OCCUPY WORLD: Iluminismo 2.0 ?

Não é facil conversar sobre economia. Finanças então …. ih muito chato! Você viu a novela ontem ? E o Palmeiras hein ?

Como um generalista, ou seja, um daqueles caras que gostam de ler sobre TUDO mas não se especializaram particularmente em nada ( praticamente um pária nos dias de hoje), sempre achei incrivel como parece muito mais dificil falar sobre finanças, cambio, derivativos e ….bom, seus derivados, do que discutir qualquer coisa realmente existente na natureza. Sim, existente, pois “derivativos” não existem de fato. Um sistema criado pelo HOMEM, que só faz sentido em um contexto BASTANTE especifico de nossa história, é muito mais dificil de compreender do que qualquer coisa REAL que se encontra na natureza.

Claro que sem entender nada sobre o assunto fica dificil discutir, e quem domina a informação fica literalmente “por cima da carne seca”.

Esse negócio de “compreender a linguagem para poder questionar” me lembra muito de um pequeno episódio de nossa história que vale a pena retomar:

“Na idade média não se sabia ler. Deixem eu colocar isso de uma forma mais veemente: NINGUEM sabia ler. Ler era uma coisa intelecualóide, sisuda, chata e complexa, que apenas sacerdotes e politicos dominavam.

Isso era particularmente benéfico para o clero, afinal eles dominavam uma informação considerada ESSENCIAL na época, e a manipulavam para a obtenção de regalias às custas das ‘pessoas ordinárias’.

Claro que lá por mil quinhentos e bolinha, com a expansão da população urbana, as navegações, ascenção da classe burguesa (etc etc) a quantidade de analfabetos reduziu na Europa, mas esse não era um problema – particularmente para os padres – afinal todos os textos religiosos eram em latim.

Daí apareceu um sujeito chamado Martinho Lutero, um carinha subversivo que teve a ‘bizarra’ idéia de que a bíblia deveria ser escrita em outras linguas além do latim, tornando possível às outras pessoas acessarem essa informação DIRETAMENTE, sem passar pelo CLERO, olha só que absurdo.

Claro que a consequencia DIRETA disso foi que as pessoas começaram a questionar o clero. Não é como se elas tivessem abandonado a religiosidade completamente, elas simplesmente passaram a regular o clero, pararam de comprar as infames indulgências, tickets VIP para o céu, esse tipo de coisa.”

(não vamos falar dos evangélicos fanáticos que existem até hoje, por favor, essa manhã acordei bem humorado)

A internet acaba de criar perspectivas novas e interessantes para nossa auto-destrutiva humanidade. Se em mil oitocentos e bolinha ocorreu o primeiro grande divisor de águas da história humana na Terra, o ILUMINISMO (marcado pela revolução industrial, a revolução científica e a revolução francesa), gosto de pensar que hoje vivemos um ILUMINISMO 2.0 (marcado pela revolução da comunicação e subsequente revolução da democracia).

Claro, a história dirá se estou sendo otimista ou não.

Movimentos como os do ultimo 15 de Outubro (sobre os quais eu tenho falado exaustivamente faz semanas) eclodindo o tempo todo a despeito de todos os esforços dos poderosos dos dias de hoje (representados no passado pela monarquia, nobreza e clero, hoje pelos CEOs de corporações, banqueiros, politicos e barões da mídia) em sufocá-los, são o sinal mais claro disso.

A razão principal disso é uma só: DEMOCRATIZAÇAO DA INFORMAÇÃO. O latim era o portão de aço separando a informação do povo a quinhentos anos atrás, o dominio dos meios de comunicação era o portão de aço separando a informação do povo até meados dos anos 90.

Daí se popularizou uma coisinha maravilhosa chamada internet. E com ela, as redes sociais, os blogs, os tumblrs, os CANAIS.

Dezenas de artigos, textos, vídeos são criados a cada segundo e jogados na rede, feitos por pessoas como eu ou você, que estão de saco cheio e resolveram falar. Alguns entendem mais de finanças ou economia, outros mais de politica ou sociologia. A informação é traduzida da linguagem acadêmica. Ela ganha o mundo. As pessoas entendem.

Elas entendem……

Uma lampada acende dentro da cabeça delas ….

Elas se enfurecem ….

Sei que não viverei o bastante para ver isso, mas gosto de pensar que um dia meus filhos ou netos poderão ler um trecho de sua história recente que fale mais ou menos isso:

“Na idade média do neoliberalismo não se entendia de finanças ou economia. Deixem eu colocar isso de uma forma mais veemente: NINGUEM sabia nada sobre finanças ou economia. Esses eram assuntos intelecualóides, sisudos, chatos e complexos, que apenas banqueiros, CEOs e politicos dominavam.

Isso era particularmente benéfico para os banqueiros, afinal eles dominavam uma informação considerada ESSENCIAL na época, e a manipulavam para a obtenção de regalias às custas das ‘pessoas ordinárias’.

Daí apareceram uns carinhas subversivos, que resolveram começar a investigar as informações que recebiam da mídia ou do estado em vez de aceitar por certo tudo o que ouviam (nonsense!). Eles começaram a ir para as ruas, e escrever, e protestar, e pressionar. Resolveram que queriam decidir os caminhos de sua sociedade DIRETAMENTE, sem aceitar a representatividade aclamada pela classe política e empresarial, olha só que absurdo!

Claro que a consequencia DIRETA disso não foi o fim da civilização como a conhecemos. Mas as pessoas começaram a questionar as corporações, e os banqueiros, e os politicos. Não é como se elas tivessem declarado estado de anarquia, ou voltado a viver em cavernas, elas simplesmente passaram a regular essas instituições, a subjugá-las. O mundo voltou para os trilhos a tempo, o ideal iluminista original foi retomado. Nos salvamos da iminente extinção.”

Otimismo ? Talvez. Quem me conhece sabe que eu alterno entre momentos de total descrença para com a humanidade com momentos de amor incondicional por essa espécie maluca de primata que pipocou no planeta uns poucos milhões de anos atrás, e como eu já disse, hoje estou de bom humor.

Essa fagulha de fé que eu tenho na espécie humana que me faz perder tanto tempo com esses textos, quando poderia estar lá fora aprendendo a manipular esse sistema a meu favor, comprando uma Ferrari, queimando dinheiro no Shopping Cidade Jardim, esse tipo de coisa.

Se um dia eu perder essa fé nao sei se viro um shopper individualista ou se mando tudo pra puta que o pariu e vou morar em uma floresta (se ainda restar alguma).

Até lá vou tentar fazer minha parte….

Que venha nosso iluminismo 2.0 !

……………………..

OBS: Para ilustrar como assuntos complexos e essenciais para o ser humano tem ganhado a rede de forma acessível e criativa, coloco abaixo dois exemplos excelentes.

Um deles é um vídeo que resume muito bem a bolha dos imóveis que acabou culminando na crise de 2008 e no começo do fim do mundo como o conhecemos (and I feel fine):

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=EqW9srTn7xM

O outro é a brilhante palestra da ativista ambiental Anne Leonard sobre consumismo e como o ideal neoliberal está consumindo nosso planeta e nos levando à beira da extinção:

http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k

Vídeo. Texto. Placa ou faixa para protesto. Megafone ou mouse. Boicote. O arsenal é variado e está disponível. Do que precisamos agora é gente … gente pra se mover do lugar, pegar essas armas e fazer alguma coisa.

Que tal escolher a sua? Que tal assumir uma posição?


5 Comentários on “OCCUPY WORLD: Iluminismo 2.0 ?”

  1. Paty disse:

    Ahh, como é bom ler textos com os quais nos identificamos, não??
    Será que a humanidade tem salvação ainda? Acho que esse questionamento deve ter sido feito inúmeras vezes no passado, antes das grandes revoluções…
    Eu por várias vezes penso que não adianta nada, que a galera está se afundando no planeta, então vamos mandar todo mundo pra p#%& que pariu, e morar na floresta (aliás, esse foi um pensamento que tive há pouco tempo). Mas como você disse, por outras vezes também enxergo que há tantas coisas boas, tantas esperanças nas pessoas, que sim, às vezes eu acredito muito nelas, e na mudança que elas são capazes de fazer no mundo.
    Acho que a obrigação de todos é ajudar essas pessoas a enxergar os fatos; muitas pessoas sentem que tem algo errado, mas não enxergam porque simplesmente não conseguem. Tem que ajudá-las a serem esclarecidas – até mesmo na questão de religião/igreja, que pra mim, é igualzinho ao sistema político do mundo. E infelizmente, a internet aqui no Brasil não é lá aquelas coisas, então muitas dessas informações que dividimos por aqui, não chegam no conhecimento dessas outras pessoas; elas não alcançam essas informações; nem sabem chegar nelas, e nem o por quê que precisam delas.
    ‘Bora partir para os velhos folhetos!!! rsrsrsrsrs
    Excelente texto amigo!! Me avise dos próximos!!🙂

  2. gab disse:

    Gostei bastante do texto mas fico divagando mais além. O Iluminismo teve lá seus pontos positivos, mas foi um movimento de elite com cara de popular, quando viram que as coisas estavam mudando. E um dos problemas da era da razão foi esquecer da questão metafísica. Ou melhor, separá-la da ciência. Enfim, no início me empolguei muito com esses movimentos, até ouvir que a primavera árabe, por exemplo, havia sido incitada pelo diretor de mktg da Google (grandões no meio de um movimento “popular”?). Bom, fiquei com minhas desconfianças, até começar todas aquelas destituições de “ditadores” no oriente médio, transição para a “democracia” e me perguntei se isso por acaso não seria uma estratégia dos imperialistas, pois foi bem como fizeram na Guatemala por exemplo e quiseram fazer na Venezuela. Agora a história de que o Occupy estava sendo financiado por George Soros saltou muito às minhas vistas. Claro, os bilionários que já estocaram suas barras de ouro e que já têm dinheiro infinito não precisam mais se preocupar com uma eventual quebra do sistema financeiro. Pra eles seria até lucro. Minha dúvida é: ok, o sistema quebrou, e agora? Movimento Zeitgeist? Comunismo? Quem tem os recursos? E o que adianta o sistema mudar se as pessoas não mudarem? Tanto Orwell (1984) quanto Huxley (admiravel mundo novo) me preocupam. Mas creio q o mais perigoso é as coisas estarem indo pro lado do segundo. Ou quem sabe de um Huxley “espiritualizado”? Realmente não sei muito bem o que pensar. Só sei que tenho meus motivos pra desconfiar. Mas não sou totalmente pessimista, ainda acredito em um mundo melhor e quero ter filhos🙂

    • igorius2011 disse:

      Gab, otimos questionamentos. Eu compartilho deles. Leia dois textos anteriores meus desse mesmo BLOG, que atacam tanto o CAPITALISMO quanto o SOCIALISMO. Claramente ambos falharam. Claramente o CAPITALISMO precisa acabar e o SOCIALISMO nao pode voltar.

      Precisamos de um novo sistema. Uma DEMOCRACIA PARTICIPATIVA. Algo que era impossível por restrições tecnológicas, até pouco tempo.

      Pretendo escrever em breve um texto a respeito. Me siga para receber atualizações de e-mail ou volte aqui em breve e prometo novas atualizações.

      Quero desenvolver esses teus questionamentos.

      Abração e obrigado por nos visitar!!

  3. Karina disse:

    Muito bem escrito o texto. Agora, a parte do derivativos foi uma indireta, né?

    • igorius2011 disse:

      Hahahahahaha eu aprendi como derivativos é dificil com VOCE amor. Mas eu quis usar como exemplo justamente por ser uma linguagem extremamente técnica que 99,9999% da população não domina e portanto nao pode sequer questionar.

      Você entende MUITO mais disso que eu, então aceito demais qq comentario ou explicação, heehe

      Mas por exemplo, penso que uma das MUITAS formas de regular a loucura que virou o mercado financeiro hoje seria proibição da operação com derivativos. Assim impediriamos o sistema financeiro de especular e operar sem lastro de riqueza. Mas como o povo poderia pedir isso a seus governantes, se eles sequer são capazes de compreender o significado disso … as consequencias da operação monetária especulativa sem regularização ?

      O mercado financeiro possui sua própria versão do Latim. É uma arma de defesa poderosissima, hehehe

      To certo ou nao ? 😉


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