“A grande passeata de 13/06/2013” ou “Quanto o Brasil virou Turquia”

Chegamos na passeata de metrô, descendo pela “Santa Cecília” em vez do “Anhangabaú” porque muita gente estava sendo revistada e presa naquela estação, ou pelo menos o boato era esse. Uma amiga de meu irmão confirmou quando nos aproximamos da catraca: 30 pessoas presas até agora. A maioria por “porte de vinagre”, que é uma boa substancia para combater os efeitos do gás lacrimogêneo. Convenhamos: ser preso por porte de VINAGRE é ser preso por coisa alguma não é? Mussolini adoraria essa. Mas continuando…

Saímos na rua e a passeata literalmente veio até nós. O chão tremia. Milhares de vozes cantando em uníssono. Sei que os números “oficiais” são bem menores, mas meu irmão que tinha ido na terça falou: “É mais do dobro de terça”. Se ele for bom de conta ( garanto que é) seriam umas 20.000 pessoas.

Saímos da estação e fomos pra rua, e a passeata literalmente caminhava na nossa direção, sentido consolação. Poderia ser uma imagem ameaçadora até, se não fosse tão linda. A maioria das pessoas estava segurando flores e a canção entoada era na verdade um apelo: “Sem violência”.

Rapidamente nos misturamos às pessoas e uma mulher de uns 40 e poucos anos, provavelmente uma dona de casa, nos ofereceu algumas flores, que prontamente distribui entre meus irmãos. Cantávamos “Sem Violência”, alternando com “O Povo Acordou” e outros gritos pacíficos, que deixavam bem claro que não queríamos encrenca. Tinha umas pessoas estranhas no meio, é verdade: Um grupo de pelo menos quatro caras que eu tenho certeza se tratar de policiais à paisana. A absoluta maioria estava lá apenas para se expressar.

Passamos na frente do Love Story e do Copan, e parecia que tudo ia correr muito bem. Quando chegamos à altura da Praça Roosevelt por outro lado, a coisa engrossou. Juro que a maioria da passeata nem tinha visto um policial ainda (eu inclusive) quando escutamos o estampido da primeira bomba. Algumas pessoas corriam pra longe e outras gritavam “Sem correr, vamos continuar juntos”, e continuamos avançando, mais lentamente, entoando o mantra “Sem Violência” toda vez que sentíamos que a coisa ia engrossar.

Bom, a coisa engrossou consideravelmente antes que pudéssemos avançar mais um quarteirão. A policia formou uma barreira no sentido oposto ao que descíamos e começou a arremessar bombas de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra nós ao mesmo tempo. O ar ficou espesso. O gás lacrimogêneo entra dentro de seus globos oculares queimando, como se fosse um ácido, e você não consegue enxergar nada. A garganta queima, os lábios queimam, tudo queima. Gente gritando por toda parte, gente caindo no chão, rolando. Mangas estendidas por toda parte implorando por um pouco de vinagre.

Vejam bem, eu nunca fui de sair na mão com a policia. Prometi para minha mãe que ia proteger meus irmãos, prometi à minha mulher que se a coisa ficasse perigosa demais, iria embora. Naquele momento ficou claro que eu não tinha mais essa opção: Tinha que me juntar à massa, ficar perto deles, pois a alternativa seria ser espancado e preso. Quem saísse naquele momento, quem tentasse desistir, seria espancado e preso. Muitos foram.

No meio da correria encontrei dois amigos meus, que se juntaram ao grupo. Não deu nem pra comemorar, porque uma nova bomba explodiu do nosso lado. Gente sangrando por causa do estilhaço da bomba (descobri depois que um amigo do meu irmão teve alguns estilhaços enfiados em sua perna). Gente que desmaiou e caiu de cabeça no chão. Meu irmão quase desmaiou pelo gás, mas assim que se recuperou ele começou a distribuir vinagre nas mangas das pessoas. Muita gente também chegou oferecendo vinagre para mim. Todo mundo unido com o mais puro e simples dos objetivos: Não ser espancado e preso. Naquele momento, aquele era o principal objetivo daquela massa, que chegou na mais boa vontade apenas para reivindicar um transporte de qualidade por um preço justo.

No meio da bagunça avistei um repórter da Record. Corri até ele e gritei: “Me filma! Quero falar”. Gravei um depoimento, ainda com a flor que eu segurava na mão, meio pisada e murcha depois de tanta confusão. Depois eu soube que ele passou na TV e que a mídia estava ficando do nosso lado, mas na hora eu gravei o depoimento por puro desespero, mas com pouca esperança de que a câmera estivesse sequer ligada.

Continuar na consolação era suicídio, então atravessamos a Praça Roosevelt em direção à Rua Augusta. A travessia foi assustadora, os helicópteros pairavam sobre nós e parecia que a qualquer momento eles despejariam Napalm na nossa cabeça, como naquele filme, o Apocalipse Now. Quem estava lá sabe que não estou exagerando. Mais bombas de gás explodiram do nosso lado e atrás de nós, gente caiu, menina estudante de 18 anos chorando desesperada…vi até um senhorzinho, tão assustado que me pergunto se ele estava na passeata ou só não se informou o bastante antes de sair de casa aquele dia.

Um pequeno grupo de pessoas tentou depredar uma cabine de banheiro público, completamente furiosos e enlouquecidos de raiva com a polícia. Os demais manifestantes impediram essas pessoas, o que quase gerou uma briga dentro da própria manifestação. Começamos a gritar “Sem Violência” de novo e a coisa acalmou. Entramos na Augusta.

Naquela altura do campeonato, algo começou a ficar claro para mim: A maioria das pessoas estava do nosso lado. Nos carros, as pessoas paradas no trânsito nos cumprimentavam, buzinavam no ritmo de nossa musica e muitas vezes abriam as janelas. Não estavam com medo de nós. Claro, havia os senhores engravatados e truculentos dentro de suas  caminhonetes, provavelmente postando no Facebook como esperavam que a PM descesse a borracha nos “vagabundos” que atrapalhavam seu retorno pra casa na hora da novela. Sempre tem. Mas a maioria estava com a gente.

Vi muita coisa engraçada, nessa subida que nos passou uma leve sensação de segurança: Vi um cara de máscara de Anonymous tascar um selinho em uma moça bonita que estava dirigindo um carro preso no trânsito. Vi um pai com uma criança pequenininha na janela, acenando para a manifestação, e os manifestantes todos acenarem e brincarem com o garotinho em retorno, que riu e dançou. Vi homens e mulheres abrirem suas janelas de casa para entregar garrafas de vinagre, em solidariedade. Recebemos MUITAS aplaudidas. Minha fé na humanidade, machucada por muita baboseira de Facebook nas ultimas semanas, começou a se regenerar.

Tudo o que é bom dura pouco: Chegando perto da Paulista, pela Bela Cintra, começamos a ouvir as explosões de novo. Os partidos recolheram suas bandeiras. Alguém comentou do meu lado: “A PM fechou a Paulista e está esperando a gente lá em cima. Agora o bicho vai pegar mesmo.”. Avisei meus dois amigos, mas foi a ultima vez que eu vi eles, porque pouco depois as pessoas começaram a voltar correndo, porque estavam “abrindo fogo” com bala de borracha nos manifestantes que estavam tentando entrar na Paulista. Mais explosões. Pensamos que enquanto estivéssemos no meio dos carros parados no transito estaríamos seguros ao menos do gás lacrimogêneo, mas a polícia começou a atirar mesmo entre os carros. Muita gente que estava tentando voltar pra casa, preso no transito, respirou o gás que era destinado para nós.

Entramos na Pedro Taques, tentando fugir de volta para a Consolação, mas vimos policia montada em peso, e também as armas que lançam bomba de gás. Ainda gritando “Sem violência” saímos encurralados pela consolação. Uma das vias estava liberada agora, e a polícia ia começar a vir de baixo, pegando um grupo inteiro pela lateral. Já estávamos divididos. Quem subiu até a Paulista não conseguiu descer, já estava sendo massacrada. E com eles, trabalhadores, transeuntes e até velhinhas saindo da Igreja São Luis. Muita gente que nem estava protestando, só estava passando. Nesse momento já tínhamos ouvido histórias de repórteres espancados e até de uma moça da Folha de São Paulo que supostamente tinha sido baleada no olho. É impressionante o que muito Whatsapp e Celular faz em uma manifestação.

Não era mais uma passeata: Era um banho de sangue. Eu só conseguia pensar na segurança dos meus irmãos. Dane-se o ônibus. Dane-se o Alckmin e o Haddad. Eu só queria proteger minha família e tirar eles dali com segurança. Surgiu a oportunidade. Uma rua estava liberada, e por ela poderíamos correr para Higienópolis e sair dali. Juntamos um grupo de umas 20 pessoas, pois sabíamos que grupos menores podiam ser atocaiados, espancados e presos. Estava acontecendo. Estávamos vendo isso do nosso lado.

Atravessamos a consolação correndo e podíamos ouvir o barulho das bombas, e ver a luz macabra das sirenes de polícia subindo a rua para ir de encontro à passeata pelo flanco. Tática de guerra contra as pessoas que a policia supostamente deveria proteger. Quem ficou lá a partir das 21h40-22h00 não teve escolha: Ou fugiu ou apanhou. A bateria do meu celular tinha acabado, e eu não sabia mais se meus amigos estavam em segurança, mas pelo menos tinha tirado meus irmãos dali.

Essa passeata é por muito, mas MUITO mais do que R$ 0,20. Não é a toa que os números só têm crescido desde que a primeira foi organizada. Essa passeata é por algo que deveria ser prioridade para todos nós, que deveria importar mais do que tudo: LIBERDADE. No momento que a população deve temer a própria polícia, mesmo quando não está fazendo NADA a não ser expressar a própria opinião pacificamente, é porque seu estado se transformou em um estado fascista.

Mesmo a mídia virando a nosso favor (claramente assustada pela virada da opinião pública) ainda tem muita gente nos chamando de vândalos e dizendo que merecemos o gás e a borrachada. Eu não me importo. Na verdade tenho pena dessas pessoas, que preferem viver como lacaios confortáveis, em vez de encarar a dura realidade de que nosso estado está se transformando, eu repito, em um estado fascista.

Estou me sentindo mais leve do que nunca hoje. Fui para a rua, dei a cara pra bater, porque era a coisa certa a fazer. E as vezes a gente precisa fazer as coisas só porque é CERTO. As vezes precisamos aceitar a idéia de nos machucar, ou correr perigo, se for para defender aquilo em que acreditamos, pois é essa noção que faz valer a pena estar vivo.

Não estava lá porque apanhar da polícia é minha idéia de uma ótima quinta feira a noite. Estava lá pela minha esposa, por mais que ela estivesse em casa morrendo de preocupação. Estava lá pelos meus futuros filhos, que não vão gostar nem um pouco se tiverem que viver em um Brasil fascista que se calou quando a PM transformou o povo em bandido. Estava lá pelos meus amigos, pelos meus pais, por todas as pessoas que podem nem entender o que eu estava fazendo, mas que colherão os frutos plantados por aqueles que saíram de casa ontem, PORQUE ERA A COISA CERTA A FAZER.

Isso está muito longe do fim, e todo mundo deveria ir pra rua. Não podemos ter medo, porque é isso que eles querem. Se a gente calar a boca, sentar no sofá de casa e ligar a televisão, eles ganham.


One Comment on ““A grande passeata de 13/06/2013” ou “Quanto o Brasil virou Turquia””

  1. Samer Ghosn disse:

    uhu!! fantástico e emocionante😉


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