MENSALÃO: UM DESABAFO

Nas ultimas semanas nosso país foi estremecido pelo julgamento do Mensalão, que muito antes de sua conclusão já era chamado por toda a nossa grande mídia de “O mais importante acontecimento da nossa história política recente”.  Eu falo com as pessoas nos jantares, nas filas e nas mesas de bar, e tenho visto tanta gente radiante com a condenação de Dirceu, Genoíno e seus  “comparsas” que estou até me deixando contaminar por um pouco dessa alegria.

Quem sabe, não é? Talvez estejamos realmente assistindo o momento histórico em que a política brasileira vislumbrou uma luz de ética no fim do longo e escuro túnel no qual estávamos enfiados por tantos anos. Talvez as coisas estejam realmente melhorando, e o julgamento do mensalão seja o arauto de uma nova era para nossa democracia.

Poxa vida, não estava todo mundo dizendo que o julgamento ia dar em pizza, afinal foi o Lula que apontou os juízes (e todo mundo sabe que o Lula come criancinhas)?

Nesse clima de esperança que me acometeu, só me resta torcer para que as coisas não parem por aí. Que os bravos e imparciais juízes do STF, liderados por seu presidente-super-herói Joaquim Barbosa e contando com o suporte de nossa ética e assertiva grande mídia, continuem firmes em sua cruzada.

Que com o mesmo ímpeto demonstrado nos últimos meses, essa poderosa “liga de homens bravos” que se formou possa agora voltar sua atenção ao caso de Carlos Cachoeira, tão negligenciado durante a época do mensalão,  e esmiuçar mais a fundo as comprovadas relações do contraventor com o jornalista da VEJA Policarpo Jr e com o Grupo Abril.

E quando esse caso estiver esclarecido, que seja permitida a essa “Liga da Justiça” revisitar o curioso caso de compra de votos identificado na campanha de reeleição de 1998 do PSDB, o já esquecido “Mensalão Tucano” ou “Mensalão Mineiro”. Protagonizado por Eduardo Azeredo e Marcos Valério (e Fernando Henrique Cardoso? Afinal ele ‘não tinha como não saber’), esse evento nunca virou CPI nem ganhou um décimo da exposição do “Mensalão Petista”, mas foi o famoso evento do qual fala a consagrada frase de Carlos Ayres Britto: “Caixa dois é um modelo mais do que espúrio. É um modelo maldito de financiamento de campanha em nosso País.”. Talvez agora que a verdade esteja cavando seu caminho no meio das mentiras de nossa política, esse caso possa finalmente se esclarecer.

Ainda sobre 98, quem sabe não chegou também o momento em que a população brasileira finalmente entenderá o que aconteceu de verdade na privatização da Telebrás, e porque as gravações escandalosas da cúpula do governo da época – envolvendo negócios inescrupulosos na casa de R$ 22 bilhões – nunca viraram CPI e nunca prenderam ninguém.

Aliás, falando em privatizações, seria interessante que nossa mídia pudesse agora dedicar alguma atenção ao dossiê de 115 páginas preparado pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr.: “A Privataria Tucana”.

O Best Seller tem como tese que a privatização de diversas empresas estatais do Brasil, realizada durante gestão tucana e sob sua liderança, foi a maior roubalheira da história da república.

Os personagens principais dessa documentada roubalheira são gente do alto tucanato: Ricardo Sérgio de Oliveira (senhor dos caminhos das offshores caribenhas), Gregório Marin Preciado (sócio de José Serra), Alexandre Bourgeois (genro de José Serra), a filha de Serra, Verônica (cuja offshore caribenha, em sociedade com Verônica Dantas, lavou pelo menos 5 milhões de dólares), o próprio José Serra e o indefectível Daniel Dantas. Isso não deve ser problema para nossos imparciais paladinos.

Segundo o dossiê, durante um bom tempo nosso governo vendeu patrimônio público a preço de banana a empresas de parentes (laranjas), lavando dinheiro com a tranqüilidade de que nunca seria jogado aos leões.

Talvez esse Amaury Jr. seja realmente um agitador, um fanfarrão. Talvez essas provas sejam falsas, os documentos não sejam válidos. Mas eu adoraria ver o assunto discutido na televisão, quem sabe no Jornal Nacional. Adoraria ver uma reportagem da VEJA  ou uma capa de Estadão sobre o assunto. Quem sabe na hora que o Mensalão sair de moda os diagramadores não dão um jeito de conseguir um espacinho?  Gostaria de ver alguns dos nomes citados nos parágrafos acima prestando contas para Joaquim Barbosa e nossos prestigiados juízes.

Já que estamos desenterrando o passado, talvez seria hora de revisitar o caso do PC Farias, e buscar os demais 110 empresários e 400 empresas envolvidas no escândalo onde ele foi o único condenado. Bastaria revisitar as centenas de páginas do inquérito feito pela Policia Federal na época, e convenientemente esquecido pouco depois.

Já que estamos finalmente fazendo justiça nesse país, acho que seria de bom tom revisitar algumas das 69 CPIs barradas pelo governo Fernando Henrique Cardoso (o governo que mais barrou CPIs na história de nosso Brasil). Não estou exagerando não, foram 69, que serão listadas como anexo no fim deste artigo.

Enfim. Quem estou tentando enganar? Qualquer leitor capaz de identificar o mínimo de ironia já deve ter percebido que eu não estou nem um pouco eufórico com o final do julgamento do mensalão.

Peço para que os leitores deste artigo não confundam a ironia de minhas palavras com qualquer tipo de cinismo. Adorei ver aqueles políticos corruptos serem condenados, antes se julgando invulneráveis mas finalmente sentindo o peso da justiça sob suas cabeças. O julgamento do mensalão foi realmente algo sem precedentes, e ele pode realmente ser o sinal de novos tempos. Mas isso não depende de nenhum “juiz super herói” e sim de toda a população. E depende do que vai acontecer agora.

Quando o povo brasileiro for capaz de se libertar desse imenso clichê maniqueísta que dominou o debate sobre o assunto (PT = quadrilha, PSDB = bonzinhos), e realmente exigir de sua mídia, de seu Supremo Tribunal, de sua polícia, um tratamento imparcial e verdadeiro sobre o que é lutar pela ética em nosso país, nesse momento as coisas vão realmente começar a mudar.

No momento em que os mesmos juízes que condenaram Dirceu se mostrarem capazes de condenar José Serra, ou Policarpo Jr, eu realmente me convencerei de que eles estão lutando pela ética como um conceito, e não pelo benefício ou interesse de um partido ou outro.

Na hora que a população brasileira cansar de ser joguete na guerra entre partidos, parar de acreditar em tudo que lê no jornal e começar a buscar informação em mais de um lugar, daí sim estaremos vislumbrando um acontecimento histórico.

Não há dúvida de que houve mensalão. Estou feliz pela condenação dos responsáveis, e se houver mais alguém que deva ser acrescentado ao grupo, Lula incluso, que seja. Mas vou comemorar comedidamente. Não estou convencido de que essa celebração toda, por enquanto, não é acima de tudo só um clamor da classe media alta pela possibilidade de ver o PT se ferrando.

Apenas no momento que a população brasileira cansar de ser entretida pelo “pão e circo intelectual” que foi o espetáculo televisionado do mensalão, e acordar para o fato de que a corrupção nesse país é estrutural e apartidária, me permitirei festejar de verdade.

Na época do Mensalão Mineiro (aquele que crucificava o PSDB em 98), o juiz Ricardo Lewandowski (o mesmo que hoje é considerado um vendido e um criminoso) foi um dos grandes “paladinos” pela condenação de Eduardo Azeredo. Por isso essa história de chamar o Joaquim Barbosa de Batman e o Lewandowski de Coringa não cola. Não mesmo. Existe gente honesta e gente desonesta em todos os partidos, e não por acaso quanto maior o partido, maior o problema (o poder absoluto corrompe absolutamente).

Infelizmente, o discurso ético do político de partido grande (ou jornalista político) de nosso país ainda segue aquela máxima do Getúlio Vargas: “A meus amigos: tudo. A meus inimigos: a lei”.

Chegou a hora da população brasileira aceitar que está muito mais imersa na sujeira do que o noticiário otimista comemorando a condenação de Dirceu tem feito parecer. Chegou a hora do brasileiro parar de acreditar em super-heróis (e supervilões) e virar gente grande.

Quando isso acontecer, contem comigo para organizar a festinha…

Referências: 

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/10/mensalao-jose-dirceu-e-mais-sete-sao-condenados-por-corrupcao-ativa.html

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/como-funcionava-a-parceria-veja-cachoeira

http://terramagazine.terra.com.br/bobfernandes/blog/2012/08/21/o-julgamento-do-mensalao-a-farsa-e-os-farsantes/

Livro: A Privataria Tucana – Amaury Ribeiro Jr.

Lista de CPIs: 

http://frasesdadilma.wordpress.com/2011/05/24/psdb-de-alckmin-e-serra-barrou-mais-de-100-cpis-em-8-anos/



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