“Revogamos o aumento da passagem, e agora?” ou “BRASIL: O gigante de muitas cabeças”

Sabe aquela felicidade tão enorme que dá vontade de chorar? De abraçar uma pessoa estranha do seu lado na rua? Não é lá muito comum. Ontem acredito que dezenas de milhares de pessoas sentiram isso, e garanto que foi um sentimento completamente inédito quando se trata de política:

Nós ganhamos. Nós ganhamos. Nós ganhamos.

Em menos de uma semana o jogo virou. Se na semana passada estávamos sendo chamados de vândalos, estávamos sendo ignorados pelo mundo e a revogação do aumento da passagem era uma utopia inalcançável, em menos de 7 dias nós conseguimos:

1 – Revogar o aumento das passagens de ônibus.

2 – Furar as mentiras da mídia e obrigar ela a ficar do nosso lado (e passar para o Datena, o Jabor, o Reinaldo Azevedo e outros boçais um recado que eles nunca mais vão esquecer).

3 – Fazer o cara que estava sentado em casa, sem entender o que estava rolando direito, descer pra rua e marchar do nosso lado. De 20.000 viramos 500.000.

4 – Abaixar a bola do Alckmin, que vai ter que entender que mexer com nosso direito de protestar é algo perigoso que nem ele nem seus sucessores nunca mais poderão ousar fazer.

5 – Mostrar pro mundo que quando a PM não desce a borracha, somos perfeitamente capazes de protestar pacificamente, e que é uma RIDÍCULA  minoria que de fato pratica atos de vandalismo. E que venha a investigação da ONU sobre o massacre da quinta feira, 13/06.

6 – Ensinar os políticos do Brasil que eles não poderão mais cumprir as agendas das grandes empresas lobistas sem se importar com os efeitos disso na população. Não toleraremos mais esses abusos.

7 – Colocar o Brasil – e suas injustiças, e o absurdo da Copa – no centro dos noticiários do mundo.

Agora é hora de esquecer momentaneamente as discussões ideológicas que permearam as ultimas  passeatas (e suas páginas de organização no Facebook). Como eu disse antes, se não formos capazes de comemorar quando vencermos uma batalha, jamais venceremos a guerra. Hoje é dia de celebração, essa vitória nunca será esquecida.

Mas amanhã, junto com a ressaca, surgirá uma pergunta inevitável (e essencial): E agora?

O imenso aumento (em números) dos últimos levantes colocou em pauta uma quantidade massiva de assuntos, problemas e motivos para marcharmos. Claro, o Brasil tem MUITA coisa errada para mudar, e quando as pessoas resolveram ir para a rua, cada uma levou o tema que considera prioritário, e viramos uma imensa massa com centenas de objetivos difusos.

“Se não são apenas 20 centavos, sobre o que é então?”

“Depende.“

Sejamos realistas: O imenso aumento de manifestantes que o movimento viu nessa semana não se deve apenas ao aumento da passagem de ônibus. Seu principal responsável foi a truculência policial da semana passada. A grande maioria das pessoas foi às ruas pelo puro e simples direito de ir. Não que a passagem não continuasse sendo o tema em pauta. Não que sua revogação não representasse nosso principal estandarte. Mas foi a violência da PM o que nos incitou, e o que nos reuniu. Seja de direita ou de esquerda, socialista ou anarquista, a favor ou contra bandeiras em passeatas: Todos querem ser livres para ir, vir, e falar. Isso é o mínimo.

A perspectiva de perder isso nos enfureceu. E nos uniu.

Passeata

Essa união foi maravilhosa e nunca será esquecida. Entretanto, fingir que somos uma única massa indivisível, lutando em uníssono pela resolução de uma lista única de problemas, é uma ilusão. Mais do que ilusório: É perigoso.

Proibir qualquer bandeira. Vetar qualquer ideologia. Taxar absolutamente todo político de corrupto. Pintar um imenso verde e amarelo sobre todas as pessoas da marcha. Eleger o hino nacional o principal canto a ser entoado. Isso tudo me lembra um episódio bem macabro de nossa história, que a imensa maioria de nós definitivamente não quer reviver. Democracia é diversidade. Unidade absoluta não existe, ao menos que alguém te obrigue a isso, e o nome desse processo é ditadura.

Olha só o que andou rolando na rede essa semana:

MILITARES

Sentiram o perigo?

Durante essa semana, anarquistas marcharam ao lado de socialistas, militantes do PSTU marcharam ao lado de pessoas que odeiam bandeiras em passeatas, pessoas gritaram “Fora Dilma” enquanto outras gritaram “Fora PSDB!”. Como esperar que todo mundo continue sempre lutando pela mesma coisa, e chegando a um acordo sobre o que deve ou não ser prioridade?

Se o PSTU não pode levar sua bandeira para a passeata pela revogação do aumento da passagem, deve haver um espaço e momento onde ele possa. Deve haver um espaço para cada um dos grupos expressar seu projeto de país, ou prioridade a ser solucionada, e para que isso seja possível, precisaremos nos dividir.

Isso nos enfraquecerá? Em números sim, mas não em discurso.

Já falei muito sobre o perigo de pautas genéricas em manifestações, mas pautas genéricas é tudo o que conseguiremos, se insistirmos que queremos apenas uma coisa. Claro que todos queremos o fim da corrupção, mas COMO fazer isso? ONDE atacar primeiro? Protestos devem ter pautas específicas, com objetivos mensuráveis: A revogação do aumento da tarifa. O veto à PEC-37. O fim do financiamento privado à campanhas políticas. Quem dirá qual será a próxima pauta?  Quem vai convencer uma massa de 500 mil pessoas a pensar igual, e marchar pelo mesmo grande objetivo?

Na minha opinião, essa é a próxima grande etapa de nosso amadurecimento político: A segregação. E diversidade é boa, meus amigos. É essencial em uma democracia.

Existe coisa demais para ser mudada nesse país, e ao menos que você tenha como objetivo de vida passar todo o seu tempo livre nas ruas, entoando cantos em passeatas, você vai ter que PRIORIZAR.

Que cada um escolha a pauta que lhe for prioritária, e compareça às passeatas que focarem nesse tema. Que sejam organizadas centenas de passeatas de 20.000 pessoas, cada uma com um tema, em vez de dezenas com 100.000 pessoas, sobre 30 temas diferentes.

E se alguém – governo, polícia ou empresa – tentar impedir uma única passeata dessas de ocorrer. Marchemos todos juntos novamente. As vezes não concordando com o que o outro pensa, mas defendendo até a morte seu direito de fazê-lo.

Lembrem-se de que existem forças imensas agindo nas sombras, tentando direcionar essa imensa força revolucionária que está nascendo, tentando transformá-la em massa de manobra. A mídia, que uma semana atrás nos odiava, agora nos ovaciona e acha que pode dizer qual nosso próximo objetivo, qual nossa próxima luta. Não podemos deixar isso acontecer.

A PURA VERDADE

Existem tantas pautas a se escolher:

– As tarifas vão abaixar, mas quem vai pagar a conta? As empresas de ônibus, ou o próprio contribuinte, por meio de outro imposto?

http://www.cartacapital.com.br/politica/camara-de-sp-protocola-cpi-para-investigar-concessoes-de-onibus-4457.html

– O financiamento privado à campanhas políticas continua sendo o maior criador de corrupção do Brasil, fazendo com que o político eleito já suba ao poder com uma agenda definida, que atenderá a seus patrocinadores muito antes de atender ao povo. Seja esse político “direitista” ou “esquerdista”, já não importa mais.

– Belo Monte ainda está sendo construída, e nossos índios ainda estão sendo massacrados.

– A PEC-37 ainda pode ser aprovada, e com isso anulado o poder investigativo do ministério publico.

– A bancada evangélica está se infiltrando em nosso legislativo e promovendo retrocessos imensos em nossas políticas, exemplo mais recente: A cura gay

– Nenhum condenado do mensalão foi pra cadeia ainda.

– A CPI do Cachoeira, a CPI das ambulâncias e o escândalo que envolve o Serra e o PSDB denunciado no livro “A Privataria Tucana” passaram batidos e ninguém parece lembrar do assunto.

– Ainda pagamos 44% de nosso PIB para bancos privados, e o estado ainda considera o aumento dos juros bancários a única medida possível para conter a inflação.

– Ainda há tentativas de tornar manifestação um crime durante a época da Copa do Mundo, o que é uma violação à nosso direito como cidadão e uma ofensa a nossa soberania como país.

– A PM do Alckmin pode até não ter mais coragem de massacrar “playboys” na Avenida Paulista depois do ultimo escândalo, mas continua massacrando gente todo dia nas periferias. Pinheirinho e a desocupação da USP ficaram impunes. A ONU recomenda o fim da PM no Brasil e a investigação de Geraldo Alckmin por violação de direitos humanos.

– A Guerra contra as drogas (mais precisamente contra a maconha) ainda custa ao contribuinte uma quantidade colossal de dinheiro e não produziu nenhum resultado em décadas de duração. A internação compulsória e a criminalização do pequeno traficante são imensos retrocessos que vão na contramão do que o mundo inteiro (EUA incluso) está fazendo…

Eu poderia continuar essa lista para sempre.

Não tem como espremer tudo isso em uma única passeata, até porque não é todo mundo que concorda que isso é importante.

Então escolha sua pauta. Organize seu grupo. Converse com as pessoas. Vá pra rua.

Vá pra rua. Já vimos que funciona.

Esse movimento só teve sucesso porque insistiu na mesma pauta até o fim. É assim que conseguiremos mudar as coisas. O “gigante adormecido” na verdade possui muitas cabeças, e só aceitando essa natureza, e explorando ela como uma QUALIDADE e uma FORÇA, ele continuará sendo realmente perigoso.

Leitura complementar / sugestões:

http://www.viomundo.com.br/politica/marilena-chaui-haddad-tem-que-quebrar-o-cartel.html

http://www.oesquema.com.br/conector/2013/06/19/seis-notas-rapidas-sobre-os-protestos.htm

http://www.viomundo.com.br/politica/sobre-datenas-jabores-e-pondes.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/os-perigos-da-infiltracao-conservadora-nos-protestos.html

http://www.viomundo.com.br/denuncias/no-centro-de-sao-paulo-manifestante-dizia-foda-se-o-brasil-nacionalismo-e-coisa-de-imbecil.html


Aos novatos no movimento: Atenção

Fico triste porque, por mais que seja lindo ver essa galera nova indo pra rua agora, se juntando ao grupo de antes, não vejo uma intenção real em mudar o sistema vigente da parte da maioria dessas pessoas. Derrubar a “Dilma” , “gritar contra a corrupção (genericamente)” ou “aprovar a pena de morte” (e outras loucuras parecidas que já li por aqui) não vai mudar nada gente, isso é “lugar comum”. Vocês estão virando massa de manobra política.

Sabe o que vai acontecer daqui a 2 anos? Essas manifestações e os “Fora Dilma” delas vão acabar derrubando a Dilma mesmo, e o Aécio Neves, do PSDB, vai ganhar a presidência do Brasil. Daí pra frente as coisas vão ficar ainda piores do que estavam. As mesmas empresas lobistas que roubavam durante o governo do PT, roubarão no governo do PSDB, e tudo vai continuar igual ou até pior.

Eu só queria ver um pouco de amadurecimento politico nesse movimento …. e que as pessoas que chegaram agora tentassem se inteirar um pouco antes de sair por aí vomitando “variações” do que leram nos jornais e revistas corporativos nos ultimos anos…

Estar indignado é lindo. Mas a falta de foco é o que fez manifestações extremamente bem intencionadas como o Occupy Wall Street não produzirem nenhuma mudança REAL, a despeito de todo o barulho que foi feito.

Realmente espero que abaixar o passe de ônibus mantenha-se como FOCO desse movimento até o final, porque precisamos de pelo menos UMA vitória concreta.

Realmente espero que essa babaquice de “não precisamos de partido” seja superada, porque ao menos que a gente vá viver na anarquia precisamos SIM de partidos, e é bom que apareça gente nova querendo fazer a diferença, já que tanto PT quanto PSDB estão totalmente degradados e comprometidos…

Realmente espero que as pessoas que estão entrando agora, procurem ler um pouco mais sobre política no geral, e que a galerinha que desceu pras ruas agora porque finalmente percebeu que os jornais estavam mentindo (e a PM estava massacrando a gente, e não contendo ‘baderneiros’ ) pense um pouco e questione as coisas que leram nos jornais nos últimos anos …. o buraco é MUITO mais embaixo do que simplesmente derrubar um político aqui ou outro ali. Hoje são as empresas por trás desses políticos que nos governam de verdade, e elas estão nesse exato momento encontrando formas de sobreviver ao movimento e torná-lo algo inofensivo para elas.

Se não tomarmos cuidado, no final, políticos cairão, bodes espiatórios serão criados. E nada vai mudar.

Recém chegados … obrigado pela boa intenção. Mas pensem nisso…


The “Ticket Bus Protest” in Brazil, or “How Brazil became Turkey for (at least) one night (so far)”

Observation: This is a quick “Google Translate” text, that I made to manage to tell my friends about what went on in Brazil yesterday. Should you require a better translation for any use, please let me know and I will be glad to arrange that .

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We arrived at the protest by subway, down the “Santa Cecilia Station” instead of “Anhangabaú Station” because many people were being searched and arrested at this season, or at least that was the rumor. A friend of my brother confirmed when we approach the turnstile: 30 people arrested so far. Most of “possession of vinegar”, which is a good substance to counter the effects of tear gas. Let’s face it: being arrested for bringing VINEGAR with you is being arrested for nothing at all, is not it? Mussolini would love this. But anyway …

Into the street the protest literally came to us. The ground shook. Thousands of voices singing in unison. I know the official numbers are much smaller, but my brother who had gone on Tuesday said: “It is more than double from Tuesday.” If he´s good at counting (guarantee he is) that would be around 20,000 people.

We left the station and went to the streets and the march literally walked towards us, towards Consolation Avenue. It could be a threatening image if it were not so beautiful. Most people holding flowers and the song that was sung was actually an appeal: “No violence.”

We quickly mixed with people and a woman in her 40s, probably a housewife, offered us some flowers that we readily distributed among people around us. We sang “No Violence” alternating with “The People woke up” and other peaceful screams that left very clear that we did not want trouble. There were some strange people in the middle, it’s true: A group of at least four guys that I’m sure were plainclothes police. The absolute majority was only there to express themselves.

We passed in front of the “Love Story” and “Copan Building”, and it seemed that everything would go well. When we got up to the Roosevelt Square on the other hand, the thing swelled. I swear that most of the march had not even seen a cop yet (including me) when we heard the crack of the first bomb. Some people ran away and others shouted “No running, let’s stay together,” and we continued, more slowly, intoning the mantra “No Violence” every time we felt that something was going wrong or dangerous.

Well, the thing swelled considerably before we could go one block. The police formed a barrier in the opposite direction we descended and began hurling tear gas and stun grenades at us at the same time. The air was thick.

Tear gas enters into your eyeballs burning, like an acid, and you can not see anything. The burning throat, burning lips, burning everything. People screaming everywhere, people falling to the ground, rolling. Sleeves outstretched everywhere begging for a little vinegar.

You see, I´m not the “F**** the police !!!! ” kind of guy. I hate violence. I promised my mother I would protect my brothers, I promised my wife that if thing got too dangerous I´d go away. At that moment it became clear that I no longer had that option: I had to join the mass to be around them, because the alternative would be beaten and arrested. Who came out at that time, who tried to give up, would be beaten and arrested. Many were.

Halfway through the run I found two of my friends, who joined the group. Didn´t have the chance to celebrate the encounter, because a new bomb exploded by our side. People bleeding from the shrapnel bomb (discovered after a friend of my brother had some shrapnel stuck in his leg). People who fainted and fell headlong to the ground. My brother almost fainted by the gas, but once he recovered he began distributing vinegar on the sleeves of people. Many people also came offering vinegar to me. Everyone united with the purest and simplest of goals: Not to be beaten and arrested. At that moment, that was the main goal of that mass, which came in more goodwill only to claim a quality transportation at a fair price.

In the middle of the mess I spotted a Record Ntework reporter. I ran up to him and shouted: “Film me! I want to talk. ” I recorded a statement, even with the flower that I held in my hand, stepped through and wilt after much confusion. The morning after I knew I was on TV and the media was getting on our side, but at the time I recorded a testimony of desperation, with little hope that the camera was even on, to begin with.

To continue at Consolation Avenue would have been suicide, so we crossed the Roosevelt Square toward the Rua Augusta. The crossing was frightening, helicopters hovered over us and it seemed that at any moment they would throw Napalm in our head, just like in that movie, Apocalypse Now. Who was there knows that I’m not exaggerating.

More gas bombs exploded by our side and behind us, we fell. I saw a female, 18 year old student, desperately crying, paralized by pannic … I saw even an old dude, so scared that I wonder if he was in march or just not informed enough before leaving home that day.

A small group of people tried to vandalize a cabin public bathroom, completely furious and mad with anger at the police. The remaining protesters prevented these people, which almost caused a fight within the demonstration. We all started screaming “No Violence” again and the mood calmed down. Entered in Augusta Street.

At that stage of the game, something became clear to me: Most people were on our side. Stuck in traffic, within their cars, people greeted us, honked the rhythm of our music and often opened the windows. They were not afraid of us. Sure, there were the gentlemen in suits and truculent in their trucks, probably posting on Facebook about how they expected the PM to kick our asses. There are always those. But most were with us.

I saw many funny things, as we passed by a brief and mild sense of security: I saw a guy in an Anonymous mask kissin a pretty girl who was driving a car, and stuck in traffic. I saw a parent with a child at the window, waving to the demonstration, and protesters all nodded and played with the little boy in return. They all laughed and danced togheter. I saw men and women open their home windows to deliver bottles of vinegar in solidarity. We received MANY applauds. My faith in humanity, hurt by a lot of crap from Facebook in recent weeks, began to regenerate.

All that is good lasts just: Getting close to the Paulista, by Bela Cintra, started hearing explosions again. The parties gathered their flags. Someone commented on my side: “The PM closed the Paulista and is waiting for us up there. Things are gonna get messy. “. I told my two friends, but it was the last time I saw them, because shortly after people started running back, because they were “opening fire” with rubber bullet on protesters who were trying to enter the Paulista. More explosions. We believe that while we were in the middle of the cars which were stuck in traffic, we would be safe, but the police started shooting it between cars. Many people who were trying to get home, stuck in traffic, breathed the gas that was meant for us.

We entered Pedro de Taque Street, trying to escape back to the Consolation, but saw mounted police in weight and also guns that launch the gas pump. Still screaming “No violence” we ran to Consolation Avenue once more. One of the Avenue´s ways was now released, and the police started to come from below, catching a whole bunch from the side. We were already divided. Who has ascended to the Paulista failed to descend, was already being butchered. And with them, workers, bystanders and even old ladies out of St. Louis Church. Many people who were not even protesting.

At this point we had already heard stories of reporters beaten and even a girl from the Folha de São Paulo Newspaper that supposedly had been shot in the eye. It is amazing what really makes Whatsapp and Cellular at a demonstration.

It was no longer a demonstration: It was a bloodbath. I could only think about the safety of my brothers. Screw the bus. Screw the governor Alckmin. I just wanted to protect my family and take them away safely. The opportunity arose. A street was cleared, and we could run to Moema and leave. We gathered a group of about 20 people, because we knew that smaller groups could be pursued, beaten and arrested. It was happening. We saw it by our side.

We crossed the Consolation Avenue running and we could hear the noise of the bombs, and see the light of the grisly police sirens coming up the road to meet the flank march. Tactics of war against the people that the police was supposed to protect.

Who was there after 9 p.m had two choices: Run or Fight. Fighting wasn´t a very good idea, since they had guns and we had nothing but vinegar.

The battery of my phone was gone, and I did not know if my friends were safe, but at least had taken my brothers away.

This march is for MUCH more than the £ 0.20 raise on the ticked fare. No wonder that the numbers have only grown since the first was organized. This march is for something that should be a priority for all of us who should matter most of all: FREEDOM.

When you realize the population should fear the police, even when not doing ANYTHING but expressing their opinion peacefully, you realize you´re living in a fascist like state.

Even the media turning to our favor (clearly frightened by the turn of public opinion) there is still a lot of people calling us vandals and saying we deserved the gas and the violence. I don´t care. Actually I feel sorry for those people who prefer to live as comfortable lackeys, rather than face the harsh reality that our state is turning, I repeat, into a fascist state.

I’m feeling lighter than ever today. I went to the street because it was the right thing to do. And sometimes we need to do things just because it’s RIGHT. Sometimes we need to accept the idea of ​​being hurt or in danger, if it is to stand up for what we believe, it is this notion that makes it worth being alive.

I was not there because fighting the police is my idea of ​​a great Thursday night. I was there for my wife, even though she was at home worried sick. Was there for my future children, they will not like it one bit if they have to live in a fascist Brazil. Was there for my friends, my parents, for all the people who can not understand what I was doing, but who will reap the fruits planted by those who left home yesterday, BECAUSE IT WAS THE RIGHT THING TO DO.

This is far from over, and everyone should go to the streets. We can not be afraid, because that’s what they want. If we shut up, sit on the couch home and turn on the television, they win.


“A grande passeata de 13/06/2013” ou “Quanto o Brasil virou Turquia”

Chegamos na passeata de metrô, descendo pela “Santa Cecília” em vez do “Anhangabaú” porque muita gente estava sendo revistada e presa naquela estação, ou pelo menos o boato era esse. Uma amiga de meu irmão confirmou quando nos aproximamos da catraca: 30 pessoas presas até agora. A maioria por “porte de vinagre”, que é uma boa substancia para combater os efeitos do gás lacrimogêneo. Convenhamos: ser preso por porte de VINAGRE é ser preso por coisa alguma não é? Mussolini adoraria essa. Mas continuando…

Saímos na rua e a passeata literalmente veio até nós. O chão tremia. Milhares de vozes cantando em uníssono. Sei que os números “oficiais” são bem menores, mas meu irmão que tinha ido na terça falou: “É mais do dobro de terça”. Se ele for bom de conta ( garanto que é) seriam umas 20.000 pessoas.

Saímos da estação e fomos pra rua, e a passeata literalmente caminhava na nossa direção, sentido consolação. Poderia ser uma imagem ameaçadora até, se não fosse tão linda. A maioria das pessoas estava segurando flores e a canção entoada era na verdade um apelo: “Sem violência”.

Rapidamente nos misturamos às pessoas e uma mulher de uns 40 e poucos anos, provavelmente uma dona de casa, nos ofereceu algumas flores, que prontamente distribui entre meus irmãos. Cantávamos “Sem Violência”, alternando com “O Povo Acordou” e outros gritos pacíficos, que deixavam bem claro que não queríamos encrenca. Tinha umas pessoas estranhas no meio, é verdade: Um grupo de pelo menos quatro caras que eu tenho certeza se tratar de policiais à paisana. A absoluta maioria estava lá apenas para se expressar.

Passamos na frente do Love Story e do Copan, e parecia que tudo ia correr muito bem. Quando chegamos à altura da Praça Roosevelt por outro lado, a coisa engrossou. Juro que a maioria da passeata nem tinha visto um policial ainda (eu inclusive) quando escutamos o estampido da primeira bomba. Algumas pessoas corriam pra longe e outras gritavam “Sem correr, vamos continuar juntos”, e continuamos avançando, mais lentamente, entoando o mantra “Sem Violência” toda vez que sentíamos que a coisa ia engrossar.

Bom, a coisa engrossou consideravelmente antes que pudéssemos avançar mais um quarteirão. A policia formou uma barreira no sentido oposto ao que descíamos e começou a arremessar bombas de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra nós ao mesmo tempo. O ar ficou espesso. O gás lacrimogêneo entra dentro de seus globos oculares queimando, como se fosse um ácido, e você não consegue enxergar nada. A garganta queima, os lábios queimam, tudo queima. Gente gritando por toda parte, gente caindo no chão, rolando. Mangas estendidas por toda parte implorando por um pouco de vinagre.

Vejam bem, eu nunca fui de sair na mão com a policia. Prometi para minha mãe que ia proteger meus irmãos, prometi à minha mulher que se a coisa ficasse perigosa demais, iria embora. Naquele momento ficou claro que eu não tinha mais essa opção: Tinha que me juntar à massa, ficar perto deles, pois a alternativa seria ser espancado e preso. Quem saísse naquele momento, quem tentasse desistir, seria espancado e preso. Muitos foram.

No meio da correria encontrei dois amigos meus, que se juntaram ao grupo. Não deu nem pra comemorar, porque uma nova bomba explodiu do nosso lado. Gente sangrando por causa do estilhaço da bomba (descobri depois que um amigo do meu irmão teve alguns estilhaços enfiados em sua perna). Gente que desmaiou e caiu de cabeça no chão. Meu irmão quase desmaiou pelo gás, mas assim que se recuperou ele começou a distribuir vinagre nas mangas das pessoas. Muita gente também chegou oferecendo vinagre para mim. Todo mundo unido com o mais puro e simples dos objetivos: Não ser espancado e preso. Naquele momento, aquele era o principal objetivo daquela massa, que chegou na mais boa vontade apenas para reivindicar um transporte de qualidade por um preço justo.

No meio da bagunça avistei um repórter da Record. Corri até ele e gritei: “Me filma! Quero falar”. Gravei um depoimento, ainda com a flor que eu segurava na mão, meio pisada e murcha depois de tanta confusão. Depois eu soube que ele passou na TV e que a mídia estava ficando do nosso lado, mas na hora eu gravei o depoimento por puro desespero, mas com pouca esperança de que a câmera estivesse sequer ligada.

Continuar na consolação era suicídio, então atravessamos a Praça Roosevelt em direção à Rua Augusta. A travessia foi assustadora, os helicópteros pairavam sobre nós e parecia que a qualquer momento eles despejariam Napalm na nossa cabeça, como naquele filme, o Apocalipse Now. Quem estava lá sabe que não estou exagerando. Mais bombas de gás explodiram do nosso lado e atrás de nós, gente caiu, menina estudante de 18 anos chorando desesperada…vi até um senhorzinho, tão assustado que me pergunto se ele estava na passeata ou só não se informou o bastante antes de sair de casa aquele dia.

Um pequeno grupo de pessoas tentou depredar uma cabine de banheiro público, completamente furiosos e enlouquecidos de raiva com a polícia. Os demais manifestantes impediram essas pessoas, o que quase gerou uma briga dentro da própria manifestação. Começamos a gritar “Sem Violência” de novo e a coisa acalmou. Entramos na Augusta.

Naquela altura do campeonato, algo começou a ficar claro para mim: A maioria das pessoas estava do nosso lado. Nos carros, as pessoas paradas no trânsito nos cumprimentavam, buzinavam no ritmo de nossa musica e muitas vezes abriam as janelas. Não estavam com medo de nós. Claro, havia os senhores engravatados e truculentos dentro de suas  caminhonetes, provavelmente postando no Facebook como esperavam que a PM descesse a borracha nos “vagabundos” que atrapalhavam seu retorno pra casa na hora da novela. Sempre tem. Mas a maioria estava com a gente.

Vi muita coisa engraçada, nessa subida que nos passou uma leve sensação de segurança: Vi um cara de máscara de Anonymous tascar um selinho em uma moça bonita que estava dirigindo um carro preso no trânsito. Vi um pai com uma criança pequenininha na janela, acenando para a manifestação, e os manifestantes todos acenarem e brincarem com o garotinho em retorno, que riu e dançou. Vi homens e mulheres abrirem suas janelas de casa para entregar garrafas de vinagre, em solidariedade. Recebemos MUITAS aplaudidas. Minha fé na humanidade, machucada por muita baboseira de Facebook nas ultimas semanas, começou a se regenerar.

Tudo o que é bom dura pouco: Chegando perto da Paulista, pela Bela Cintra, começamos a ouvir as explosões de novo. Os partidos recolheram suas bandeiras. Alguém comentou do meu lado: “A PM fechou a Paulista e está esperando a gente lá em cima. Agora o bicho vai pegar mesmo.”. Avisei meus dois amigos, mas foi a ultima vez que eu vi eles, porque pouco depois as pessoas começaram a voltar correndo, porque estavam “abrindo fogo” com bala de borracha nos manifestantes que estavam tentando entrar na Paulista. Mais explosões. Pensamos que enquanto estivéssemos no meio dos carros parados no transito estaríamos seguros ao menos do gás lacrimogêneo, mas a polícia começou a atirar mesmo entre os carros. Muita gente que estava tentando voltar pra casa, preso no transito, respirou o gás que era destinado para nós.

Entramos na Pedro Taques, tentando fugir de volta para a Consolação, mas vimos policia montada em peso, e também as armas que lançam bomba de gás. Ainda gritando “Sem violência” saímos encurralados pela consolação. Uma das vias estava liberada agora, e a polícia ia começar a vir de baixo, pegando um grupo inteiro pela lateral. Já estávamos divididos. Quem subiu até a Paulista não conseguiu descer, já estava sendo massacrada. E com eles, trabalhadores, transeuntes e até velhinhas saindo da Igreja São Luis. Muita gente que nem estava protestando, só estava passando. Nesse momento já tínhamos ouvido histórias de repórteres espancados e até de uma moça da Folha de São Paulo que supostamente tinha sido baleada no olho. É impressionante o que muito Whatsapp e Celular faz em uma manifestação.

Não era mais uma passeata: Era um banho de sangue. Eu só conseguia pensar na segurança dos meus irmãos. Dane-se o ônibus. Dane-se o Alckmin e o Haddad. Eu só queria proteger minha família e tirar eles dali com segurança. Surgiu a oportunidade. Uma rua estava liberada, e por ela poderíamos correr para Higienópolis e sair dali. Juntamos um grupo de umas 20 pessoas, pois sabíamos que grupos menores podiam ser atocaiados, espancados e presos. Estava acontecendo. Estávamos vendo isso do nosso lado.

Atravessamos a consolação correndo e podíamos ouvir o barulho das bombas, e ver a luz macabra das sirenes de polícia subindo a rua para ir de encontro à passeata pelo flanco. Tática de guerra contra as pessoas que a policia supostamente deveria proteger. Quem ficou lá a partir das 21h40-22h00 não teve escolha: Ou fugiu ou apanhou. A bateria do meu celular tinha acabado, e eu não sabia mais se meus amigos estavam em segurança, mas pelo menos tinha tirado meus irmãos dali.

Essa passeata é por muito, mas MUITO mais do que R$ 0,20. Não é a toa que os números só têm crescido desde que a primeira foi organizada. Essa passeata é por algo que deveria ser prioridade para todos nós, que deveria importar mais do que tudo: LIBERDADE. No momento que a população deve temer a própria polícia, mesmo quando não está fazendo NADA a não ser expressar a própria opinião pacificamente, é porque seu estado se transformou em um estado fascista.

Mesmo a mídia virando a nosso favor (claramente assustada pela virada da opinião pública) ainda tem muita gente nos chamando de vândalos e dizendo que merecemos o gás e a borrachada. Eu não me importo. Na verdade tenho pena dessas pessoas, que preferem viver como lacaios confortáveis, em vez de encarar a dura realidade de que nosso estado está se transformando, eu repito, em um estado fascista.

Estou me sentindo mais leve do que nunca hoje. Fui para a rua, dei a cara pra bater, porque era a coisa certa a fazer. E as vezes a gente precisa fazer as coisas só porque é CERTO. As vezes precisamos aceitar a idéia de nos machucar, ou correr perigo, se for para defender aquilo em que acreditamos, pois é essa noção que faz valer a pena estar vivo.

Não estava lá porque apanhar da polícia é minha idéia de uma ótima quinta feira a noite. Estava lá pela minha esposa, por mais que ela estivesse em casa morrendo de preocupação. Estava lá pelos meus futuros filhos, que não vão gostar nem um pouco se tiverem que viver em um Brasil fascista que se calou quando a PM transformou o povo em bandido. Estava lá pelos meus amigos, pelos meus pais, por todas as pessoas que podem nem entender o que eu estava fazendo, mas que colherão os frutos plantados por aqueles que saíram de casa ontem, PORQUE ERA A COISA CERTA A FAZER.

Isso está muito longe do fim, e todo mundo deveria ir pra rua. Não podemos ter medo, porque é isso que eles querem. Se a gente calar a boca, sentar no sofá de casa e ligar a televisão, eles ganham.