“Revogamos o aumento da passagem, e agora?” ou “BRASIL: O gigante de muitas cabeças”

Sabe aquela felicidade tão enorme que dá vontade de chorar? De abraçar uma pessoa estranha do seu lado na rua? Não é lá muito comum. Ontem acredito que dezenas de milhares de pessoas sentiram isso, e garanto que foi um sentimento completamente inédito quando se trata de política:

Nós ganhamos. Nós ganhamos. Nós ganhamos.

Em menos de uma semana o jogo virou. Se na semana passada estávamos sendo chamados de vândalos, estávamos sendo ignorados pelo mundo e a revogação do aumento da passagem era uma utopia inalcançável, em menos de 7 dias nós conseguimos:

1 – Revogar o aumento das passagens de ônibus.

2 – Furar as mentiras da mídia e obrigar ela a ficar do nosso lado (e passar para o Datena, o Jabor, o Reinaldo Azevedo e outros boçais um recado que eles nunca mais vão esquecer).

3 – Fazer o cara que estava sentado em casa, sem entender o que estava rolando direito, descer pra rua e marchar do nosso lado. De 20.000 viramos 500.000.

4 – Abaixar a bola do Alckmin, que vai ter que entender que mexer com nosso direito de protestar é algo perigoso que nem ele nem seus sucessores nunca mais poderão ousar fazer.

5 – Mostrar pro mundo que quando a PM não desce a borracha, somos perfeitamente capazes de protestar pacificamente, e que é uma RIDÍCULA  minoria que de fato pratica atos de vandalismo. E que venha a investigação da ONU sobre o massacre da quinta feira, 13/06.

6 – Ensinar os políticos do Brasil que eles não poderão mais cumprir as agendas das grandes empresas lobistas sem se importar com os efeitos disso na população. Não toleraremos mais esses abusos.

7 – Colocar o Brasil – e suas injustiças, e o absurdo da Copa – no centro dos noticiários do mundo.

Agora é hora de esquecer momentaneamente as discussões ideológicas que permearam as ultimas  passeatas (e suas páginas de organização no Facebook). Como eu disse antes, se não formos capazes de comemorar quando vencermos uma batalha, jamais venceremos a guerra. Hoje é dia de celebração, essa vitória nunca será esquecida.

Mas amanhã, junto com a ressaca, surgirá uma pergunta inevitável (e essencial): E agora?

O imenso aumento (em números) dos últimos levantes colocou em pauta uma quantidade massiva de assuntos, problemas e motivos para marcharmos. Claro, o Brasil tem MUITA coisa errada para mudar, e quando as pessoas resolveram ir para a rua, cada uma levou o tema que considera prioritário, e viramos uma imensa massa com centenas de objetivos difusos.

“Se não são apenas 20 centavos, sobre o que é então?”

“Depende.“

Sejamos realistas: O imenso aumento de manifestantes que o movimento viu nessa semana não se deve apenas ao aumento da passagem de ônibus. Seu principal responsável foi a truculência policial da semana passada. A grande maioria das pessoas foi às ruas pelo puro e simples direito de ir. Não que a passagem não continuasse sendo o tema em pauta. Não que sua revogação não representasse nosso principal estandarte. Mas foi a violência da PM o que nos incitou, e o que nos reuniu. Seja de direita ou de esquerda, socialista ou anarquista, a favor ou contra bandeiras em passeatas: Todos querem ser livres para ir, vir, e falar. Isso é o mínimo.

A perspectiva de perder isso nos enfureceu. E nos uniu.

Passeata

Essa união foi maravilhosa e nunca será esquecida. Entretanto, fingir que somos uma única massa indivisível, lutando em uníssono pela resolução de uma lista única de problemas, é uma ilusão. Mais do que ilusório: É perigoso.

Proibir qualquer bandeira. Vetar qualquer ideologia. Taxar absolutamente todo político de corrupto. Pintar um imenso verde e amarelo sobre todas as pessoas da marcha. Eleger o hino nacional o principal canto a ser entoado. Isso tudo me lembra um episódio bem macabro de nossa história, que a imensa maioria de nós definitivamente não quer reviver. Democracia é diversidade. Unidade absoluta não existe, ao menos que alguém te obrigue a isso, e o nome desse processo é ditadura.

Olha só o que andou rolando na rede essa semana:

MILITARES

Sentiram o perigo?

Durante essa semana, anarquistas marcharam ao lado de socialistas, militantes do PSTU marcharam ao lado de pessoas que odeiam bandeiras em passeatas, pessoas gritaram “Fora Dilma” enquanto outras gritaram “Fora PSDB!”. Como esperar que todo mundo continue sempre lutando pela mesma coisa, e chegando a um acordo sobre o que deve ou não ser prioridade?

Se o PSTU não pode levar sua bandeira para a passeata pela revogação do aumento da passagem, deve haver um espaço e momento onde ele possa. Deve haver um espaço para cada um dos grupos expressar seu projeto de país, ou prioridade a ser solucionada, e para que isso seja possível, precisaremos nos dividir.

Isso nos enfraquecerá? Em números sim, mas não em discurso.

Já falei muito sobre o perigo de pautas genéricas em manifestações, mas pautas genéricas é tudo o que conseguiremos, se insistirmos que queremos apenas uma coisa. Claro que todos queremos o fim da corrupção, mas COMO fazer isso? ONDE atacar primeiro? Protestos devem ter pautas específicas, com objetivos mensuráveis: A revogação do aumento da tarifa. O veto à PEC-37. O fim do financiamento privado à campanhas políticas. Quem dirá qual será a próxima pauta?  Quem vai convencer uma massa de 500 mil pessoas a pensar igual, e marchar pelo mesmo grande objetivo?

Na minha opinião, essa é a próxima grande etapa de nosso amadurecimento político: A segregação. E diversidade é boa, meus amigos. É essencial em uma democracia.

Existe coisa demais para ser mudada nesse país, e ao menos que você tenha como objetivo de vida passar todo o seu tempo livre nas ruas, entoando cantos em passeatas, você vai ter que PRIORIZAR.

Que cada um escolha a pauta que lhe for prioritária, e compareça às passeatas que focarem nesse tema. Que sejam organizadas centenas de passeatas de 20.000 pessoas, cada uma com um tema, em vez de dezenas com 100.000 pessoas, sobre 30 temas diferentes.

E se alguém – governo, polícia ou empresa – tentar impedir uma única passeata dessas de ocorrer. Marchemos todos juntos novamente. As vezes não concordando com o que o outro pensa, mas defendendo até a morte seu direito de fazê-lo.

Lembrem-se de que existem forças imensas agindo nas sombras, tentando direcionar essa imensa força revolucionária que está nascendo, tentando transformá-la em massa de manobra. A mídia, que uma semana atrás nos odiava, agora nos ovaciona e acha que pode dizer qual nosso próximo objetivo, qual nossa próxima luta. Não podemos deixar isso acontecer.

A PURA VERDADE

Existem tantas pautas a se escolher:

– As tarifas vão abaixar, mas quem vai pagar a conta? As empresas de ônibus, ou o próprio contribuinte, por meio de outro imposto?

http://www.cartacapital.com.br/politica/camara-de-sp-protocola-cpi-para-investigar-concessoes-de-onibus-4457.html

– O financiamento privado à campanhas políticas continua sendo o maior criador de corrupção do Brasil, fazendo com que o político eleito já suba ao poder com uma agenda definida, que atenderá a seus patrocinadores muito antes de atender ao povo. Seja esse político “direitista” ou “esquerdista”, já não importa mais.

– Belo Monte ainda está sendo construída, e nossos índios ainda estão sendo massacrados.

– A PEC-37 ainda pode ser aprovada, e com isso anulado o poder investigativo do ministério publico.

– A bancada evangélica está se infiltrando em nosso legislativo e promovendo retrocessos imensos em nossas políticas, exemplo mais recente: A cura gay

– Nenhum condenado do mensalão foi pra cadeia ainda.

– A CPI do Cachoeira, a CPI das ambulâncias e o escândalo que envolve o Serra e o PSDB denunciado no livro “A Privataria Tucana” passaram batidos e ninguém parece lembrar do assunto.

– Ainda pagamos 44% de nosso PIB para bancos privados, e o estado ainda considera o aumento dos juros bancários a única medida possível para conter a inflação.

– Ainda há tentativas de tornar manifestação um crime durante a época da Copa do Mundo, o que é uma violação à nosso direito como cidadão e uma ofensa a nossa soberania como país.

– A PM do Alckmin pode até não ter mais coragem de massacrar “playboys” na Avenida Paulista depois do ultimo escândalo, mas continua massacrando gente todo dia nas periferias. Pinheirinho e a desocupação da USP ficaram impunes. A ONU recomenda o fim da PM no Brasil e a investigação de Geraldo Alckmin por violação de direitos humanos.

– A Guerra contra as drogas (mais precisamente contra a maconha) ainda custa ao contribuinte uma quantidade colossal de dinheiro e não produziu nenhum resultado em décadas de duração. A internação compulsória e a criminalização do pequeno traficante são imensos retrocessos que vão na contramão do que o mundo inteiro (EUA incluso) está fazendo…

Eu poderia continuar essa lista para sempre.

Não tem como espremer tudo isso em uma única passeata, até porque não é todo mundo que concorda que isso é importante.

Então escolha sua pauta. Organize seu grupo. Converse com as pessoas. Vá pra rua.

Vá pra rua. Já vimos que funciona.

Esse movimento só teve sucesso porque insistiu na mesma pauta até o fim. É assim que conseguiremos mudar as coisas. O “gigante adormecido” na verdade possui muitas cabeças, e só aceitando essa natureza, e explorando ela como uma QUALIDADE e uma FORÇA, ele continuará sendo realmente perigoso.

Leitura complementar / sugestões:

http://www.viomundo.com.br/politica/marilena-chaui-haddad-tem-que-quebrar-o-cartel.html

http://www.oesquema.com.br/conector/2013/06/19/seis-notas-rapidas-sobre-os-protestos.htm

http://www.viomundo.com.br/politica/sobre-datenas-jabores-e-pondes.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/os-perigos-da-infiltracao-conservadora-nos-protestos.html

http://www.viomundo.com.br/denuncias/no-centro-de-sao-paulo-manifestante-dizia-foda-se-o-brasil-nacionalismo-e-coisa-de-imbecil.html


6 Comentários on ““Revogamos o aumento da passagem, e agora?” ou “BRASIL: O gigante de muitas cabeças””

  1. Jose Antonio disse:

    Os corruptos de sempre prometendo até a mãe para continuar no poder. NÃO ACREDITEM NESTA MATÉRIA ela é à favor de todos os erros que continuam aí.

    • igorius2011 disse:

      José, desculpe, mas eu não entendi. Que erros que estão sendo cometidos minha matéria defende? O artigo foi escrito justamente para impedir que esses erros continuem sendo cometidos, e tudo o que ela faz é defender que cada um lute sua luta.

      Se você está dizendo que as pessoas não devem se expressar e lutar pelo que acreditam, isso me faz questionar suas boas intenções cara .. prefiro acreditar que você não entendeu.

      Estou aberto à discussões

  2. Allan Brito disse:

    Sensacional. Curti demais o texto e vou compartilhar por aí. Concordo com quase tudo e, como o próprio texto diz que discordâncias são fundamentais, vou dizer o que discordo: não acho que um golpe seja possível ou que a ditadura tenha alguma chance de voltar. Essa imagem que você citou como exemplo é criação de uma minoria tão alienada quando aqueles supostos anarquistas que quebraram tudo no centro de SP, na terça-feira, por exemplo. Esse tipo de minoria acéfala só serve para revoltar ainda quem realmente luta por alguma causa inteligente. Então, de certa forma (burra), eles acabam ajudando, já que a revolta é um meio de motivação.
    No mais, concordei com todo o raciocínio e principalmente com a lista de problemas do País. Se pudesse, participaria de movimentos por todas essas causas. Mas é claro… é preciso foco. Só temos que parar de pessimismo e acreditar que, na prática, essa vitória contra a tarifa só vai aumentar nossa capacidade de reivindicar e conquistar melhorias.
    Parabéns. Abraços

    • igorius2011 disse:

      Allan obrigado pelo comentário! E sobre a ditadura: Concordo que é extremamente improvável uma volta à ditadura, considerando o cenário atual. Com a internet as pessoas ganharam um poder de informação e mobilização enorme. Mas considero sim perigoso o repúdio à classe politica como um todo … afinal, se todos os políticos são corruptos, quem vai nos governar? Ou viveremos na anarquia, ou então vamos colocar um militar (ou uma corporação) no lugar do politico, e essa é a morte da democracia. Melhor nem deixar o “monstrinho” nascer não é?
      Abraços e uma vez mais obrigado!

      • Allan Brito disse:

        Olha, tenho que confessar que depois de hoje, com tanta anarquia no País inteiro e principalmente aquele incêndio provocado no Itamaray, começo a achar que esse monstrinho está mais perto de nascer. Ainda tento manter o otimismo de que essa poeira vai baixar e muita coisa boa vai surgir daí. Mas tá impossível prever…


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