Picolé de Chuchu, Omelete de Kassab

Nietzsche dizia que o real momento de nascimento de uma pessoa é quando ela lança pela primeira vez um olhar crítico sob si mesma. Nietzsche odiava ser citado fora de contexto, mas vou me arriscar e fazer isso mesmo assim.

Assistindo na TV alguns manifestantes enchendo o Kassab de ovos durante o aniversário de São Paulo, me ocorreu que talvez o brasileiro esteja, finalmente, começando a nascer para a política.

Naturalmente não estou vendo essa manifestação como um incidente isolado. Estou levando em conta todos os recentes levantes da população contra medidas absurdas do governo. Estou levando em conta as passeatas contra Belo Monte, a comoção geral contra a estupidez perpetrada na cracolândia, os diversos sinais de vida inteligente pipocando aqui e ali em um universo que parecia frio, vazio e desolado.

Sejamos francos sobre algo: o brasileiro, politicamente, é um bebê recém-nascido. Durante décadas, fomos uma nação governada por generais. Quando esses generais resolveram sair do poder, estávamos tão saturados que nos dispusemos a aceitar “qualquer Zé Mané, desde que ele não ostentasse uma patente”.

Entre generais, políticos corruptos e barbudos suados falando sobre a classe operária (enquanto o muro de Berlin caía…), a tucanada de terno e gravata, cabelo alinhadinho e diploma no exterior parecia a melhor alternativa. Um partido “social democrata” que sequer assumia claramente uma posição de direita. Quando em dúvida, vamos pelo moderado, correto?

A política desenvolvimentista pregada pelo PSDB na época que eles assumiram o poder no Brasil não era diferente da utilizada pelos militares (alguém se lembra do milagre econômico brasileiro?), mas seus métodos eram infinitamente mais brandos. Chega de estudantes apanhando, chega de fuzil apontado para civil desarmado. Vivemos em uma democracia agora! (cof cof)

Infelizmente, outra peculiaridade de uma política desenvolvimentista é que ela tende a varrer certos problemas e mazelas sociais (efeitos colaterais do ‘crescimento’?) para debaixo do tapete. Como todo mundo que ficou muito tempo sem fazer faxina em casa sabe, esse método tem prazo de validade curto.

Quando você ignora a questão social de um país por muito tempo, permitindo o enriquecimento de poucos e a miséria de muitos, você está combinando os ingredientes básicos para criar violência civil. Você tem dois caminhos: agir preventivamente, de forma a evitar o nascimento do bandido de amanhã, ou reativamente, descendo o cassete nesse bandido quando ele aparecer.

É por isso que no brilhante “Notícias de uma guerra particular”, já citado nesse blog, a polícia é retratada como um “instrumento para manutenção do status quo”. Ela faz muito mais do que “prender bandido”; ela cria a sensação de que as coisas “estão sob controle”.

Estamos em 2012, e esse ano começou tão movimentado, e com tantos eventos relevantes para se comentar, que não dedicarei muito tempo a falar da imensa violência policial demonstrada ano passado na desocupação da USP, na passeata da maconha ou no Acampa Sampa. Nem vou me aprofundar no fato de que quase fui atropelado por um caminhão de bombeiro usado para perfurar o bloqueio à rua Augusta na passeata contra Belo Monte em dezembro. A PM tem trabalhado muito em me manter atualizado e com exemplos recentes para utilizar em meus textos.

Acima, sargento André Ferreira ameaça estudante Nicolas Menezes durante discussão ideológica, na USP, no dia 06/01/2012.

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1211210&tit=PM-agride-aluno-dentro-da-USP

Admito que, ao ler essa notícia, sorri. Sabia que era só uma questão de tempo até que a presença da PM na USP se mostrasse um erro; só não esperava que isso fosse acontecer tão rápido. O policial citado acima não apontou a arma para Nicolas porque ele estava cometendo o “hediondo crime de fumar maconha no campus”. Nicolas também não estava “ocupando a reitoria”. Nicolas estava conversando com ele. E eles tiveram uma discordância ideológica.

Isso. Discordância ideológica.

Alguém mais pensou na palavra “fascismo” nesse momento?

Para mim, nada de novo. Apenas mais um gesto característico de uma corporação despreparada, treinada para a guerra (militares, não é?) e para atirar antes e pensar depois.

Como o colunista Vladimir Safatle, que eu admiro muito, colocou certa vez, Geraldo Alckmin deve ser daqueles que “rezam pelas virtudes curativas do porrete da polícia”. Sempre pregando o uso de “ações energéticas” para manter a ordem, o governador já havia protagonizado pelo menos uma notável “demonstração histérica de força” da polícia no ano passado, ao ordenar a invasão da reitoria e, para não perder o costume, já abriu 2012 com mais uma, enviando tropas de choque para combater gente enferma, uma multidão de pessoas doentes, fracas, perdidas e marginalizadas.

Sim, estou falando da cracolândia.

Eu poderia discorrer por 200 páginas sobre a imbecilidade com que os governos do mundo (Brasil incluso) têm lidado com a questão das drogas nas ultimas décadas. Poderia falar sobre o fracasso completo da política de tolerância zero criada por Reagan/Nixon na década de 70 nos EUA, sobre como a proibição e repressão extrema dos entorpecentes só serviram para aumentar vertiginosamente a criminalidade em países como o México ou a Colômbia, enquanto países que decidiram tratar a questão das drogas como um caso de saúde pública (e não policial), como Portugal, por exemplo, foram muito mais eficientes para reduzir não apenas o crime, mas o próprio consumo.

Aliás, eu ainda escreverei sobre isso.

No momento, eu só quero enaltecer o absurdo completo que é você jogar uma tropa de choque pronta para o combate contra um monte de gente doente e enferma (sim, feios e assustadores, mas no fundo, apenas gente doente). O absurdo de um governador, sustentado por uma força policial, ao procurar resolver uma questão tão profunda na base do cassetete. Difícil acreditar que o cara que elegemos para governar um estado inteiro ignora o fato de que ocupar a cracolândia simplesmente fará os viciados procurar outro lugar (o que, aliás, eles fizeram no dia seguinte).

Em defesa da ação policial, o coordenador de políticas sobre drogas de São Paulo, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, diz que não é pela razão, mas pela “dor e sofrimento” que eles farão os usuários procurarem ajuda. É exatamente isso que um estado autoritário faz com seu povo, o trata como criança. Não racionaliza, não confia na sua capacidade de julgamento. Dá ordens e, se for desobedecido, dá porrada.

O objetivo dessa ação nunca foi solucionar o problema do crack em São Paulo; foi limpar uma rua. E ostentar um pouco mais de força contra uma população já sofrida, fodida e colocada cada vez mais à margem da sociedade. E ai deles se decidirem que estão desesperados o bastante para assaltar alguém para sustentar o vício. Paulada de novo.

Isso nos leva ao último e mais absurdo caso de violência policial para o currículo de Geraldo Alckmin: a desocupação do Pinheirinho.

Antes de tudo, devo enaltecer uma peculiaridade desse caso: a Justiça Federal decidiu contra a desocupação do terreno, mas a polícia manteve a reintegração obedecendo a ordem da Justiça Estadual. Ou seja, para todo aquele que acha que “governo” é uma coisa só e “politico é tudo igual”, o governo federal foi contra a ação, mas a autonomia política que Alckmin possui como governador o possibilitou levar a ação adiante de qualquer forma.

O ataque aconteceu às seis da manhã, para surpreender e escapar dos olhos da maioria da mídia (qualquer relação com o ataque da PM à reitoria as 5 da manhã, em 2011, é mera coincidência).

A ação foi rápida, violenta, destrutiva. Cerca de 2 mil PMs, 220 viaturas, 100 cavalos e 40 cães foram mobilizados na ação, além de 2 helicópteros. Dezesseis moradores foram presos, um deles foi baleado e está no hospital. Incontáveis foram agredidos, espancados e tiveram suas casas queimadas. Duas mil pessoas foram arrancadas de seus lares.

Embora os comandantes da Polícia e o próprio Alckmin tenham ido à imprensa e dito que a corporação só tinha utilizado armas não letais, já se documentou em vídeo e foto o contrário. Bom, arma não letal não deixa ninguém internado em estado grave, não é mesmo?

Na foto acima, típica arma não letal usada na invasão.

O vídeo abaixo flagra DIVERSOS policiais empunhando armas de fogo e ameaçando a população, inclusive mulheres e crianças. As ameaças e violência continuaram sendo feitas mesmo contra aqueles já realojados para os abrigos do despejo:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=nEuGR0SBrjE

O que deve ser questionado aqui, acima da violência usada, acima da legitimidade da “reintegração de posse” de uma ex-propriedade do falido empresário Naji Nahas, é a ausência de alternativas que o estado ofereceu aos 2000 moradores do Pinheirinho.

A população já sabia que a invasão ocorreria. Se eles se prepararam, se eles montaram barricadas e se dispuseram a enfrentar de mãos vazias policiais com espingardas, não o fizeram por estupidez. O fizeram por desespero.

O governo Alckmin e Eduardo Cury, prefeito de São José dos Campos, sabiam que teriam que oferecer alguma alternativa para essas pessoas, mas seu humanitarismo de psdbistas não foi tão longe assim. Mais uma vez foi usada a estratégia de varrer para debaixo do tapete. Alguns barracos queimados, alguns milhões para a mídia desviar a atenção da população para outro assunto (quem sabe outro ‘estupro’ no Big Brother?) e assunto resolvido! Danem-se crianças, idosos, doentes e famílias inteiras que viviam em Pinheirinho há oito anos.

E aos que defendem a ação, pois apesar de tudo a ocupação na região era ilegal (e a lei sempre está certa, foi criada por Deus e deve permanecer imutável até o final dos tempos), vale pensar que mais da metade das casas no litoral norte paulista são ocupações ilegais, que metade das fazendas no Mato Grosso e no Pará também são. O problema aqui não é ser “legal” ou “ilegal”. No final, acabamos caindo na boa e velha luta de uma minoria detentora de poder contra uma maioria oprimida. Eu posso pagar o fiscal para ignorar minha mansão construída sobre a Mata Atlântica. Que alternativas essas pessoas terão?

E se, desesperada e sem teto, uma dessas pessoas concluir que precisa roubar alguma coisa para sustentar a família que foi jogada na rua? Paulada nela!

Essa é a imbecilidade da política social de Alckmin e do PSDB de uma maneira geral, ainda apoiada por uma parcela da população; felizmente, uma parcela cada vez menor.

As ruas do centro que foram cenário de uma batalha entre a polícia e usuários de crack no começo do ano já estão novamente entupidas de viciados, e novas “cracolândias” nasceram em outros lugares.

As pessoas desalojadas do Pinheirinho não terão escolha senão ocupar ilegalmente uma nova região; encontrar um novo terreno para erguer um novo barraco e começar tudo de novo.

Andamos em círculos. Pagamos esse festival de ineficiência com nossos salários.

Por quanto tempo continuaremos apoiando essa raça de político?

A manifestação popular da última quarta feira mostrou que começamos a lançar olhares cada vez mais críticos para nossa identidade nacional. Não foi um movimento orquestrado pela mídia, como o caras-pintadas. Foi um sintoma de uma população que está de saco cheio.

Kassab, em resposta à tentativa da população de preparar uma omelete com ele, declarou que “a violência não é o caminho para construir um país mais justo, um país mais igual, uma democracia fortalecida”. Ignora o fato de que foi justamente a violência perpetrada pelo estado que serviu de estopim para a manifestação. Ação e reação.

Talvez para a classe política de direita que se apoderou do Estado de São Paulo, só a reação da população pode ser considerada violência. Quando eles atiram primeiro, tudo bem. Isso me parece um típico argumento tirado diretamente da cartilha de Mussolini.

Sob meu ponto de vista, não há lugar para fascismo em uma democracia verdadeira. E para um cara que ganhou fama como “picolé de chuchu”, o Sr. Alckmin está me saindo um fascista de primeira categoria.

…..

PS: Após a redação desse texto a relatora da ONU, Raquel Rolnik, caracterizou a desocupação do Pinheirinho como um crime de estado. Vale a pena ler a entrevista na integra:

http://www.conversaafiada.com.br/politica/2012/01/27/pinheirinho-onu-da-48h-a-nahas-e-alckmin/#.TyKnAPSo8hV.facebook

PS2: Mais um exemplo da “segurança” oferecida pela PM na USP. Aluna é estuprada por PM Renato Guimarães da Silva. Veja a noticia e leia a reportagem abaixo. Ah, e depois repare no silêncio com que o resto de nossa mídia vai reagir diante do fato…

http://www.youtube.com/watch?v=odD1vCLUvZg

http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=34809


3 Comentários on “Picolé de Chuchu, Omelete de Kassab”

  1. Ivan Azevedo disse:

    Realmente os eventos na cracolândia e no pinheirinho foram comprovações de que o desrespeito ao ser humano e a ausência de noção de sociedade estão arraigados no governo estadual e na PM. (apoio o texto sobre as drogas)

  2. igorius2011 disse:

    É isso meu amigo!!! Violência do estado é algo perigosíssimo, e que está se tornando cada vez mais frequente. Não podemos permitir…..

  3. G. disse:

    Excelente texto! Revirei artigos e mais artigos pra ver se encontrava alguma coisa que falasse sobre as casas que pudessem ser entregues para esse povo, prazos, vc chegou a ver alguma coisa? Se sim, adoraria que compartilhasse… Grande abraço!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s