mais liberais e progressistas em assuntos relacionados a drogas e religião de uma forma geral, a enfrentar um pouco mais o capital privado no momento de legislar a respeito de meio ambiente, leis trabalhistas, etc etc

A crise financeira nos EUA e na Europa se deu por causa do liberalismo descontrolado e sem regulação estatal. A operação Condor que matou e massacrou na América Latina inteira e instituiu diversas ditaduras ocorreu por apoio de empresas privadas no Brasil e nos EUA. A gente tomou borrachada da polícia naquela memorável quinta feira, antes de ganharmos as graças da mídia, porque enfrentamos o poder vigente da máfia dos transportes públicos de São Paulo.

Temos recebido constantes evidências de que o capital descontrolado é essencialmente nocivo para a imensa maioria da população, e que quando esse capital descontrolado recebe o amém do estado ele se torna algo ainda mais destrutivo e perigoso. Temos recebido constantes evidências de que a negligência acumulada de décadas de nossos governos em relação à políticas sociais, educação e saúde pública de qualidade só fizeram aumentar a violência nas ruas, e a longo prazo,  atrasar o desenvolvimento do país.

O principal poder estabelecido hoje no Brasil (e no mundo) é o poder do capital privado, em sua simbiose esquizofrênica com o estado. Apresentar oposição aos que enfrentam esse poder (sejam sindicalistas nas ruas ou uma presidenta encurralada em sua cadeira, tentando passar um plebiscito) é que é defender o “status quo”. Apoiar a argumentação de uma mídia completamente dominada por esse capital privado é que é defender o “status quo”.

Sob essa perspectiva, SIM, as manifestações sindicais de 11/07, independentemente de apoiarem um partido ou outro (mesmo se esse partido estiver no ‘poder’), são essencialmente revolucionárias. Mais do que a maioria das passeatas estabelecidas nos últimos dias.

E sob essa perspectiva, SIM, quem defende o verdadeiro “status quo” instituído pelo capital privado é sim REACIONÁRIO. E conservador. Em todos os significados possíveis da palavra.

Existe direita no Brasil SIM.

Ela só não se reconhece como direita, porque a palavra “direita”, assim como “conservador” e “reacionário” se transformou (talvez com justiça) em sinônimos de “BICHO PAPÃO” para a maioria dos brasileiros, e ainda somos “mais ou menos” uma democracia, e ninguém consegue governar nada sem ser eleito (ao menos que tenha dado sorte de nascer numa família milionária). Existe direita SIM, e é o pensamento de direita que controla os grandes grupos citados acima e consequentemente, o “status quo”. Ter uma presidente “de esquerda” no governo hoje em dia é uma pedrinha no sapato. Um incômodo que seria interessante remover, mas que (até agora) não fez lá muita diferença. E a maioria dos velhos “vermelhinhos” que até pouco tempo atrás lutavam contra esse poder, acharam melhor se render a ele, entrar no jogo e sobreviver (os Lulas da vida) do que fazer a coisa certa. Uma pena.

Mas não se enganem. Falar contra “esses caras”, só porque eles se venderam TAMBÉM, é indiretamente falar a favor da oposição, que é ainda mais vendida, mais corrupta e mais nociva.

Falar CONTRA os partidos pequenos que estão indo pra rua tentar mostrar a proposta de governo deles é INDIRETAMENTE falar a favor dos partidos grandes, que já estão no poder, e falar a favor das EMPRESAS e FAMÍLIAS que os controlam.

Muita, mas MUITA, gente dentro do PT se corrompeu, e não existe uma unica pessoa com bom senso que falaria o contrário. Mas um outro amigo meu,  Alexandre Morgado (do GAPP) que está em Recife nesse momento, me falou sobre o governador deles, do PCdoB (o mesmo partido que propôs o imposto sobre grandes fortunas). Ele foi eleito com 78% dos votos no primeiro turno, porque a população votou na extrema oposição do candidato anterior, notório por estar passeando na Europa durante seu mandato. Ele realmente parece ter atendido a maioria das demandas de sua população. Quando começaram as grandes manifestações, sabe o que o governador fez? Conseguiu que as empresas de ônibus levassem e buscassem as pessoas gratuitamente para ir as manifestações, e foi pra rua junto com o povo. Existem centenas de partidos pequenos de esquerda tentando falar com a população, e só precisam ser ouvidos. O PSTU, o PSOL, todos eles possuem propostas de governo e alguém deveria começar a ouvir o que esses caras falam…

Porque por mais que a gente queira ser “apartidário” na hora de ir pra rua, no fim das contas teremos que votar em alguém no ano que vem.

Ser revolucionário hoje é ir pra rua. E amanhã, será votar em partido pequeno. E ver esse partido perder, mas ganhar força, e continuar indo pra rua, e votando em partido pequeno, de novo, e de novo, para que os partidos grandes cada vez mais, por medo de perder o poder, acabem se dobrando mais à vontade do povo em detrimento das minorias oligárquicas de hoje.

A nossa democracia hoje é uma peça de teatro vagabunda. E a meu ver, só desse jeito conseguiremos “invadir o palco, rasgar os cenários, reescrever o script”. TOMAR CONTROLE SOBRE O STATUS QUO.

É nisso que deveríamos estar concentrados hoje.


One Comment on ““Como desafiar o Status Quo” ou “Resposta a um amigo””

  1. Guilherme disse:

    Seus textos são muito coerentes, parabéns.


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