OCCUPY WORLD: “Teorias da Conspiração” ou “A Fera Encurralada”

“Conspiração da mídia?

Excessos de violência da polícia?

Poderosos no controle tentando manter o poder a qualquer custo?

Você não acha que isso é coisa de “teoria da conspiração’ demais não? Um pouco de inocência? “

Você não tem idéia da quantidade de vezes que me falaram isso na minha vida. Acho que em parte eu criei esse blog por preguiça de ficar respondendo milhares de vezes o mesmo questionamento.

Esse texto será minha resposta definitiva a esse pessoal que realmente acha que as coisas estão indo da melhor forma possível, que acredita na idoneidade de todas as instituições (só não acredita em políticos, que original), e que as leis e a polícia servem incondicionalmente ao povo. Acho que vou imprimi-lo e andar com algumas cópias no bolso, só por garantia. A vida é muito curta, no final das contas.

Vou segmentar esse artigo em 2 partes, uma concentrada na pergunta que inaugura o texto (‘Conspiração da mídia?’) e outra discorrendo sobre as conseqüências de estarmos ACORDANDO para essa incômoda realidade.

Como de costume não é um artigo curto, possui 6 páginas, mas não vejo forma breve de tecer uma boa argumentação sem me demorar um pouco. Se não posso torná-lo curto, pelo menos prometo me empenhar em torná-lo divertido. Boa leitura!   

Parte 1 – “Conspiração da mídia?”

Não estamos falando de Arquivo X aqui. Não estou dizendo que existe um maligno Dr. Mídia sentado em uma poltrona, acariciando um gato preto e dando gargalhadas diabólicas enquanto distorce as informações que você, pobre cidadão inocente, lê em seu jornal matinal junto de uma xícara de café (alguém ainda consegue fazer isso hoje em dia?). Estamos falando de negócios.

Voltemos ao bom e velho mantra do corporativismo: “O objetivo de uma empresa é trazer lucro para o acionista”. Isso é um fato. Essa coisa de cada empresa ter uma missão institucional bem bonita e emocionante é coisa de marketeiro. Acreditem! Eu sou um… A despeito de toda a boa vontade que o dirigente de certa empresa possa por ventura possuir, o objetivo final de cada uma delas é trazer o máximo de lucro possível para seus sócios, e uma grande revista ou um grande jornal é acima de tudo, uma EMPRESA.

Como toda empresa que se preze, ela vai buscar os meios de maximizar sua lucratividade, respeitando o máximo possível as leis para que os números não sejam comprometidos, minimizando ao máximo os custos sem que a qualidade do produto caia e os números centrais da equação acabem sendo modificados. Faz sentido? Qualquer empresa opera segundo o mesmo preceito: do mercadinho familiar da sua esquina aos maiores bancos ou corporações que se espalham por todo o globo.

 O que mudou nos últimos anos?

Bom, nos velhos tempos em que cada jornal era uma empresa independente, a linha editorial seguida costumava ser a ideologia ou crença pessoal de seu editor ou proprietário. Nada de novo nisso. Todo bom jornalista sabe que essa coisa de “imparcialidade jornalística” é um conto da carochinha, criado para conferir credibilidade (e um caráter inquestionável de VERDADE) a tudo o que é publicado. Claro que os números eram importantes, mas seu principal administrador era um jornalista, não um MBA em marketing ou administração, e as coisas acabavam sendo um pouco mais inocentes.

O problema é que os tempos modernos criaram um monstro bem feio chamado CONGLOMERADO. CORPORAÇÃO. GRUPO DE EMPRESAS. Hoje, aquele jornal que você lia com seu café pela manhã, na época que ainda tinha tempo de fazer isso, se transformou em apenas UM PRODUTO de um imenso MIX de uma corporação, que possui canais de TV, empresas de bem de consumo, escolas, parcerias com bancos, enfim, tudo o que você puder imaginar.

Sabe aquela ilusão do Cidadão Kane, que prefere brigar com a mulher a publicar uma critica tendenciosa para seu numero de dança? Ou aquele J. Jameson dos gibis do Homem Aranha, que fuma charutos e publica editoriais assustadores por não gostar de carinhas fantasiados? Acabou. Já era…

A linha editorial de seu jornal favorito não é mais pautada pela ideologia do editor, ela é pautada pelos interesses econômicos do grupo que a adquiriu. Questão de lógica de mercado.

Isso faz sentido? Ou é teoria da conspiração? Posso estar sendo paranóico, mas no meu modo de ver as coisas, inocente seria pensar que um jornal pertencente a um grupo gigantesco de empresas tivesse liberdade total para publicar coisas que prejudicam esse grupo, afinal a verdade deve estar acima de tudo.

Mas vamos pegar um exemplo real: A Editora Abril. Líder em 21 dos 24 segmentos em que atua, responsável pela publicação de 54 títulos em um universo de 28 milhões de leitores, também é dona das seguintes empresas: Grupo Anglo (Vestibulares), Grupo ETB (Escolas Técnicas do Brasil), DGB (holding de Distribuição e Logística que reúne as empresas Dinap, Treelog e FC Comercial), Elemídia, MTV, Editoras Ática e Scipione, entre dezenas de outras empresas.

Seu diretor editorial, Roberto Civita, possui bilhões de dólares investidos nos mesmos bancos que estamos tentando criticar com o movimento OCCUPY. Você realmente acredita que ele permitiria que alguma revista adotasse uma linha editorial anti-bancos ou que autorizaria uma capa de VEJA malhando a próxima tentativa do nosso governo de aumentar os juros para conter a inflação?

Aliás, vocês acham que QUALQUER meio de comunicação pertencente a um grande grupo seria capaz de adotar uma política anti-bancos? Será que não lemos nada sobre o assunto simplesmente por que não há nada a criticar sobre eles?

Por outro lado, os grandes jornais e revistas adotaram nos últimos anos uma postura bastante ativa como mídia investigativa no que concerne a corrupção no governo, o que é ótimo. O que as pessoas às vezes falham em compreender é que essa luta contra a corrupção de seu amado jornal matinal TAMBÉM possui uma pauta definida por interesses próprios.

Vivemos em uma constante guerra entre partidos. Quem viu a ultima inserção do PSDB na Rede Globo, por exemplo, pode constatar que a linha do debate político em nosso país tem sido cada vez mais o ataque DIRETO contra o partido adversário, em detrimento às propostas de governo que poderiam ser feitas. Os jornais possuem interesses econômicos na definição dos dirigentes do governo. São o principal instrumento de formação da opinião publica e sabem disso.

Se você fosse um político e tivesse a oportunidade de influenciar a pauta editorial de um grande veículo de comunicação, sabendo de seu poder na formação da opinião de seu eleitorado, você não faria isso? É teoria da conspiração? Uma vez mais, estamos falando de negócios.

Não estou dizendo que quando um corrupto é denunciado por um jornal ele seja santo. Claro que não, ele provavelmente é corrupto sim. O problema é que estamos perseguindo apenas os corruptos convenientes. A opinião publica é massa de manobra na briga entre partidos, e a mídia é a mão do pedreiro que passa a argamassa.

Não é à toa, por exemplo, que a reportagem da VEJA sobre o movimento OCCUPY distorcia toda a idéia do movimento, fazendo parecer que as hordas insurgentes contra o capitalismo descontrolado e contra os abusos do mercado financeiro estavam protestando apenas contra políticos corruptos (convenientemente, seus inimigos políticos do PT que afinal das contas estão no poder dessa vez):

 

Como de praxe, atacam os corruptos e não falam nada contra os corruptores. Afinal, como poderiam? Os corruptores estão pagando a conta…

Também não é a toa que os indignados reagiram violentamente a essa decisão da revista, protestando em frente ao prédio da Editora Abril, queimando revistas e publicando notas em seu site oficial desmentindo a reportagem:

 

http://15osp.org/2011/10/26/a-veja-nao-nos-representa/

Agora os convido a se lembrar do posicionamento político  do Estado de São Paulo e da Veja por exemplo. O primeiro declarou-se abertamente partidário do PSDB faz muito tempo, o segundo nem precisa. Todas as recentes ações violentas e condenáveis realizadas pela PM são ordens diretas do governo do estado (ao qual a instituição é subordinada), você realmente acredita que uma publicação que se declarou abertamente favorável ao Governador Geraldo Alckmin é o melhor lugar para se informar a respeito de uma decisão polemica tomada por ele?

Quem é inocente aqui?

Reforço que a mídia é tendenciosa para os dois lados, é evidente. Existem muitas publicações que também apoiarão incondicionalmente partidos de esquerda e atacarão incondicionalmente partidos de direita. Não estou sugerindo aqui que você cancele sua assinatura da VEJA e comece a ler Carta Capital (apesar de a segunda ser uma revista muito superior tanto em informação quanto profundidade de seus textos). Simplesmente pare de acreditar incondicionalmente nos 2 ou 3 veículos que você elegeu como portadores da verdade. Entenda a malha de interesses por trás.

O mais engraçado é a amnésia das pessoas. Eu sou acusado de “paranóia” por sugerir uma manipulação dos fatos na mídia, no que concerne a invasão da USP ou o Occupy Wall Street por exemplo, quando já é sabido e estudado nas escolas que durante o movimento “Diretas Já” a rede Globo exibiu a concentração de pessoas como sendo um levante para a celebração da festa de aniversário de São Paulo. Já é sabido e estudado que o famigerado debate entre Lula e Collor, que definiu o destino daquelas eleições, foi completamente editado pela Globo para facilitar a eleição do segundo. Já é sabido e estudado que o movimento “Caras Pintadas” e o slogan “Fora Collor” que se seguiram foi uma criação da Globo, distorcendo um movimento originalmente criado para defender a criação de carteirinhas de estudantes.

As pessoas JÁ SABEM que a mídia fez muito mais do que apenas publicar noticias, ela ajudou a escrever a história de nosso país como a conhecemos hoje. Essas pessoas só tem dificuldade em acreditar que isso esteja acontecendo AGORA. Inocência? Ou cegueira auto- imposta?

O cérebro humano possui uma tendência natural a querer estar no controle.  Rezamos diante de situações maiores do que nós, pois assim temos a sensação de que podemos influenciar esses acontecimentos de alguma forma. A idéia de que não temos controle sobre certas coisas ao nosso redor é terrível, e acho que a cegueira da opinião publica no que se refere a esse tema é decorrente disso. Uma má noticia: Se não nos esforçarmos um pouco mais, não poderemos manter controle nem mesmo sobre nossas próprias opiniões.

Sua única defesa contra isso é buscar informação em múltiplas fontes. É questionar, é ir atrás.

Para isso você vai precisar dedicar um pouco mais de atenção às coisas do que permite uma folheada nas manchetes de um jornal no tempo de um cafezinho. Considero esse um preço pequeno a se pagar, para deixar de ser uma marionete.

Parte 2 –O mundo está acordando. E agora ?

Como eu procurei colocar em meu artigo “Sobre Wall Street e Tiranossauros”, existem basicamente duas formas de manutenção de poder sendo exercidas sobre nós nesse exato momento. O poder da informação e o poder da força. Quando o primeiro cai, o governo e seus patrocinadores (as mega corporações) recorrem ao segundo.

Não é a toa que os últimos levantes e movimentos  de 2011 tem provocado reações tão agressivas de seus governos (e em países com a democracia mais frágil, como no Egito, resultado em verdadeiros massacres). O poder está acuado. Pela primeira vez o poder não sabe o que fazer, pois manipular a mídia não é o bastante, as informações continuam vazando, constantemente, as pessoas continuam se levantando, e questionando, e confrontando.

A reação de uma besta encurralada é morder. E eles morderam. Forte :

Policial atira spray de pimenta em estudantes sentados em protesto do Occupy Wall Street:

http://www.youtube.com/watch?v=HaeCqChRQms

 

Violenta desocupação da Praça da Liberdade, em Wall Street, resultou em 200 prisões (e mais 100 até o final da semana), velhos e adolescentes atacados com spray de pimenta e pelo menos uma baixa: o bebê da ativista grávida Jennifer Fox, chutada na barriga pela policia:

http://rt.com/usa/news/occupy-miscarriage-fox-seattle-959/

Quase 5000 pessoas foram presas por todos os EUA desde que os protestos do Occupy começaram, em setembro.

 

Policia reprime protestos no Egito. Pelo menos 32 estudantes já foram mortos pela policia desde o inicio dos levantes:

http://www.noticiasbr.com.br/numero-de-mortos-em-protestos-no-egito-aumenta-para-32-30359.html

 

Cerca de 400 policias da PM invadem reitoria ocupada por 175 estudantes na calada da noite, prendendo 72 pessoas. Relatos de abuso de violência surgem por toda parte:

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19076

Será apenas um delírio meu essa idéia de enxergar esses eventos todos como algo relacionado? Serei apenas um paranóico iludido por “teorias da conspiração” por estar propondo que isso esteja ocorrendo?

Acho que não.

A besta morde quando é acuada. É quando ela é mais perigosa. Mas por estar mordendo, ela esta expondo sua fragilidade.

Longe de mim ignorar o processo histórico e o diferente momento de cada um desses levantes, em cada um desses países (e os outros 980 onde ocorreram protestos e ocupações em 2011). Cada caso é um caso, cada protesto possui sua peculiaridade e cada governo sua forma de reagir a ele.

Mas também não se pode ignorar o padrão.

Se estamos conseguindo acuar nosso inimigo, então devemos estar preparados para mordidas ainda mais violentas. Não é hora de se acovardar, pelo contrário. Isso seria nadar e morrer na praia. Está chegando a hora de manter a pressão, de vencer o lobby da comunicação de vez, de ir para as ruas, de pegar ainda MAIS pesado.

Vivemos um momento histórico sem precedentes, e estamos assistindo de camarote o monstro que se tornou o sistema capitalista atual se debater furioso e tentando se defender.

Pensar o contrário, em minha humilde opinião, que é uma imensa inocência.

………

PS: Essa manhã recebi de um amigo meu essa reportagem maravilhosa que mostra como muitos policiais de NY, cansados de combater o proprio povo que juraram proteger, acabaram de se juntar ao movimento. Uma luz de esperança ?

http://rt.com/news/police-join-protesters-ows-621/

MATERIAL COMPLEMENTAR

Sobre a crescente violência na repressão dos movimentos Occupy:

http://www.alternet.org/story/153172/how_do_we_know_ows_is_winning_elites_are_desperate_to_suppress_it/?page=1

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2011/nov/25/shocking-truth-about-crackdown-occupy

http://rt.com/news/occupy-us-camps-dismantle-543/

Desde 2004 o PSDB gastou R$ 250 milhões com a mídia (sem licitações):

http://www.viomundo.com.br/denuncias/serra-psdb-educacao-midia-acoes-entre-amigos.html

http://fichacorrida.wordpress.com/2011/09/30/cartacapital-quer-saber-por-que-s-a-veja-poca-e-isto/

http://namarianews.blogspot.com/2011/09/alckmin-9-milhoes-pela-fidelidade-da.html#ixzz1bzMX1Lmg

O maior confronto entre ocupantes e policia em NY desde o inicio dos protestos. O tempo passa e o movimento só se fortalece:

http://rt.com/usa/news/occupy-wall-street-619/

O que realmente aconteceu no ultimo dia 11.11.2011 (e foi ignorado pela mídia, claro):

http://www.youtube.com/watch?v=ctlW6vZgQuo

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Sobre Steve Jobs, Zeitgeist e Revolução

Nota do autor: A morte de Steve Jobs ter acontecido durante um período tão selvagem de explosões anticapitalistas como o movimento dos Indignados e o Occupy Wall Street sempre me soou no mínimo algo irônico. A diferença da repercussão desses fatos nas pessoas ao meu redor por outro lado nunca soou irônico, apenas um pouco triste.

Faz meses que eu queria ter escrito esse artigo, e é com prazer que agora o submeto a sua avaliação e os convido a discuti-lo comigo. Um grande abraço!

 

Você sabe o que Zeitgeist significa?

Com o crescimento do Movimento Zeitgeist e também a divulgação do ótimo documentário com mesmo nome, essa é uma palavra que tem sido muito usada, mas cujo significado acredito ser misterioso para a maioria das pessoas. Zeitgeist significa basicamente o “espírito da época”. É o conjunto de pensamentos, opiniões e posicionamentos comuns à maioria dos indivíduos nascidos em certo momento histórico e pertencentes a certo grupo social.

O “espírito da época” é o que determina se a maioria das pessoas de certo espaço-tempo da história acredita em Deus ou em Osíris, ou Zeus, ou Odin. É o que determina se a maioria das pessoas deseja ser um cavaleiro, ou um nobre aristocrata, ou CEO engravatado, ou um herói de guerra. É o que determina se normal é ter preconceito contra gays, ou negros, ou então ser cabeça aberta, vestir uma roupa colorida, praticar sexo livre e colocar flores na ponta de espingardas.

É evidente que não se pode considerar a imensamente complexa raça humana uma grande massa. Pessoas são diferentes, OK. Mas somos invariavelmente produto do nosso ambiente em grande parte de nossa personalidade, e estamos muito mais presos a essas premissas iniciais do que gostaríamos de admitir.

Retomando o paralelo com o evolucionismo de Darwin de meu ultimo texto, podemos assumir que diferentes ambientes favorecem indivíduos com diferentes características não é mesmo? Um sujeito ponderado e dado à filosofia não iria muito longe durante o período de cruzadas na Europa, nem faria brilhante carreira no exército de Gengis Khan ou Alexandre o Grande. Um sujeito questionador, com dificuldade em obedecer à hierarquia, não teria grande sucesso se nascesse na Alemanha durante o Terceiro Reich ou na Itália Fascista de Mussolini.

Isso nos leva a lançar um olhar critico ao espírito de NOSSA época e para aqueles considerados os heróis de nossos tempos. Nossos macho-alfa.

Nos leva a falar de Steve Jobs.

Quando Steve Jobs morreu uma imensa comoção se deu tanto na mídia e internet, quanto nas mesas de bar e rodas de conversa. Todos estavam extremamente contrariados e tocados com a morte prematura do bilionário workaholic. Ao mesmo tempo, Julian Assange, um brilhante ativista que dedicou sua vida a furar o lobby da grande mídia e levar a verdade incomoda às pessoas estava sendo preso, perseguido e injustiçado, e 99% das pessoas que eu conheço sequer tinham conhecimento do fato, quanto mais uma opinião.

O que deve ser notado em tudo isso é a imensa inversão de valores na qual nossa sociedade busca suas bases hoje em dia.

Vou ser bem direto nesse próximo ponto: Steve Jobs não era um grande homem. Era sem dúvida um grande empresário. Isso se confunde muito em nossos tempos. Steve Jobs era sim um herói, um herói de uma época onde conhecimento e ideais valem menos do que dinheiro e bugigangas, onde design vale mais do que conteúdo.

O bilionário que descobriu que tinha um câncer em 2004 e passou os últimos anos de sua vida trabalhando 13 horas por dia, repudiava o termo “responsabilidade social” e contratou fornecedores que utilizavam trabalho escravo na China, é o herói de nosso tempo. Homens como ele ocupam as capas de páginas como Você SA; Alfa, entre outras revistas. Sujeitos como ele ganham prêmios de “homem do ano”.

Veja bem, meu objetivo aqui não é avacalhar um defunto, muito menos um defunto tão ilustre. Estou plenamente ciente da importância de Jobs na difusão do conhecimento pela internet, até no fato de eu estar escrevendo em um blog nesse exato momento. Estou apenas questionando o modelo de nosso tempo. Questionando o FETICHE que gira em torno desse modelo.

Os grandes exemplos de nossa época poderiam ser grandes pensadores, grandes filósofos. Ou grandes cientistas. Enfim. Qualquer coisa. Mas em um mundo regido por capital, invariavelmente nossos homens do ano serão grandes empresários.

Os apartamentos dos Jardins, Leblon, etc., estão lotados de milionários como os citados acima, só que anônimos. Homens que possuem muito mais do que jamais serão capazes de gastar, especialmente porque nunca se permitirão sequer o tempo para isso, ocupados como estão em conseguir mais, e mais, e mais.

E tudo o que você aprendeu desde que era pequeno é que com bastante trabalho e sacrifício pessoal quem sabe um dia você poderá ser um deles.

“Se mate de trabalhar. Seja melhor que todos ao seu redor. Sacrifique mais. Faça sempre mais. Se você fizer bem esse trabalho, conseguirá ocupar um cargo de grandes responsabilidades e vai ganhar um gordo salário todo mês.

Com isso você poderá comprar. E comprar. E comprar. E todos vão olhar para você e morrer de inveja. E nesse momento você terá atingido o nirvana do capitalismo. Será enfim bem-sucedido.”

 

O que você diria sobre uma pessoa que já comeu tudo o que ela precisa e continua se empanturrando mesmo assim. Comendo, comendo, até que o estomago rompa?

Doente não é? No mínimo psicologicamente problemático.

O que você diria sobre uma pessoa que já emagreceu cada grama de gordura do corpo e continua fazendo regime. E tomando remédio. E vomitando?

Ou sobre uma pessoa viciada em plásticas, que já mutilou o próprio rosto e corpo tanto que nem mesmo os pais seriam capazes de reconhecer?

Bom, você já entendeu. A ÚNICA coisa que difere esse tipo de workaholic faminto por riquezas muito além de sua capacidade de uso fruto e todos os demais tipos listados acima, é que esse primeiro espécime ajuda a roda a girar. Ele é “útil”, “necessário”.

Em um reino de loucos, o mais insano de todos ocupa o trono.

O macho alfa de nossa sociedade, o estereótipo do bem-sucedido onde se marca um alvo e para onde são disparadas nossas crianças desde que elas sentam numa cadeira de escola (algumas até antes) é esse: Um lunático faminto por poder. Não tenho palavras delicadas para definir isso, apenas eufemismos covardes que prefiro não usar.

Se você está se dando ao trabalho de ler esse artigo até o final eu presumo que você já tenha superado essa idéia porca de felicidade não é? Mas até você chegar nesse ponto, quanto de sua energia você teve que dedicar para limpar essa merda toda de seu campo de visão? Quantas dificuldades você encara todos os dias simplesmente por tentar enxergar o mundo de outra forma?

Nossa sociedade está doente. Nossos modelos são doentios. E para começar a mudar as coisas, mudar para valer, precisamos antes remover esse carimbo distorcido de nossas cabeças.

Estendi-me um pouco no exemplo de Steve Jobs apenas para marcar uma chaga profunda na rocha onde estou esculpindo meu argumento. Para mudar o mundo, precisamos antes de tudo mudar nossa própria cabeça. Eu falei sobre modelos, mas poderia ter falado sobre hábitos de consumo, sobre crenças e valores, sobre qualquer coisa. Poderiamos fazer um livro só sobre isso.

O ponto é que precisamos nos libertar das amarras de pensamento que nos prendem ao ZEITGEIST de nossos pais, das gerações passadas, para então sermos capazes de alçar vôos maiores e criar um NOVO espírito. Criar um novo mundo.

Como eu disse acima, acredito que somos (no mínimo em grande parte) um produto de nosso meio. Só que nosso meio está todo errado, então temos que começar a pensar na quantidade enorme de porcaria que precisamos esvaziar de nosso cérebro antes de começar a criar esse novo mundo.

Parte da humanidade parece ter acordado para o absurdo de nossa condição, mas muitos ainda estão enxugando os olhos, cambaleando pelo quarto, tentando se encontrar. Existe um novo Zeitgeist sendo esculpido…nas cidades do oriente médio, nas ruas de NYC ou Madrid… no Vale do Anhangabaú.

Isso nos leva ao ponto principal desse artigo: A urgência por uma auto-reflexão.

Sem querer cair em um clichê, mas me vendo inevitavelmente capturado por ele: Precisamos nos tornar a mudança que queremos ver no mundo.

É extremamente importante, que antes de você erguer uma bandeira na próxima passeata que for organizada no Facebook em prol de qualquer causa, você se faça o seguinte questionamento: Eu sou mesmo a favor disso? E nesse caso, eu estou vivendo minha vida de acordo com essa causa?

Sejamos bem francos e diretos aqui. Se você realmente acredita em um mundo mais justo, com uma distribuição de renda mais humana, então você NÃO quer ser o Steve Jobs. Você não quer ser nada nem perto dele. Também não quer ser o Bill Gates, nem o Abilio Diniz, nem o Samuel Klein ou o Silvio Santos.

Se você acha que as imensas corporações são um poder destrutivo no mundo atual, então você NÃO QUER trabalhar em uma.

Se você acha que os fazendeiros de gado estão destruindo a Amazônia e isso te incomoda, não pode falar sobre isso sem no mínimo questionar de onde vem a carne que você come, e o quanto você tem comido dela todos os dias.

Não dá pra criticar o consumismo descontrolado das pessoas trocando o smartphone todo ano, ou babando na idéia de um dia comprar uma Ferrari.

Resumindo: Não dá para vestir a mascara de Anonymous na passeata do Acampa Sampa e terno e gravata na segunda para ir trabalhar em um banco.

Não estou sugerindo que as pessoas abandonem seus empregos da noite para o dia e morram de fome, claro que não. Mas procurem conferir um peso um pouco maior de seus ideais nas suas escolhas profissionais futuras.

Sei que é uma critica vulgar e apelativa essa que alguns conservadores dirigem aos recentes levantes contra o capitalismo: Que as passeatas em Wall Street estão cheias de playboys com Iphones e roupas da GAP. Sem duvida, é uma critica tola, covarde. Mas mesmo desse latido ridículo podemos aferir uma pequena lição: Para mudar o mundo, precisamos começar a rever alguns de nossos valores. Analisar alguns de nossos hábitos e costumes.

Não é algo confortável, eu sei. Nesse ponto estou certo de que muitos leitores devem estar um pouco irritados comigo. Alguns pensando que eu sou extremista, talvez, ou hipócrita.

Já me adianto a esses últimos dizendo o quanto é difícil escrever esse artigo, pois eu também estou cheio de vícios e hábitos errados que estou tentando vencer todos os dias. Parcialmente, estou escrevendo esse texto para mim mesmo também.

Mas algumas coisas precisam ser ditas, soem agradáveis ou não:

Não dá para ser um revolucionário nas ruas (ou na internet) e não mudar absolutamente nada de sua vida no dia a dia. Fazer isso é lutar contra si mesmo.

Assim como no meu texto da USP eu não procurei dizer aos outros que opinião ter, não farei isso aqui. Não quero te dizer o que acreditar, ou que batalhas lutar. Eu apenas ofereço informação e proponho reflexões.

Só estou sugerindo que ao identificar algo que o sensibilize, uma causa pela qual lutar valha a pena, você procure se aprofundar no assunto. Leia, pesquise. Se contextualize. Liberte-se dos hábitos e opiniões que você não escolheu, mas que foram apresentados a você desde criança. Liberte-se um pouco mais do velho Zeitgeist.

Se torne o modelo daquilo  que você gostaria de ver ao seu redor.

Se necessário faça uma lista. Sim, uma lista no papel, de hábitos e mudanças que você acha que deve provocar em sua vida para se aproximar mais dos ideais que te motivam. Além de uma vida mais feliz, você criará um pequeno núcleo de insurgência, uma pequena explosão de revolução, no interior de seu próprio ser. 

Vá para as ruas também. Revolução não se faz só de casa. Mudar os hábitos é lindo, mas o capitalismo neoliberal é uma criatura ardilosa, capaz de se adaptar aos diferentes hábitos das pessoas. Ele sobreviverá. Ë por isso que cedo ou tarde você terá que ir para as ruas.

Mas quando o fizer, poderá erguer o rosto ao sol e gritar…

Com vontade…

Com propriedade…

Desperto…

Se você quer ajudar a esculpir um novo mundo, você precisa ter as mãos livres.


OCCUPY WORLD: O transbordo do copo de cólera

A ocupação na reitoria da USP (e subsequente greve de mais de 60% da faculdade que persiste até agora), as centenas de ocupações espalhadas pelo mundo, os milhares de protestos em menos de 2 meses….

Eventos pontuais sem relação alguma?

Pouco provável.

Encaminho abaixo entrevista excelente publicada pelo Estado, o que é quase um oasis de conhecimento em uma publicação conhecidamente tendenciosa (atentem à natureza tendenciosa de cada uma das perguntas e como o entrevistado habilmente as responde).

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-transbordo-do-copo-de-colera,798151,0.htm

Aguardem em breve meu novo artigo…

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Juliana Sayuri – O estado de São Paulo. Originalmente publicado no site do Estado de São Paulo no dia 13/11 as 3h09.

Quando era um jovem de 18 anos, estudante de ciências sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), ainda nos tempos da Rua Maria Antônia, ele assistia às conferências de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Otávio Ianni e Paul Singer, mentores que o convidaram a participar do prestigiado núcleo de estudos de O Capital. Aos 26, pupilo de Lucien Goldmann e laureado sociólogo pela Sorbonne, em Paris, foi estudar hebraico num kibutz e lecionar história na Universidade de Tel-Aviv, em Israel. Aos 30, com o Maio de 68 sacudindo a França, recebeu (e aceitou) um convite para lecionar na Universidade de Manchester, na Inglaterra. Em 1970, ainda longe dos 40, descobriu-se persona non grata no Brasil do general Médici, tornou-se um judeu paulistano sem passaporte brasileiro e se estabeleceu definitivamente em Paris para estudar Marx, Lukács e Guevara.

Estudantes em confronto com a PM na USP - ANDRE LESSA/AE
ANDRE LESSA/AE
Estudantes em confronto com a PM na USP

Agora, rejuvenescido aos 73, o sociólogo Michael Löwy anda entusiasmado com a volta dos estudantes às ruas brandindo livros de Marx e Walter Benjamin. “Não pode haver um movimento que não se refira às lutas, às vítimas, aos mártires e aos pensadores do passado porque nós nunca partimos do zero”, diz. Objeto de estudo em As Utopias de Michael Löwy: Reflexões sobre um Marxista Insubordinado, de Ivana Jinkings e João Alexandre Peschanski (Boitempo, 2007), organizador de Revoluções (da mesma editora) e atualmente pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) de Paris, nas últimas semanas Löwy acompanhou o noticiário da ocupação (e a posterior desocupação) da reitoria da USP. Interpretou como “faíscas” o clamor dos estudantes contra a presença policial e os berros por liberdade para se fumar maconha no câmpus. “O que se passa é muito maior que isso. Há uma indignação com a ordem das coisas no mundo. Um sentimento de cólera. E, diante dessa percepção de injustiça, os estudantes têm um papel essencial, começando movimentos de protesto. Não podemos subestimá-los.” A seguir, a entrevista que Löwy concedeu ao Aliás, por telefone, de sua residência na capital francesa.

Estudantes ocupando praças em Nova York, Madri, ruas em Santiago, a reitoria na USP. Estamos diante de um arrastão de rebeldia ou são episódios isolados?

Não são episódios isolados. São parte de um processo internacional que lembra os anos 1960. Quando há um sentimento de injustiça e insatisfação na sociedade, os estudantes são os primeiros a se organizar e a protestar. Agora, na maioria dos casos, seja na Europa, no Chile ou nos Estados Unidos, não são apenas estudantes. É a juventude em geral. Os estudantes naturalmente têm um papel importante, mas é um movimento bem mais amplo, ao qual vão se agregando outros grupos – desempregados, trabalhadores, sindicalistas. Torna-se algo muito plural. O que há de comum é a indignação. Essa palavra está servindo como um sinal de identidade dos protestos. Há uma indignação muito grande que pode estourar por com um pretexto mínimo. No caso de São Paulo foi uma intervenção policial na USP. Mas poderia ter sido outra faísca.

Indignação com o quê? No caso da USP, pode-se ter a impressão de que é com a impossibilidade de fumar maconha no câmpus.

É muito maior que isso. Há uma indignação com a ordem das coisas no mundo. Um sentimento de cólera – e cólera com alta qualidade ética e política. O começo de qualquer movimento ou mudança social sempre se dá com um estado de espírito indignado, a começar na juventude. E fácil de entender o porquê de tanta indignação. Estamos numa situação em que a ordem social parece cada vez mais irracional, promovendo desigualdades gritantes, promovendo os excessos do mercado financeiro, a destruição do meio ambiente. As razões para a indignação são evidentes. Têm a ver com o sistema. Por mais que comece com uma história de maconha e confronto com a polícia, acaba se transformando em um protesto antissistêmico. Em última análise, o objeto de indignação é o poder exorbitante do capital mostrando a sua irracionalidade e desumanidade. Muitas vezes, isso é formulado explicitamente nesses termos. Outras, não. Mas a questão está subjacente em todos os protestos recentes. Nós, sociólogos, precisamos tentar entender por que isso não começou mais cedo. Porque as razões para a indignação já existiam. Pelo jeito, foi necessário uma acumulação de descontentamento e um sentimento de que não é mais possível tolerar tal situação. E de que é preciso se revoltar, sabendo ou não se se conseguirá impor alguma mudança. Há um imperativo categórico de revolta, no sentido kantiano. Há coisas que você precisa fazer, mesmo sem ter certeza de em que vai dar. E quanto maior a participação ativa dos jovens, dos estudantes e de outros setores, cria-se uma relação de forças que pode pelo menos impor limites ao sistema e, sobretudo, criar uma tomada de consciência. Isso talvez seja o mais importante: a tomada de consciência. O Ocupe Wall Street não conseguiu arranhar o capital financeiro, mas despertou consciência crítica em grandes setores. Eis um evento importante. Histórico até.

Ocupações, greves e passeatas ainda são formas eficazes de protesto?

São as formas clássicas de protesto, que reaparecem sempre. Mas também há formas novas surgindo. Por exemplo, a comunicação através dos meios eletrônicos, como o Facebook e o Twitter, que permitem uma mobilização muito rápida. E as mobilizações de agora têm um caráter festivo, lúdico, com música, dança, festa, o que é próprio da expressão da juventude. O Facebook e o Twitter têm lugar importante, mas não é o caso de mitificá-los. Eles não bastam. Para que alguma coisa aconteça, você tem que sair de sua casa, descer à rua, reunir-se com outras pessoas, ir lá, brigar, protestar, talvez enfrentar a polícia. Então, o Facebook é um suporte, não vai substituir a ação direta das pessoas.

A juventude tem voz além do Facebook? Ela se sente representada politicamente?

Pouco, porque a representação política está nas mãos de setores sociais mais acomodados e de “mais idade”. Os jovens não se sentem representados. Há uma grande desconfiança em relação aos partidos e às instituições políticas existentes. Há certo rechaço a isso, muitas vezes com razão. Uma atitude cética diante da política institucional. Mas isso não quer dizer que haja desinteresse por eventos políticos. No meu tempo de aluno da FFLCH, nos anos 50, poucos estudantes achavam necessário ou sentiam vontade de se engajar em organizações políticas. Havia politização, mobilização em torno de determinadas causas, mas atividade política organizada era para uma minoria. Tenho a impressão de que atualmente a politização e a militância política são maiores do que nos anos 50, mas menores do que nos 60 e 70, durante a ditadura militar.

E podemos interpretar os protestos como um grito por participação política?

Analisemos o caso do Chile, que teve o movimento mais amplo até agora. Não é só um grito, é um protesto em cima de uma questão concreta: a privatização do ensino público desenvolvida no governo Pinochet, que não foi mudada pelos governos de centro-direita ou centro-esquerda que o sucederam. Trata-se de uma questão que concerne a todos os estudantes: o quase desaparecimento do ensino público gratuito, os preços exorbitantes da educação. E isso se coloca também no Brasil, na Inglaterra. Por toda a parte há essa tendência de transformar a educação em mercadoria, em indústria que deve dar lucro. E assim vai desaparecendo a educação pública gratuita, que era uma conquista de muitos anos de luta. O protesto dos estudantes chilenos começou criticando a privatização do ensino e depois tomou um caráter mais amplo, porque eles perceberam que os problemas na educação são parte de uma orientação geral de um sistema neoliberal. Notaram que esse modelo de educação é inseparável de questões maiores e, assim, o movimento ganha apoio de outros setores da sociedade.

A ideia de autonomia universitária está sendo colocada em xeque?

Autonomia universitária significa que o papel da universidade é transmitir conhecimento, cultura, ciência – e não mercadorias. Quando o papel do ensino se resume a permitir que estudantes adquiram um diploma, ou a prepará-los para encontrar um posto a serviço do management, do marketing, perde-se a qualidade humana, cultural e pedagógica da universidade. As universidades estão se tornando meras empresas voltadas para a produtividade, a racionalidade instrumental mercantil. E, obviamente, boa parte dos estudantes e professores resiste a isso, defende o estatuto da universidade como lugar de produção de cultura e conhecimento, com autonomia em relação ao mercado, à economia e às empresas.

No caso da USP, os estudantes se tornaram massa de manobra de partidos e sindicatos?

Não, pelo contrário. Há uma relação de desconfiança dos estudantes em relação aos sindicatos e sobretudo aos partidos. Uma parte do movimento sindical, geralmente a parte mais radical, se aproxima do movimento estudantil em busca de aliança. Mesmo que haja certo interesse dos jovens nessa aliança, ela não se dá com facilidade, porque os objetivos dos sindicatos são mais limitados. Os ritmos não são os mesmos, a cultura política não é a mesma. Então, há uma diferença que dificulta essa aliança. Mas, para os estudantes, é importante conseguir criar uma situação em que os sindicatos resolvam participar da mobilização. Isso tem acontecido no Chile, na Espanha, na Grécia, nos EUA. Longe de serem manipulados pelos sindicatos, esses movimentos de protesto têm grande autonomia. Eles buscam estabelecer a aliança, mas não no sentido de se tornarem apêndice dos sindicatos. Com os partidos políticos é mais complicado, porque a desconfiança é maior. Não há um único partido que controle ou manipule esses movimentos mundo afora.

Ao serem presos, estudantes da USP brandiam livros de Marx, Foucault e Walter Benjamin, imagens de Mao e Che Guevara. Essas referências continuam atuais?

É normal que cada vez que apareça um movimento de crítica antissistêmica as pessoas se refiram a personagens e pensadores que já exprimiram essa crítica. Então, Marx aparece como referência importante, porque ele foi o primeiro a elaborar uma crítica radical do sistema capitalista. Em muitos pontos, essa crítica é até mais atual hoje do que na época em que ele a escreveu. Fico feliz de saber que há estudantes que se referem ao pensamento desses autores. Benjamin tem uma reflexão profunda sobre o que é a modernidade capitalista, a ideologia do progresso. Ele dá elementos que Marx não dava. Guevara também é importante, sobretudo, como homem de ação e símbolo do compromisso ético com os ideais de libertação e emancipação. Tudo isso é necessário. Não pode haver um movimento, qualquer que seja, que não se refira às lutas, às vítimas, aos mártires e aos pensadores do passado, porque nós nunca partimos do zero. Mas, evidentemente, isso não basta. Precisamos também pensar com novos instrumentos teóricos para dar conta das questões que estão aparecendo neste começo do século 21. Por exemplo, a catástrofe ecológica que está se perfilando. Ela precisa de uma reflexão atual, utilizando elementos teóricos mais atualizados.

O sr. é um estudioso das revoluções dos séculos 19 e 20. Qual foi o papel dos jovens e estudantes nelas?

Depende, porque as revoluções são diferentes entre si. Em geral se pode dizer que a juventude sempre jogou um papel importante em qualquer movimento revolucionário. É uma constante. Movimentos revolucionários são levados por jovens, muitas vezes. Agora, se são estudantes ou não, isso depende da época, do país. Na Revolução Russa os estudantes não tiveram muito espaço. Na Revolução Cubana, sim. O Maio de 1968 em Paris foi um movimento totalmente estudantil. E um dos gatilhos foi a invasão da Sorbonne pela polícia. Na França, ainda hoje, a polícia entra raramente na universidade. Justamente porque se sabe que há o estatuto de autonomia das universidades e intervenções policiais provocam a reação dos estudantes. A polícia simboliza o autoritarismo do Estado contra a juventude, contra os estudantes. Esse choque com a polícia é frequente e, em certas circunstâncias, se transforma na faísca que mencionei antes, a que faz um protesto eclodir. Não podemos subestimar o papel dos estudantes nas revoluções.

 Os da USP foram chamados de bichos grilos de grife, filhinhos de papai, rebeldes sem causa, maconheiros mimados… Como o sr. avalia esse tipo de tratamento?

 Qalquer questionamento da ordem sempre é ridicularizado. Agora, sobre os estudantes serem meninos ricos… É uma mitificação, porque a maioria deles é de origem popular. Não são filhos de latifundiários, como eram os estudantes de antes da 2ª Guerra Mundial. Hoje em dia, a educação se tornou mais popular. Sobre a maconha: na minha opinião, não há razão para transformar o consumo de maconha em assunto de polícia. A maconha não é nem melhor nem pior do que o tabaco e a cerveja e tem um caráter bem diferente das drogas mais perigosas, como cocaína e crack. Então, essa reivindicação de descriminalizar o consumo da maconha me parece bastante razoável. Mas isso foi só um pretexto, porque em cima do tema se armou uma briga e, quando se manifestou o autoritarismo da polícia e do governo, aí assim o protesto cresceu. Muitos estudantes que aderiram à manifestação não o fizeram devido à questão da maconha e sim devido à repressão indiscriminada e arbitrária sobre alunos.

 A sociedade brasileira clama por ordem?

 Não é a sociedade em seu conjunto que se volta contra os estudantes com esse discurso de ordem e repressão. É a imprensa e os representantes da ordem e do governo. Eu me pergunto se parte da população não simpatiza com esses protestos da USP. Pelo menos foi o caso em outros países onde protestos dos jovens e estudantes se tornaram a expressão de um grande movimento popular. Não estou dizendo que isso vá acontecer já no Brasil, mas não há essa dicotomia entre jovens e estudantes de um lado e o restante da sociedade do outro. Essa separação é do interesse da classe dominante, dos governantes mais reacionários, como tentativa de mobilizar a população contra os estudantes.

 O governador Geraldo Alckmin disse que os estudantes da USP precisavam de uma aula de democracia…

 Nós sabemos que no Brasil não há nada mais democrático do que a Polícia Militar (risos). Ela tem uma tradição de várias dezenas de anos de democracia, não é? Democracia do cassetete – que não acho que deva ser a forma mais avançada de democracia. Não deve ser muito sério o argumento do sr. Alckmin. Uma intervenção policial brutal não tem nada de democrático.

Alguns autores contemporâneos, como o irlandês John Holloway, valorizam a articulação dos novos movimentos. Ao contrário do que dizia Marx, agora é possível mudar o mundo sem tomar o poder?

Holloway me deu o livro dele e pediu para que eu fizesse uma resenha, sabendo que eu iria criticá-lo. O livro Mudar o Mundo sem Tomar o Poder tem muitas ideias interessantes e toda a crítica que ele faz ao sistema me parece muito profunda. Mas acho que a proposta dele não faz sentido, porque qualquer ação social e política inevitavelmente implica uma forma de poder ou de contrapoder. O que se coloca é garantir que esse poder seja efetivamente democrático. O movimento, ele mesmo, tem formas de poder, de organização e de gestão democrática. Protesto, revolta e revolução, tudo isso não pode existir se não houver uma organização de uma forma de poder. Não podemos contornar a questão do poder, porque na política não existe vazio. A necessidade é que esse poder seja democrático. Essa é a resposta.

No livro Revoluções, o sr. destaca como os revolucionários muitas vezes são vencidos pela história. Os estudantes de hoje serão vencidos?

Não posso dizer. Mas podemos já constatar, nos países árabes concretamente, que esses movimentos de protestos da juventude não foram vencidos. Eles derrubaram duas ditaduras sinistras, na Tunísia e no Egito, com uma mobilização desarmada. Não estou dizendo que isso será uma regra, mas mostra que não há nenhuma fatalidade. As revoluções são sempre imprevisíveis, acontecem onde ninguém espera.

SOCIÓLOGO E PESQUISADOR DO CENTRE NATIONAL DE LA RECHERCHE SCIENTIFIQUE (CNRS), DE PARIS


OCCUPY WORLD – Videos geniais

Queridos,

Gostaria de compartilhar com voces tambem dois brilhantes videos que explicam de forma excelente a situação atual.

Primeiro no que diz respeito à Espanha (e no final de contas a todos nós):

http://www.youtube.com/watch?v=CkQhygB6wps

Depois no que diz respeito ao Capitalismo como um todo:

http://www.youtube.com/watch?v=d5CzZqauTVs

O primeiro video é em espanhol mesmo, mas com as legendas fica facil entender.

O segundo está dublado. O que nao significa que seja fácil de entender…é um vídeo denso, mas maravilhoso.

Quero mante-los ocupados e com bastante lição de casa enquanto preparo meu proximo artigo.

Um forte abraço a todos!


OCCUPY WORLD : Fontes de informação

Amigos,

Enquanto meu novo texto nao sai gostaria de compartilhar com voces uma serie IMENSA de endereços e espaços onde se pode conseguir informação sobre as diversas ocupações no Brasil e no mundo DIARIAMENTE, consolidada pelo meu colega Fabio Mocci Camargos.

Gosto de pensar em meu blog como um espaço para reflexão e aprofundamento de alguns pontos sobre as ocupações (pelo menos estou lutando por isso), mas sei que existem outros espaços onde pode-se conseguir quase diariamente updates sobre o assunto.

Não posso falar por todos eles, na verdade estou certo de que muitas das opiniões expressadas nesses espaços podem eventualmente divergir.

Sugiro apenas que voces busquem ler o maximo possível sobre o assunto e formem sua própria opinião, pois isso só será possível se voce beber de muitas fontes.

Amanhã ou quarta espero publicar meu texto novo e espero que voces possam me visitar para ler, criticar e comentar.

Um forte abraço!

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Sites e Blogs

 15o SP

http://15osp.org

 Ocupa Campinas

http://ocupacampinas.blogspot.com/

Ocupa Rio

http://www.ocupario.org

Ocupa Salvador

http://ocupasalvador.wordpress.com

Democracia Real

http://www.democraciarealbrasil.org

Ocupa USP Contra Repressão

http://ocupauspcontrarepressao.blogspot.com

USP em Greve

http://uspemgreve.blogspot.com/

11/11/11

http://111111.coolmeia.org/

Anonymous SP

http://anonymoussp.wordpress.com/

Grupos

 Democracia Real Brasil

https://www.facebook.com/groups/239232942767847/

 Democracia Real SC – Acampadas

https://www.facebook.com/groups/290154697663726/

 Ocupa Brasil

https://www.facebook.com/groups/175048285922424/ 

 NASRUAS.BR

https://www.facebook.com/groups/nasruas/

 NASRUAS.SP

https://www.facebook.com/groups/NASRUAS.SP/

 NASRUAS.MA

https://www.facebook.com/groups/nasruas.ma/

 #OcupaCuritiba:

https://www.facebook.com/groups/ocupacuritiba/

 Anonymous São Paulo:

https://www.facebook.com/groups/235985683086646/

 Ágora (Anonymous):

https://www.facebook.com/groups/223909667665967/

 Grupo de estudos políticos e sociais.

https://www.facebook.com/groups/171372232941487/

 Você Ativista (recusando o sistema de servidão):

https://www.facebook.com/groups/252152758161061/

Ocupa Wall Street Brasil:

https://www.facebook.com/groups/224030920990926/

Perfis (Facebook)

 Acampa Sampa:

https://www.facebook.com/acampasampa

 Pages (Facebook)

 Occupy São Paulo

https://www.facebook.com/occupysaopaulo

 #acampasampa

https://www.facebook.com/pages/acampasampa/207112696021793

 Ocupa Campinas

https://www.facebook.com/ocupacampinas

 @OcupaSalvador – Acampados em Ondina

https://www.facebook.com/OcupaSalvador

 Ocupa Rio (occupy Rio)

https://www.facebook.com/OcupaRio

 Occupy Brazil

https://www.facebook.com/OccupyBrazil

 #OcupaAssembleiaBH

https://www.facebook.com/pages/OcupaAssembleiaBH/293313930679121

 Occupy TV Globo

https://www.facebook.com/pages/Occupy-TV-Globo/225328960862228

 UNIVERSO CIDADE LIVRE – A Universidade do Acampa Sampa

https://www.facebook.com/pages/UNIVERSO-CIDADE-LIVRE/180178802067429

 Democracia Verdadeira, JÁ

https://www.facebook.com/Democracia.Verdadeira.Ja

 Plano Anonymous Brasil

https://www.facebook.com/PlanoAnonymousBrasil

 Anonymous Brazil

https://www.facebook.com/pages/Anonymous-Brazil/176515172418412

 Anonymous Rio

https://www.facebook.com/pages/Anonymous-Rio/231139103603112

 Movimento Zeitgeist Brasil

https://www.facebook.com/mzbrasil

 Save Xingu

https://www.facebook.com/SaveXingu

 Twitter

 Acampa Sampa

http://twitter.com/#!/AcampaSampa

 Ocupa Rio

http://twitter.com/#!/OccupyRio

 Ocupa BH

http://twitter.com/#!/ocupabh

 Occupy Brazil

http://twitter.com/#!/OccupyBrazil

 Manifestação.org

http://twitter.com/#!/manifestacaoorg

 Acampadas Brasil

http://twitter.com/#!/AcampadasBrasil

 Indignados do Brasil

http://twitter.com/#!/IndignadosBRA

 Vídeos

 Youtube

http://www.youtube.com/user/acampasampa

 #OcupaRio – Performance Brasil

http://vimeo.com/30973131

 Live Stream – Acampa Sampa (ao vivo em alguns momentos):

http://www.livestream.com/anonymousBR

 11.11.11 Brasil

http://vimeo.com/32261963

 Eventos (mesmo os que ja passaram continuam publicando informações) 

Evento Mundial – 11.11.11 Occupy The Streets. Occupy The World.

https://www.facebook.com/event.php?eid=179186642163285

Evento Nacional – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo.

https://www.facebook.com/event.php?eid=125532647554958

Conexão quântica #ACAMPA SAMPA

https://www.facebook.com/event.php?eid=286682441352274

Bauru/SP – 11.11.11 – Ocupe as Ruas. Ocupe o Mundo – Bauru

http://www.facebook.com/event.php?eid=214132585322799

Belo Horizonte/MG – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo. // Belo Horizonte – MG

https://www.facebook.com/event.php?eid=315236811824749

Brasília/DF – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo. // Brasília

http://www.facebook.com/event.php?eid=235765829815777

Curitiba/PR – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo..COM AMOR!! Viva la ReLOVucion!!

http://www.facebook.com/event.php?eid=239638342758204

Florianópolis – Indignados Floripa convocam: 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo.

https://www.facebook.com/event.php?eid=289715184383495

Goiânia/GO – Chamada Urgente 11.11.11 – Revolução Global (11/11/2011)

http://www.facebook.com/event.php?eid=142578259177698

Jundiaí – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo – Jundiaí – SP

https://www.facebook.com/event.php?eid=290167121005784

Natal/RN – Assembleia Popular Pela Democracia Real Já Em Natal

http://www.facebook.com/event.php?eid=166121263480204

Nova Friburgo/RJ – Nova Friburgo vai às ruas – Juntos somos fortes!

http://www.facebook.com/event.php?eid=238357832886815

Porto Alegre/RS – 11.11.11 OCUPA POA – Porto Alegre-RS

https://www.facebook.com/event.php?eid=195046663903407

Rio de Janeiro/RJ – 11.11.11 Ocupação Mundial (Cinelândia – Rio de Janeiro)

http://www.facebook.com/event.php?eid=111910212254406

São Carlos/SP – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo – São Carlos

http://www.facebook.com/event.php?eid=134908853279413

São Paulo/SP – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo – São Paulo

http://www.facebook.com/event.php?eid=270147923028712

Vitória/ES – 11.11.11 – Ocupe As Ruas. Ocupe O Mundo – Vitória

http://www.facebook.com/event.php?eid=242782322447022

AULA PÚBLICA VLADMIR SAFATLE

https://www.facebook.com/event.php?eid=266285936740153

Paulo Arantes no Ocupa Sampa, sábado, dia 29/10 às 17 horas.

https://www.facebook.com/event.php?eid=311665375514429

Operação de divulgação da Acampada de São Paulo

https://www.facebook.com/event.php?eid=305729992786201

MOVIMENTO ACAMPA SAMPA – VAMOS AJUDAR

https://www.facebook.com/event.php?eid=284740221546603


OCCUPY WORLD: Sobre Wall Street e Tiranossauros (por que nós vamos vencer)

Nota do autor: Esse texto fala sobre a expulsão dos manifestantes de Wall Street pela policia na madrugada de hoje, entre outros artifícios que tem sido usados para nos calar, e porque nós vamos vencer apesar de tudo.

Há mais ou menos 65 milhões de anos os Tiranossauros reinavam supremos sobre a Terra. Com presas imensas, um tamanho descomunal e uma capacidade de caça incomparável, ninguém podia com eles. Os mamíferos eram minúsculos, viviam nas sombras, se moviam em silêncio, estavam na base da cadeia alimentar.

Subitamente algo aconteceu. Um meteoro, como um gigantesco Deus ex Machina, se chocou com a Terra levantando uma nuvem imensa de poeira, que tapou o sol por meses, matou as plantas, os imensos dinossauros herbívoros que delas se alimentavam, e conseqüentemente, o Tiranossauro. Os pequenos roedores pré-históricos, que nunca desenvolveram grandes presas ou porte respeitável, haviam aprendido a ser furtivos, a precisar de pouco, a se multiplicar rapidamente. Eles herdaram a Terra.

A beleza infinita da teoria da Evolução de Darwin é que ela pode ser aplicada a qualquer modelo ou organização de espécies desse ou de qualquer planeta onde a vida possa eventualmente figurar. A sociedade humana não é exceção alguma. E por isso eu não estou nem um pouco pessimista – talvez um pouco furioso apenas – com o que ocorreu na ultima madrugada.

Dessa vez até quem só lê Estado de São Paulo está sabendo. Desocuparam Wall Street. NA MARRA. Como hienas, centenas e centenas de policiais cercaram os acampamentos no meio da madrugada (1h20 da manha), ameaçando prender todo aquele que não juntasse suas coisas e saísse em cerca de 20 minutos. Pelo menos 200 pessoas foram presas durante a operação, e o mais interessante é que quase metade desse numero não é representado por acampantes, e sim pessoas das imediações que se indignaram e foram interceder por eles.

Vale dizer que essa não foi a primeira vez que a prefeitura de NYC tentou desocupar a praça. No dia 15 de outubro uma grande operação foi montada, mas eles cometeram o erro de “dar bandeira demais” e acabaram tendo duas mil pessoas não-acampantes encarando de frente a polícia. O prefeito recuou, é claro. Mas aprendeu a lição.

Sendo silenciosa e rápida o bastante, a operação da ultima madrugada fez o que a primeira não conseguiu: Se esquivar furtivamente de uma imensa massa da população de NY que APOIA o movimento. Limpou a Praça da Liberdade rápido o bastante para impedir um imenso enfrentamento publico.

A prefeitura de NY estava esperando um bom motivo para remover a ocupação faz semanas. Mas esse motivo não apareceu: A ocupação foi pacífica, organizada e conquistou rapidamente a simpatia da população de sua cidade e do resto do mundo. A coisa complicou. Como convencer a população de que o cassetete era necessário para preservar a ordem publica, se a ordem publica não havia sido agredida?

O prefeito apelou então para o plano B: A mentira, o silencio. Vamos atacar de madrugada, ele pensou. Vamos fazer isso sem ninguém ver. As centenas de policiais da operação não apenas bloquearam diversas estações de metro e a ponte do Brooklin, para isolar a área: Eles impediram qualquer repórter de se aproximar do local.

Agora, vamos ao questionamento óbvio: Se a policia atende aos interesses do povo (e a maioria da população da cidade apoiava o acampamento), por que agir na calada da noite, longe dos olhos da imprensa e da opinião publica? Por que esconder tudo dessa maneira?

A resposta é uma só: A policia NÃO ATENDE AOS INTERESSES DO POVO. O policial é um ser humano, e ele individualmente atende apenas ao interesse do empregador. O empregador, por sua vez, atende ao interesse do governo. E o governo por sua vez, atende ao interesse do empresário que suborna, que patrocina suas campanhas. Não tem povo aqui. O povo estava na praça, sendo arrastado para a traseira dos furgões.

Infelizmente para eles, as barracas estavam cheias de computadores com webcam. Cada manifestante possuía um celular com câmera, a expulsão foi documentada ao vivo. Foi gerado mais material sobre o assunto, na forma de fotos, vídeos e relatos, do que todas as emissoras do mundo todo conseguiriam exibir por meses.

Abaixo uma reportagem interessante que recebi sobre a brutalidade da policia documentada por essas cameras e celulares. A reportagem foca não apenas a expulsão de Wall Street mas também as expulsões de Seattle e São Francisco que ocorreram quase ao mesmo tempo :

http://rt.com/usa/news/police-occupy-seattle-francisco-503/

O senhor da foto acima tem 84 anos e foi atingido com spray de pimenta. Seu nome é Doril Rainey. Algumas grávidas e adolescentes também foram agredidos de forma semelhante.

Abaixo uma reportagem interessante sobre como a policia tentou esconder a destruição do acampamento, além de ter saqueado a biblioteca montada pela ocupação:

http://www.viomundo.com.br/politica/heloisa-villela-policia-de-ny-tentou-impedir-a-midia-de-registrar-a-destruicao-de-acampamento.html?awesm=fbshare.me_Aeztf&utm_campaign&utm_medium=fbshare.me-facebook-post&utm_source=facebook.com&utm_content=fbshare-js-large&fb_source=message

A informação vazou.

Como reagir a isso?

Bom, o próximo passo é usar um bom lobby sobre as empresas responsáveis pelos grandes veículos de comunicação. Isso está sendo feito nesse exato momento. Eles não precisam convencer TODO MUNDO, apenas uma parcela da população grande o bastante para que os indignados sejam vistos como fogo de palha. Os donos do mundo de hoje não tem tempo para ler blogs ou assistir Youtube, eles estão ocupados demais trabalhando e fazendo o mundo girar.

Observando a situação não é difícil traçar o Modus operandi de nossos inimigos. Como eles SEMPRE vão nos enfrentar, pois foi como fizeram (e funcionou) por séculos:

1- FORÇA FISICA

2- BOICOTE DE INFORMAÇÃO

(alguma semelhança com a desocupação da reitoria da USP na semana passada é mera coincidência)

FORÇA foi o único recurso necessário para dominar o povo durante séculos de existência humana. Quando nasceu a democracia (ou pelo menos o ideal de democracia) nasceu uma forma de dominação ainda maior: A INFORMAÇÃO.

Se a vontade da população define o governo, manipulando a vontade da população se manipula o governo. Bingo. 1+1=2.

Só que da mesma forma que o Tiranossauro fazia quando reinava supremo, nosso inimigo se acostumou a usar os recursos que possui a seu favor. Ele se acostumou a estar por cima. Por isso mesmo agora nosso inimigo abriu uma imensa brecha estratégica. O espaço na armadura onde nós vamos cravar nosso golpe.

A internet veio como um meteoro e se chocou contra seu mundo de certezas cenográficas. E a responsabilidade de usar esse novo recurso reside em cada um de nós. Sem exceção.

A teoria da evolução atesta que as espécies que melhor se adaptam a um ambiente acabam vigorando, espalhando melhor seus genes, prevalecendo. A constante mudança de ambientes provoca subseqüente constante mudança de espécies dominantes. É por isso que esse espaço geográfico urbano onde você mora não está cheio de Alossauros ou Tigres Dentes de Sabre. O que é força em um momento se torna fraqueza no momento seguinte.

Nós somos a próxima espécie. Nos vamos herdar o planeta.

Se a vontade da população define o governo, RETOMANDO o controle sobre a comunicação, levaremos a verdade para a população. Assim retomaremos o governo. Bingo. 1+1=2.

O que nós devemos fazer?

1 – QUANDO DECIDIREM USAR FORÇA CONTRA NÓS, TEMOS QUE DENUNCIAR, DOCUMENTAR, TORNAR SUA VIOLENCIA PUBLICA. EXPOR SUA FEIURA. PARA ISSO PRECISAMOS SER IMPECÁVEIS. NÃO DAR MOTIVO. NUNCA BATER PRIMEIRO

2 – QUANDO ELES MENTIREM, QUANDO DISTORCEREM A INFORMAÇAO, TEMOS QUE ASSUMIR O PAPEL QUE A MIDIA NEGLIGENCIOU. ESCREVER. FALAR. COMUNICAR O ESCONDIDO.

Ao menos que eles “desliguem a internet”, o que não é possível simplesmente porque o sistema que alimenta o poder DELES já depende muito dessa tecnologia, eles não tem como enfrentar isso.

E não nos esqueçamos de que apenas 10% da população do planeta tem acesso à internet. Ela sozinha não bastará. Teremos que falar com as pessoas, criar redes, envolver, continuar indo às ruas, chamando a atenção. Pressionando.

O uso constante dessa tática, a repetição, a insistência, vai acabar vencendo. E se eles criarem um recurso novo, que não está sendo considerado, nós somos maioria. Nós temos menos a perder. Nós formularemos um contra-ataque.

Hoje nós não somos exatamente 99%. Somos uma minoria desses 99% que acordou. Por meio dessa tática, nós vamos aumentar nossos números. Vamos fazer jus ao nosso slogan. Hoje a caneta é mais forte do que a espada, mas tem gente demais usando a caneta contra nós, precisamos aumentar nossos números.

No momento que conseguirmos, no momento que o domínio da informação for nosso, nós teremos que lidar com outro tipo de problema: Eles ainda terão a força. E encurralados, eles nos enfrentarão.

Não se enganem. Dificilmente essa etapa do processo será pacifica. Eu adoraria dizer que sim, mas não posso prometer isso. Mas SE em algum momento nós tivermos que soltar a caneta e segurar a espada, nesse momento nós seremos MESMO uma maioria absoluta.

Nossas multidões terão se erguido por toda a parte, em números infinitamente maiores do que os que se ergueram no dia 15-10 ou no 11-11. E nesse momento, nós vamos vencer.

Hora de segurar a caneta…

Nós temos um mundo para retomar…

…..

NOTA: Poucas horas após a expulsão, os manifestantes já haviam conseguido uma liminar para voltar para a Praça da Liberdade. O governo liberou o retorno, devido a imensa pressão da população, sob a condição de que as barracas não fossem instaladas por enquanto.

Eles ocuparão não apenas a praça da liberdade mas também as proprias ruas de Wall Street. Indignados do mundo todo já prometem novos levantes.

Na sexta feira, 18/11, mais 200 pessoas foram presas, dessa vez devido a protestos realizados em Wall Street, totalizando 300 pessoas presas em apenas uma semana.

O movimento Ocupe Wall Street anunciou planos para cerca de mais 30 ocupações e garantiram que mesmo durante o rigoroso inverno americano se revezarão em turnos para manter ocupação simbólica.

Ao mesmo tempo, a prefeitura de Londres e provavelmente outras ao redor do mundo buscam recursos legais para expulsar seus ocupantes. A saga continua e cabe a nós decidir como ela vai terminar.

Acompanhe ao vivo tudo o que rola nas ocupações do mundo no seguinte livestream:

http://occupystreams.org/item/occupy-wall-street-nyc


USP: Um desabafo

Aviso: Esse artigo possui 6 páginas. Se você achar longo demais não se preocupe, certamente a VEJA ou a GLOBO poderão te dar um resuminho que você será capaz de processar em 3 minutinhos, antes de assistir o Big Brother. Obrigado por nos visitar.

 “Cinco da manhã. Você mora no CRUSP, mas não é afiliado a partido nenhum. Sempre foi apenas estudar, diz que se sente orgulhoso pela coroação do seu próprio esforço em conseguir passar na USP, e por isso mesmo sempre foi contra qualquer paralização – a Universidade é para estudar, não é para discutir política. Você estuda Literatura, então te interessa discutir o texto crítico que fala da obra literária que fala de política. Essa é sua carreira. Então começa a respirar mal, dormindo, porque tem gás lacrimogênio entrando pela sua janela. Tenta sair, mas tem luz de helicoptero na sua cara. Ouve bala de borracha de madrugada, e criança chorando, vê de relance cavalos e fuzis de verdade, gente algemada, gente gritando. Chega mais perto no meio da fumaça, para ver o que é. Sente a força nas costas, cai no chão. É algemado. Entenderam tudo errado. Você não queria ajudar ninguém…”

-Yuri Bossonaro

Esse artigo tem como objetivo lançar uma luz sobre os eventos lamentáveis do dia 08/11, ultima terça, quando a ocupação da reitoria na USP se tornou uma zona de guerra com mais de 400 policiais da tropa de choque, 3 helicópteros, policia montada, fuzis, gás lacrimogêneo e bala de borracha. 72 estudantes e funcionários da USP foram detidos. Dezenas de outros, como o coitado do texto acima, apanharam por estar no lugar errado na hora errada.

A despeito de minha raiva instantânea por tudo o que aconteceu, o pior veio depois, ao me deparar com a hedionda complacência e quase admiração com que amigos, familiares e tantos outros aplaudiram as ações da PM, como se estivéssemos falando da ocupação de um morro tomado por traficantes e não da invasão de uma reitoria repleta de alunos, estudantes…

Talvez isso se deva ao fato de que grande parte dessas pessoas não tenha a menor idéia de quem seja João Grandino Rodas, o reitor da USP e responsável pelo “massacre” da ultima terça, e também não tenha a menor idéia do que os alunos realmente reivindicavam. Prefiro tentar manter algum otimismo ou esperança na minha espécie.

Decidi perfurar o “lobby” da grande midia uma vez mais e fornecer algumas informações.  O que cada um fará com elas, ou se elas serão capazes de mudar a cabeça de alguém, ja nao posso dizer. Só não posso me calar.

Antes de falar sobre o ocorrido da ultima terça, acho interessante um breve esclarecimento sobre os 3 principais elementos da tragédia: Os estudantes da FFLCH, João Grandino Rodas e a Policia Militar Brasileira.

Sobre os estudantes:  

Segundo ranking internacional feito pela Top Universities, nove cursos da USP figuram entre os 200 melhores do mundo. Dentre esses, seis são da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas: Filosofia, Sociologia, História, Lingüística, Ciências Políticas e Geografia.

http://www.topuniversities.com/

Posto que esse índice mede o resultado do aprendizado do aluno, é interessante citá-lo para mostrar como aqueles barbudos subversivos que nossa mídia marrom tem pintado como um “bando de baderneiros sem causa” são na verdade as maiores mentes de nosso país, pelo menos sob o aspecto acadêmico.

Pode-se alegar que os responsáveis pela ocupação na reitoria não representam a vontade de todos os alunos da FFLCH, isso é fato. Mas se existem divergências quanto aos meios adotados pelos ocupantes e os demais alunos, o mesmo não se aplica aos fins. Que fins são esses? Voltaremos nisso em breve.

Sobre João Grandino Rodas:

Reitor da USP, colocado lá por José Serra em 2009, Grandino Rodas participa do corpo docente da universidade a muito mais tempo, possuindo um histórico bastante questionável de relacionamento com militares durante o período da ditadura.

Rodas também está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo por corrupção pelo envolvimento em escândalos como nomeação a cargos públicos sem concurso (inclusive do filho de Suely Vilela, reitora anterior a Rodas), criação de cargos de Pró-Reitor Adjunto sem previsão orçamentária e autorização legal, e outros.

É considerado o reitor mais ausente da história da universidade, jamais se colocando a disposição tanto dos alunos quanto do próprio corpo docente, sendo inclusive o primeiro reitor da história a ser considerado “persona non grata” pela Congregação da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em represália a constantes ataques contra seu atual diretor.

Desde muito antes dos recentes episódios que colocaram em cheque a segurança da universidade, como o assassinato do aluno no estacionamento, já possui um histórico extremamente próximo com a Policia Militar. Em 22 de agosto de 2007, na época diretor da Faculdade de Direito, foi responsável pela entrada da tropa de choque na Faculdade, expulsando manifestantes da UNE e do MST, estudantes e membros do diretório acadêmico que haviam ocupado o prédio como parte das manifestações da Jornada da Defesa da Educação.

Em janeiro de 2011 foi responsável pela demissão em massa de 270 funcionários, por corte de verbas – a despeito dos imensos desvios e má aplicação do orçamento. Esse fato e diversas outras denuncias lhe renderam um convite para prestar esclarecimentos na Assembléia Legislativa de São Paulo (24 de março de 2011), mas ele não compareceu. Ele também não compareceu a dezenas de outras reivindicações e assembléias convocadas pelos alunos e professores ao longo de seu mandato. O que se fala é que é mais eficiente reclamar para Deus do que para João Grandino Rodas, no que concerne qualquer problema, duvida ou questionamento a respeito do que se passa na USP.

Sobre a Polícia Militar

Considerada uma das policias mais violentas do mundo, é um órgão que durante as décadas de ditadura foi usado como maquina de repressão do estado sobre a população. Foi NO MINIMO indiretamente responsável ou NO MINIMO conivente com o desaparecimento e assassinato de pelo menos 475 pessoas, segundo o livro “Direito a memória e à verdade”, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos na ultima década.

Durante o período da ditadura a Policia Militar e a USP tiveram um relacionamento particularmente tenso, já que os principais movimentos de combate à ditadura no Brasil nasceram na universidade. Uma parcela considerável de nossos desaparecidos políticos daquele período eram alunos ou professores.

É uma policia subordinada aos governos dos estados e não às prefeituras, um modelo bastante raro no mundo. É apenas uma das muitas alternativas para assegurar a segurança pública, como a Policia Civil ou a Guarda Civil da USP, que deixou de receber treinamento e investimento por decisão do próprio Grandino.

Protagonizaram diversos eventos recentes de abuso de violência e repressão a artistas de rua, passeatas pacíficas ou movimentos como o Acampa Sampa.

O então delegado da Policia Militar (e hoje deputado estadual) Hélio Luz deu um chocante depoimento no documentário “Noticias de uma Guerra Particular” onde ele é bem categórico em dizer que “a polícia faz o papel de ‘proteção da elite’ e só pode usar a repressão para controlar dois milhões de pessoas nas favelas”. Ele admite que a polícia é uma instituição corrupta e afirma que “nós garantimos uma sociedade injusta”.

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Apresentados os personagens da tragédia, vamos aos fatos.

A despeito da crença popular de que o fato que desencadeou  na invasão da reitoria e subseqüente violência da ultima terça tenha sido a prisão de 3 estudantes por estar fumando maconha no campus, os problemas do movimento estudantil que resultaram na ocupação da reitoria datam de muito antes.

A USP carece de planejamento urbanístico que favoreça a segurança, carece de iluminação apropriada e desde que Grandino Rodas assumiu a Guarda Universitária – real responsável pela segurança da autarquia (significa pela constituição que possui direito à autonomia administrativa) que é a USP – tem sofrido constantes cortes orçamentários, cortes em treinamento, equipamento, etc.

Isso já é pauta de discussão entre os diversos membros do movimento estudantil faz anos. Grandino Rodas não apenas ignorou durante anos os apelos do movimento, como adotou algumas outras medidas “excelentes” para a segurança da faculdade, como proibir a circulação de não-alunos nas dependências da Universidade.

Obviamente essa proibição vale apenas para as pessoas que como eu ou você, usam a portaria da USP, mas não para os trombadinhas ou traficantes que pulam os muros ou se embrenham pelas matas que cercam o campus. A USP já era um local ermo, se tornou um lugar ainda mais vazio. Sem iluminação e sem investimento algum em segurança, se tornou realmente terra de ninguém.

O que poucos enxergam é que isso foi deliberadamente provocado por Rodas ao longo de anos, sob constantes protestos e reclamações do corpo estudantil, para criar uma situação que JUSTIFICASSE a presença da PM na universidade.

As reivindicações dos alunos que invadiram a reitoria e foram arrancados de lá na porrada essa semana não eram”poder fumar maconha no campus”. O que eles queriam era o que já estavam pedindo a anos: Investimento real na segurança da Universidade, mas não abrindo as portas para a PM e fechando para a população (o que Rodas fez).

Grande parte do movimento estudantil da USP era contrário à ocupação do prédio da reitoria, mas são TOTALMENTE solidários às reivindicações listadas acima. Prova disso é a adesão de mais de 3000 alunos na assembléia realizada no dia 08/11, onde se decidiu pela greve.

Todas as decisões de Rodas nos últimos anos confluem para um único fim: Coibir a autonomia administrativa da universidade. Implodir sua estrutura de forma a justificar uma presença cada vez mais constante do estado, um movimento para a privatização das universidades e sua subseqüente subordinação ao segundo setor.

A palavra “Democracia” é derivada do grego “demo” (povo) e “cracia” (poder ou governo). Em um mundo onde nossa “democracia” tem se tornado uma ditadura subliminar, em que o estado se coloca sobre o povo e as empresas e corporações se colocam sobre o estado, a USP (berço intelectual, historicamente responsável pelo nascimento da maioria das revoluções que nosso país conheceu) possuir autonomia administrativa é uma imensa ameaça e um incomodo a ser extirpado.

E usando os bons e velhos artifícios de MEDO para convencer a população de que é preferível abrir mão da própria liberdade para ter segurança (11/09 e o ato patriótico nos EUA, só pra dar um exemplo bem recente) os grandes veículos de mídia, subordinados ao estado e às grandes empresas, estão conseguindo virar a opinião pública contra aqueles que lutam pela nossa liberdade.

Agora está feito. Você pode ter lido (talvez pela primeira vez) os motivos REAIS da ocupação no prédio da reitoria, pode ter ouvido um outro ponto de vista, e continuar achando tudo isso sem significado, continuar achando a causa vazia. Tudo bem.

Não acho que toda a população precise concordar com os motivos de um protesto ou de outro. Como me disseram ontem e eu concordo, “democracia também é divergência de opiniões”. A única coisa que espero da população é que não concorde com a violência que rolou. O cassetete que usaram é um só, pra bater na cabeça deles ontem e na minha (e na sua) amanhã.

Há um direito que antecede o direito codificado, o direito natural. Um código inerente à humanidade presente em todo ser humano, que faz a morte ser crime em quase todo canto, ou acende a luz dentro da maioria, criando desconforto ao saber do apenamento com a morte. Estrahamente esse mesmo código não indica à maioria que, NUNCA, meninos ou homens podem ser espancados, mesmo após condenação. Simplesmente não consigo entender o sangue nos olhos, quase em júbilo, com que algumas pessoas defenderam a violencia que foi perpretada na USP ontem. Me faz me perguntar se estamos perdendo nossa humanidade. Nós evoluimos alguma coisa desde que ficavamos em arquibancadas do coliseu babando enquanto gladiadores eram decapitados ?

Sei que toda generalização é burra, que não existe apenas um tipo A e um tipo B de pessoa, e também não gosto de ficar citando rede social de internet em meus textos, acaba zicando um pouco o ar de “atemporalidade” que eu gosto de dar para eles. Mas é impressionante como todas as pessoas que ontem de manha, no Facebook, estavam defendendo a invasão violenta da PM na reitoria, que estavam chamando os estudantes de “maconheiros sem causa”, de noite já estavam falando sobre a novela, o jogo de futebol, postando foto do brigadeiro que fizeram no microondas. E aqueles que se horrorizaram com o que aconteceu, que replicaram os manifestos dos estudantes, as fotos da violencia, de noite continuavam trocando textos, informações, se indignando. E hoje continuaram fazendo o mesmo…

E esse primeiro “tipo A” hipotético (a do futebol ou da novela) também é o mesmo tipo de pessoa que costumava usar os jargões “Dilma terrorista” ou “Bolsa-Esmola”, entre outros. É nosso brasileiro burguês médio, que só gosta de discutir politica na medida necessária para não fazer feio nas conversas de escritório, mas no fundo não está realmente interessado em nada e prefere viver como escravo – fingindo que é livre por poder trocar o Iphone todo ano – do que enxergar a verdade desconfortável.

É o cara que se tivesse vivido em 70 e poucos no Brasil, chamaria o guerrilheiro que lutava contra a ditadura de “ladrão” ou “terrorista”, e que acharia que é OK um estudante ou professor sumir ou tomar um tiro numa ruela por aí, afinal eles estavam “pedindo por isso mesmo”.

Todo mundo quer que as coisas fiquem bem, sem ter que limpar a sujeira depois. É patético o argumento de que “nao queremos pagar a conta” de meia de duzia de móveis quebrados na reitoria, enquanto Rodas esta sendo investigado por desvios de MILHÕES !  A desinformação do povo me dói o estomago …..

Como diria o ditado popular, “as vezes é necessário quebrar alguns ovos para fazer uma omelete”. Mas o burgues brasileiro médio é do tipo que come em restaurantes, ele nao sabe quebrar ovos nem fazer omelete.

Uma vez mais, cabe aos “barbudos que moram de aluguel”  oferecer a outra face (e infelizmente as vezes uma cadeira ou um tomate) para o cassetete e o escudo da tropa de choque, na luta para construir as mudanças das quais um dia todos esperamos usufruir …

Mais de 3 mil estudantes se reuniram, em greve, não só os “barbudos maconheiros inuteis” mas também seus futuros advogados e médicos, dispostos a discutir o que aconteceu e por um fim no terror que se instituiu na USP. Mas todos eles devem ser mesmo apenas um bando de desocupados lutando por seu direito de fumar maconha livremente e estar acima da lei …

Encerro meu texto com um pedido simples e direto: Ninguém é obrigado a ter uma opinião sobre esse assunto (ainda que eu ache estranho que isso nao ocorra naturalmente). Ninguém é obrigado a concordar com isso tudo, aliás falei com muita gente razoável e inteligente que continua sendo contra a ocupação e não tenho problema algum com isso. Ninguém é obrigado a ter uma causa, em primeiro lugar. Conheço pessoas incríveis que preferem fazer milhares de coisas em vez de se aborrecer com política e respeito isso totalmente. São as pessoas tipo C, D, E, F, G, etc desse mundo. Diversidade é essencial em qualquer sociedade saudável.

Mas, às pessoas que ficaram lotando meu facebook, caixa de e-mail ou meus ouvidos mesmo, com argumentos parcos sobre “maconheiros vagabundos” e sobre como a policia “tem mais é que descer o cacete”. A essas pessoas eu mando um recado.

Todo mundo que quiser opinar sobre o assunto com essa intensidade – nem que seja para condenar os estudantes e defender Rodas e a PM – tem que se informar o mínimo primeiro.

Toda discordancia, todo questionamento, será benvindo e acrescenta na discussão. Isso é democracia. Mas falar sem pensar não acrescenta. É só produzir barulho.

Melhor voltar pro Big Brother.

Se não for ajudar, pelo menos não atrapalhe.

………

NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESSE ARTIGO – Hoje, dia 11/11, o Estado de São Paulo anunciou a decisão da PM em construir sua primeira unidade DENTRO da Universidade de São Paulo. Já existe planejamento de local, construção, já existe projeto feito.

Mais do que nunca sou levado a acreditar que a prisão dos 3 estudantes fumando maconha na outra semana foi um ato deliberado feito com o objetivo de criar revolta nos estudantes e atrair a atenção da midia, garantindo a manipulação da opinião publica.

A PM tem circulado pela USP faz semanas, e a despeito do consumo de maconha la dentro realmente ocorrer com certa liberdade, nunca ninguém foi preso. De repente, uma semana antes de anunciarem a criação dessa unidade dentro do Campus, a policia resolveu prender alguém. Coincidência ?

Acho que não … E infelizmente os estudantes morderam a isca…

MATERIAIS COMPLEMENTARES INTERESSANTES:

Paulo Moreira: Uma verdade sobre a USP

http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/?p=3314&cp=all#comments

Eugenio Bucci : Entre o capuz e o capacete

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,usp–entre-o-capuz–e-o-capacete-,799415,0.htm

Carta Maior: Relatos dos alunos sobre a violencia policial na invasão

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19076

Carta Capital: Do massacre do Carandiru ao comando da Rota

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/do-massacre-no-carandiru-ao-comando-da-rota/

Luiz Carlos Azenha: Violencia da PM Paulista, seu proprio brasão explica

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/violencia-da-pm-paulista-seu-proprio-brasao-explica.html

Estado: Cresce numero de mortos envolvendo a Rota

http://blogs.estadao.com.br/jt-seguranca/cresce-numero-de-mortes-envolvendo-a-rota/