OCCUPY WORLD: O fim da história

Dica: Leiam esse brilhante texto do Jerome E. Roos, a mais bela sintese do que está acontecendo agora, a mais clara evidencia de que estamos assistindo de camarote o final de uma era..

O ano de 2011 marca o fim do Fim da História

Publicado em 10/24/2011 por ocupawallstreetbr

 

 
Por Jérome E. Roos – 23 de outubro de 2011 / Traduzido por Mauricio Lopes Caldas

Fonte: http://roarmag.org/2011/10/the-year-2011-marks-the-end-of-the-end-of-history/

Quando o sistema força pessoas comuns a se tornarem revolucionárias, você sabe que você não está mais no Fim da História. Você está bem na sua beirada.

As Revoluções Tunisiana e Egípcia. A primavera árabe. O iminente calote grego. A cada vez mais provável quebra da zona do euro. A segunda onda da crise financeira global. O retorno vingativo da crítica sistêmica ao capitalismo. O ressoante chamado no mundo todo por democracia real. As manifestações dramáticas contra austeridade, desigualdade e neoliberalismo na Espanha, Grécia, Chile e Israel. As revoltas em Atenas, Londres e Roma. A ocupação de Wall Street e a difusão do movimento pelos EUA. Os protestos massivos de milhões de pessoas em 1000 cidades e em 80 países no dia 15 de 0utubro. Até a morte de Muammar Gaddafi.

Tudo isso aponta para a direção de uma simples mas inequívoca verdade: 2011 marca o Fim do Fim da História. Além do horizonte monótono da democracia liberal e do capitalismo global, os eventos deste ano não só abriram todo um novo capítulo no desenrolar da saga da humanidade, como colocaram os alicerces para um desfile sem fim dos capítulos a seguir. O que está sendo destruído não é tanto o sistema capitalista democrático como tal, mas a crença utópica que o sistema é o único modo de organizar a vida social na busca eterna por liberdade, igualdade e felicidade.

Há quase 20 anos atrás, seguindo o colapso total da União Soviética e o descrédito final do estado comunista, o cientista político americano Francis Fukuyama conjecturou que “nós podemos estar presenciando… não só o fim da Guerra Fria, ou o passar de um período particular de história de pós-guerra, mas o fim da história como tal: quer dizer, o ponto final da evolução ideológica da raça humana e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governança humana.” Duas décadas depois da publicação de O Fim da História e o Último homem, a tese de Fukuyama demonstra estar mais abalada do que nunca.

Isso para não repetir o clichê esquerdista de que o neoliberalismo está morto – como Slavoj  Žižek assinalou, a ideologia já teve duas mortes, primeiro como tragédia, seguindo os ataques terroristas de 11/09, e depois como farsa, seguindo o colapso financeiro global de 2008 – mas para assinalar que o neoliberalismo como tal finalmente revelou o que sempre foi: uma ideologia zumbi mascarada com face de humanidade, assim como o famoso polvo vampiro de Matt Taibbi’s, “incansavelmente enfiando seu funil sanguinário em qualquer coisa que cheire parecido com dinheiro.”

O Imperador Neoliberal Está Nú

Enquanto os anos de 2001 e 2008 marcaram, respectivamente, as mortes política e econômica do neoliberalismo, 2011 marca o Fim do Fim da História. Porque só agora está ficando claro para as pessoas do mundo que, pelos últimos vinte anos, no estivemos vivendo simplesmente uma mentira. De fato, o implícito consenso popular que no passado legitimou o capitalismo democrático agora parece estar se desfazendo de maneira mais rápida do que o esquema Ponzi que sustentou a ilusão de sua superioridade moral. Depois de vinte anos de estagnação dos salários, acelerado crescimento da desigualdade, desemprego juvenil excessivo e difundida alienação social, o estouro da bolha de crédito global finalmente desvelou a nua essência do sistema.

O capitalismo de mercado livre democrático não é o que nos foi dito que era: como os anos recentes amplamente demonstraram, ele não é nem livre nem democrático. Guerras foram travadas em nome do Big Oil (grandes empresas petrolíferas) apesar da gritante oposição popular. Cortes de impostos foram feitos em favor do Grande Capital apesar do gritante déficit de orçamento. E agora, bancos em falência estão sendo resgatados e cortes draconianos no orçamento impostos em nome do Grande Capital Financeiro, apesar tanto da gritante oposição popular quanto da evidência incontestável que isso só faz piorar o déficit. O sistema deixou de fazer sentido. Suas contradições internas o estão corroendo por dentro.

Portanto, hoje, toda uma geração de pessoas jovens, desprovidas de esperança e oportunidade, está se levantando para constestar a noção absurda que esse estado de coisas desastroso constitui de alguma maneira o ápice da “evolução ideológica da raça humana.” É isto realmente o melhor que podemos fazer?  É essa a ordem mundial utópica que Fukuyama previu quando anunciou a vitória eterna da democracia liberal e do capitalismo global sobre seus inimigos invisíveis? Com bancos falindo, países quebrando e dívidas privadas galopantes, o mundo ideal de Fukuyama certamente começou a parecer muito mais fraco agora que a farra de gastos abastecida por crédito que o sustentava caiu de cabeça em direção ao seu fim inevitável.

A magia acabou. O feitiço foi quebrado. E o que as pessoas do mundo estão tentando deixar claro para aqueles no poder é que nós sabemos. Nós sabemos que o s sistema está podre por dentro. Nós sabemos que o seu suposto sucesso não consegue passar por escrutínio. Nós sabemos que as suas grandes conquistas – do mercado global de capitais à moeda única européia – foram construídas em areia movediça financeira e institucional.  E nós sabemos que a coisa toda está pra desabar como um castelo de cartas. Desde a Praça Tahrir a Times Square, de Madrid a Madison, de Santiago a Syntagma, nós sabemos que o imperador neoliberal está nu.

Gaddafi e Fukuyama: do lado errado da história

Um dos retratos mais ilustrativos do Fim do Fim da História é a morte sangrenta de Muammar Gaddafi. Enquanto céticos estão totalmente certos ao se revoltarem contra a campanha imperial da Otan na Líbia, muitos na esquerda ainda falham ao não ver o enorme simbolismo por trás da queda do Irmão Líder. Gaddafi, de alguma maneira, foi a última corporificação do Fim da História. Tendo chegado ao poder como um revolucionário socialista pan-arábico no final dos anos 60, ele terminou como um dos mais bem-sucedidos capitalistas. Enquanto ele continuou sua retórica de lamentar os maus do imperialismo ocidental, ele pareceu mais do que disposto à oferecer os espólios de seu país às mesmas forças neo-coloniais que ele tão avidamente ridicularizava.

De acordo com um relatório de 2008 publicado pelo Financial Times, Gaddafi “exaltava as virtudes das reformas capitalistas”. Tratando a Líbia como seu negócio familiar, ele agradava às Grandes Empresas Petrolíferas, distribuindo contratos lucrativos para corporações ocidentais como Eni e Shell. Depois disso ele permitiu que os lucros se acumulassem em seu fundo privado “soberano” enquanto empregava Wall Street para reciclar este capital excedente para obter lucros adicionais. No processo, enquanto o povo da Líbia permanecia seriamente prejudicado por seu subdesenvolvimento crônico, Gaddafi desviava $168 bilhões das riquezas da nação para o exterior. Não é de se surpreender que o Ocidente rapidamente ficou tão feliz de ser seu amigo.

Ainda assim, o que é mais revelador sobre a conversão repentina de Gaddafi de liberador socialista para opressor capitalista, não são seus fortes laços com o stablishment neoliberal do ocidente. O que é mais revelador é sua conexão pessoal com Francis Fukuyama. Nos anos de 2006 e 2008, Fukuyama fez parte de um grupo seleto de intelectuais que figuravam entre líderes mundiais contratados – e generosamente pagos – pelo Monitor Group, uma firma de Relações Públicas americana aconselhada por ex-diretores da CIA e da MI6 (inteligência britânica), para ajudar a limpar a imagem de Gaddafi no ocidente como parte de uma ofensiva charmosa concebida para ajudar a legitimar a incursão líbia no Fim da História. De acordo com documentos secretos vazados por ex-oficiais líbios, “Fukuyama fez duas visitas à Líbia (14-17 de agosto de 2006 e 12-14 de janeiro de 2007).”

Ele proferiu uma palestra no Greek Book Centre em Tripoli e lecionou uma aula sobre a Líbia na Johns Hopkins University (Maryland, Baltimore). Ele também proferiu uma palestra, entitulada “Minhas Conversas com o Líder”, que marcou “a primeira vez que O Livro Verde foi exigido como leitura aos estudantes em uma das escolas de política mais influentes no mundo.” Aparentemente, não somente nós, mas o próprio Fukuyama acreditava que Gaddafi era a corporificação do Fim da História. Sua queda, portanto, mesmo que nunca tivesse sido bem sucedida sem a ajuda militar imperialista do ocidente, refuta totalmente a tese de Fukuyama. Até porque, se realmente chegamos no Fim da História, como pode o autor dessa tese  acabar ele próprio descaradamente no lado errado da História?

O colapso da zona do Euro como o Fim do Fim

No entanto Gaddafi não foi o único “erro” histórico de Fukuyama. Em reposta a alegações que o Fim da História era um argumento puramente Americocentrico, em 2007 Fukuyama escreveu um artigo para o Guardian reinvindicando  retroactivamente que “O Fim da História nunca foi ligado a um modelo americano específico de organização social ou política… eu creio que a União Européia reflete de maneira mais precisa do que os Estados Unidos contemporâneo como o mundo irá se parecer no fim da história.” Ao julgar-se a partir do destino da União Européia, revela-se que Fukuyama, ironicamente, acabou por estar certo da maneira errada.

Como escreveu o New York Times outro dia, “o euro era um projeto político que visava unir a Europa depois do colapso soviético em uma esfera de prosperidade coletiva que levaria a um federalismo maior. Ao contrário, o euro parece estar dividindo a Europa… há uma tensão no sistema político e dúvidas sobre as instituições democráticas que nós não havíamos presenciado desde a queda da União Soviética.” A profunda integração européia, totalmente em linha com a filosofia do Fim da História, produziu uma situação tão assolada pela crise que o futuro da economia mundial agora depende do destino de um só membro da comunidade européia – um que responde a somente 2% do PIB total da União: Grécia.

Mas a Grécia é somente o canário na mina de carvão. É um sintoma, não a causa, da crise européia. Quando a Grécia der o calote, será apenas uma questão de tempo para que os investidores percam confiança na Itália e na Espanha. Ambos considerados grandes demais para quebrarem – mas também grandes demais para serem resgatados. O fundo de resgate europeu não é grande o suficiente para salvá-los, e Alemanha e França estão presas num entrave de como aumentá-lo. Ao mesmo tempo, o sistema bancário europeu  insolvente está na iminência de um colapso. Um calote grego irá empurrar inúmeros bancos para a falência, forçando os governos centrais a distribuir mais uma vez resgates financeiros. Isto, por sua vez, irá agravar ainda mais o endividamento soberano e por conseqüência suas notas de crédito serão rebaixadas, trazendo a crise de débito “grega”para o coração do capitalismo europeu.

A conclusão, em outras palavras, é que não há escapatória fácil dessa crise – nem mesmo os tão invocados eurobonds, como recentemente Martin Wolf assinalou para o Financial Times. O euro, aquele grande projeto da elite que deveria ser o pináculo da integração européia, está vacilante. Em meio ao processo, as instituições tecnocráticas pós-ideológicas européias perderam suas últimas sombras de legitimidade que tinham. O edifício está caindo, e falando francamente, nossos líderes não tem nem idéia do que fazer. A crise da Europa, ao final, é a crise mundial. E está longe de ser uma crise meramente econômica: e bem lá no fundo, nós estamos enfrentando aquilo que Joseph Stiglitz chamou de crise ideológica do capitalismo. Isto está obviamente muito longe do “ponto final da evolução ideológica da raça humana.”

A crise do capitalismo e o retorno do reprimido

Não é surpresa, portanto, que 2011 tem visto a volta – como uma vingança – da crítica sistêmica do capitalismo. Nas últimas semanas, importantes publicações que suportam o livre-mercado como o Wall Street Journal, o Financial Times, Business Insider e Fortune admitiram que Karl Marx poderia estar certo sobre a tendência auto-destrutiva do capitalismo. O motivo para esse repentino ressurgimento da crítica político-economica Marxiana é dupla: primeiro, as elites começam a compreender que nós estamos prestes a entrar em uma outra Grande Depressão. E, segundo, a repressão sistemática da imaginação radical que o mundo pós-ideológico de Fukuyama ocasionou.

A esse respeito, uma linha direta pode ser traçada desde o slogan arrebatador de Margareth Tatcher, “não há alternativa”, até a política neoliberal em resposta a crise fincanceira. Enquanto banqueiros vêm acumulando remunerações recordes, ao resto da população é dito simplesmente que não há alternativa às medidas de austeridade draconianas. A narrativa ideológica é a mesma por todos os lugares: “nós estamos todos juntos nessa, todos nós precisamos apertar nossos cintos, mas a mensagem implícita é na verdade: “não ousem imaginar uma alternativa.” Ainda assim, como Matt Taibbi recentemente pontuou, um pequeno imposto de 0.1% em todas trocas de títulos e ações e um imposto de 0.01% em todas trocas derivativas poderiam pagar todos os resgates americanos, tornando muito do “necessário” aperto de cinto desnecessário. Esta é uma alternativa confiável bem aqui na nossa frente. Por que não está sendo discutida?

De volta ao ano de 2009, Fukuyama publicou um artigo na Newsweek com o título triunfante “A história continua terminada”, na qual ele afirma que, apesar do fato de “a crise ter começado em Wall Street – o coração do capitalismo global – … a legitimidade do sistema global pode ter sido arranhada, mas ainda não caiu.” Dois anos depois assistimos às ruas de Londres, Roma e Atenas pegando fogo, a ocupação pacífica de Wall Street, Puerta Del Sol, Syntagma, e centenas de outras praças ao redor do mundo; um dia de ação global sem precedentes em 15 de outubro, com protestos em quase 1000 cidades em mais de 80 países. Testemunhamos à raiva. A frustração. A indignação. Está aqui. A legitimidade está caindo. Fukuyama, parece, estava comemorando um pouco cedo demais.

No sentido freudiano, nós estamos presenciando o retorno do reprimido. Se você diz às pessoas durante duas décadas que não há alternativa ao mundo no qual elas vivem, e, ao mesmo tempo, tira suas rendas, seus direitos, seus serviços públicos, e toda dignidade que ainda lhes resta, você pode esperar que essa repressão psicológica do potencial revolucionário vai voltar de alguma forma cedo ou tarde. Se você reprime a coerente ideologia emancipatória das massas, assim como o Fim da História pretendeu fazer, você literalmente acaba tendo a incoerente e apolítica rebelião de Londres. Sobre isso, a coisa mais importante que as revoluções Tunisiana e Egípcia poderiam ter feito é relembrar a humanidade que na verdade há sim uma alternativa ao status quo – que realmente existe um “fora” do desmedido capitalismo global.

O levante dos indignados e a crise da democracia

As revoluções árabes encorajaram a juventude alienada da Europa e da América a começar a sonhar de novo, a reinvindicar sua imaginação radical em face de uma das maiores crises de legitimidade na história da democracia liberal. A medida que uma consciência crítica faz seu caminho de volta ao discurso mainstream, a hegemonia cultural do neoliberalismo se encontra novamente sob ameaça. Os primeiros sinais desta consciência crítica emergente começou a aparecer em Madrid em 15 de maio. Alguns dias mais tarde, a BBC noticiou que uma mobilização de estilo egípcio estava crescendo na Espanha. Após algumas semanas, centenas de milhares de pessoas de todos os tipos se reuniram ao redor do país enquanto o movimento dos indignados se espalhava pela Europa.

Em 17 de setembro, o movimento espanhol 15-M culminou em um dia global de ação contra os bancos e a ocupação de Wall Street, convocada pela revista anti-consumista canadense Adbusters. As manifestações de Wall Street subseqüentemente ajudaram a catalisar o próximo dia global de ação, convocados pelos manifestantes espanhóis para 15 de outubro. Sob o mesmo banner “unidos por uma mudança global”, a resistência mundial chegou a proporções sem precedentes, com protestos simultâneos acontecendo em 1000 cidades em mais de 80 países. Com sua declaração inocente que “ a legitimidade do sistema global não caiu,” Fukuyama mais uma vez se encontra no lado errado da história.

Afinal, se a democracia liberal é realmente o ápice da evolução ideológica da humanidade, como pôde acontecer que milhões de pessoas estão tomando as ruas do mundo todo exigindo algo diferente? Se a democracia representativa é o ápice, por que esses jovens estão cantando “não nos representam!”, e então por que eles gritam por uma democracia real no seu lugar? Como os movimentos de massa em Israel e no Chile demonstraram, o fenômeno não pode ser reduzido somente a crise, porque mesmo economias crescentes não conseguiram evitar que a onda de indignação inundasse as ruas de suas cidades. Na verdade, o problema vai muito mais além. Como os indignados gostam de cantar, “não é a crise, é o sistema.”

Zygmunt Bauman pôs o dedo no x da questão: enquanto a política permanceu nacional, o poder não desapareceu com os fluxos globais. Mudanças tecnológicas e reformas neoliberais conspiraram para criar uma situação na qual governos democraticamente eleitos não mais têm o poder de transformar suas promessas em políticas. Acabamos numa situação na qual votar não é mais escolher as políticas que nossos governos devem colocar em prática, mas sim sobre quem deve colocar em prática as políticas exigidas pelo setor financeiro. Chamar isso de democracia é absurdo. O levante dos indignados não é mais que a compreensão coletiva de que a democracia representativa liberal, sob condições de profunda integração econômica, não é nada liberal ou representativa. O Fim da História, ao contrário de uma democracia consolidada como a última forma de governança humana, foi totalmente solapado.

A beirada da história e o retorno da politica constestadora

O Fim do Fim da História não é o mesmo que o fim do neoliberalismo. Como já vimos antes, ideologias zumbis têm o seu modo de permanecer além de sua data de validade. Enquanto houver capitalistas (ou candidatos a capitalistas), sempre haverá uma forma ou outra de filosofia capitalista. O Fim do Fim da História não é tanto sobre a erradicação da visão de mundo individualista do capitalismo, que é impossível sem recorrermos ao tipo de tática de estado repressivo que nós estamos tentando superar, mas sobre a volta da política contestadora como característica definidora da vida social. Em outras palavras, o Fim do Fim da História não é tanto sobre superação da luta política mas a descoberta de que, por definição, nós nunca podemos superar a luta política. Enquanto houver injustiça, haverá luta – e partir do fato que sempre haverá injustiça, sempre haverá luta.

O fim da história, portanto, não é nem possível nem desejável. O anseio por um estágio final de desenvolvimento institucional e ideológico é, ou puramente totalitário, ou puramente utópico. Enquanto certos anseios utópicos podem nos inspirar a nos elevarmos às mais altas esferas enquanto espécie, nós sempre teremos que nos lembrar que nenhuma ordem social é dada para sempre. Nossa Utopia deve sempre ser o desejo do espírito que nos põe em ação, mas nós temos que admitir o fato de que ela nunca pode se tornar uma realidade. A história simplesmente nunca acaba. Como o escolar neo-Gramsciano Stephen Gill colocou, “a história está sempre no fazer, num jogo dialético entre agente, estrutura, consciência e ação.” Ou, como o Subcomandante Marcos expressou de maneira mais poética, a luta é como um círculo: você pode começar em qualquer lugar, mas ela nunca pára.”

Em um excelente editorial do Guardian outro dia, Jonathan Jones observando uma foto de Ocuppy Wall Street fez a seguinte observação arrebatadora:

“Esta é uma fotografia de um ponto de virada na história, não porque o movimento Occupy necessariamente obterá sucesso (qualquer sucesso que possa ser) mas porque ela revela a profundidade de novas possibilidades de debate em um momento que tão recentemente pareceu concordar sobre fundamentos econômicos. Occupy Wall Street e o movimento global que ele inspira pode ainda se provar como um efetivo chamado à mudança, ou pode ser apenas fogo de palha. Não é esta a questão. E também pouco importa se o protesto está certo ou errado. O que importa é que o capitalismo desmedido, uma força que por seu dinamismo econômico parecia inquestionável, acima de reprovações ou reformas, um monstro que nos acostumamos a ser gratos por existir, repentinamente encontra toda sua feiúra amplamente comentada, exposta em meio às luzes de Times Square. O imperador da economia está nú.”

“Este é um momento inacreditável”, ele continua. “Se belisque”. O ano de 2011, com todas suas crises e revoluções, marca o que Slavoj Žižek em sua fala no Zuccotti Park, chama de “o acordar de um sonho que está se tornando um pesadelo.” Marca o retorno da política contestadora. E, com isso, marca o Fim do Fim da História. Não que a história tenha parado por algum instante sequer – nós apenas ficamos confusos por um tempo por conta do colapso do arqui-rival do capitalismo, e pensamos que a história havia parado. Mas o fato é que a história que continua a se fazer está sendo capturada nas notícias de jornal, nas fotografias poderosas, e nas palavras de um uma simples senhora de classe-média grega durante a greve de 48 horas de outubro: “Eu nunca fui de esquerda,” ela disse, “mas eles nos forçaram a tornarmos extremistas.” Quando o sistema força pessoas comuns a se tornarem revolucionárias, você sabe que não está mais no Fim da História. Você está bem na sua beirada.


5 Comentários on “OCCUPY WORLD: O fim da história”

  1. Anônimo disse:

    muito bom , um pouco longo demais, as com paciencia e concentração vale muito como texto.

    • igorius2011 disse:

      Cara, esse é o maior mal da nossa geração. Falta de paciencia. As pessoas nao conseguem mais sentar e ler um texto, quanto mais um livro ou algo mais complexo. Mas sem informação nós nao passamos de marionetes.

      O primeiro passo pra qq coisa que formos construir é a galera se informar. Valeu por ler !! Volta sempre que vou atualizar toda segunda por aqui !!!!

  2. afinal a falha e do sistema financeiro ou do sistema politico? os partidos politicqueiros se venderam aos intereces do captal especulativo, os partidos legitimaram quem tira suas rendas, os partidos fiseram Leis para protejer quem tira seus direitos, os partidos sao cooperativas de cargos no seus serviços públicos, os partido se vendem para quem tira toda dignidade que ainda lhes resta,
    a crise chegou a este ponto por incompetencia dos nossos representante, eles obedecem os donos dos partidos, e os donos dos partidos sao raposas disendo que vao reformar o galinheiro. falta um unico partido que seja diferente.
    1- Um partido sem donos. WebDemocracia.
    2- um partido que de a promessa de campanha a mesma importacai que tem o voto. votonocontrato com clausulas recisorias.
    3- nao importa a ideologia tudo vira bosta “Rita Lee” eu espero e honra (vergonha na cara) de quem se diz meu representate.

    • igorius2011 disse:

      Cara, acho que o problema é tanto do corrupto quanto do corruptor. Já virou de praxe crucificar politico corrupto, e acho otimo. Temos que fechar o cerco, ampliar a pratica. Mas nada vai mudar se todo o sistema ainda for favorável à corrupção.

      Essa é a democracia representativa. Ela é uma boa idéia, a priori, mas nao tem como permanecer pura nesse mundo regido pelo capital. O detentor do capital sempre vai deter para si o poder sobre os politicos…

      Concordo contigo sobre o voto no contrato, e digo mais, devemos dar ao povo o poder de se colocar acima do legislativo ou mesmo executivo quando necessário, desde que encontre as formas de se organizar para isso. Democracia participativa.

      Como eu coloquei no meu texto “Por que o socialismo nao é a resposta” mais atrás, o ser humano é corruptivel. Mas é mais dificil corromper uma LEGIÃO.

      Um grande abraço ! Continue visitando, atualizarei toda segunda a noite

  3. Anônimo disse:

    E depois se vê a veja falando que estamos lutando contra a corrupção….


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