Espaços de Diálogo

Tribunal da Inquisição. Festa de fim de ano no escritório. Almoço de domingo na casa da avó. O que essas 3 coisas possuem em comum ?

Muito pouco além de um freio de mão imaginário puxado dentro da sua língua. “Cuidado com o que você vai dizer” – diz o grilo falante dentro da sua cachola – “… essa sua opinião super descolada sobre o casamento gay pode não pegar muito bem, você vai acabar queimando seu filme…”.

Não vivemos exatamente no pior momento histórico para se falar o que pensa, é verdade. Se compararmos o mundo de hoje com uns séculos atrás (universalmente falando, uns minutinhos…), quando questionar a palavra de um padre podia transformar você em torresmo, até que estamos numa boa.

Mas vamos lá…

Segundo o Segundo Levantamento Domiciliar sobre drogas psicotrópicas realizado em 2005 pela Unifesp, cerca de 8.8% da população brasileira fuma ou já fumou maconha*. Uma imensa demanda não encontra atendimento senão no crime organizado, que ganha rios de dinheiro sem pagar um centavo de imposto. A guerra contra o tráfico ganha tons de guerra civil, o uso de drogas entre a população brasileira não cai nem 1% por causa disso, e ainda assim fingimos que legalizar não é uma alternativa e taxamos de maconheiro qualquer um que levante uma bandeira sobre o assunto.

Quase 200 mulheres morrem todo ano no Brasil devido a abortos feitos em condições precárias. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), divulgada em maio de 2010 pela Universidade de Brasília e pelo instituto de pesquisas Anis, uma em cada sete brasileiras entre 18 e 39 anos já realizou pelo menos um aborto na vida. A despeito desses números chatos que ninguém tem paciência pra ler, aceitar discutir uma possível legalização é coisa de carniceiro matador de criancinhas (a Dilma nas ultimas eleições que o diga).

Não acreditar em Deus e falar isso abertamente ainda é considerado por muitos ofensa e desrespeito. Todo mundo sabe que ateu com o mínimo de educação tem mais é que ficar quieto, guardar para si próprio suas (des)crenças pessoais e ouvir caladinho a tia beata dissertar por horas sobre seu versículo favorito e sobre como você vai arder no fogo infernal por ter cochilado na ultima missa…

Não prossigamos mais. Eu nem sequer tenho uma opinião final sobre a maioria desses assuntos (sobre alguns tenho mesmo, mas não é o caso aqui), mas se eu continuar enumerando assim os tabus de nossa geração detalhadamente esse texto vai ficar quilométrico. Deixemos esse espaço livre de polemica por enquanto, temos o bastante reservada para os textos futuros ….

O ponto é que um dia nossa sociedade olhará para essas proibições e tabus com o mesmo asco com que olha hoje para o apartheid, para as burcas das mulheres afegãs ou para a agressão doméstica. Um dia. Hoje, estamos simplesmente presos demais às amarras invisíveis do nosso tempo para sermos capazes de ver nossa própria burrice.

Mas nem tudo está perdido. Lembre-se que ha poucas décadas falar em direitos iguais entre brancos e negros (ou homens e mulheres) por aí era razão o bastante para alguém te dar um tiro. Sorte que muita gente aceitou o risco não é? Mas o que teria acontecido se todo mundo tivesse preferido “deixar pra lá”?

Penso até mais longe. O que teria acontecido se as conversas ao redor de fogueiras de nossos tetra-tetra-tetra avós tivessem abordado apenas amenidades? Se eles tivessem preferido falar sobre o tempo do que questionar por que era errado enfiar uma lança no próximo para roubar a mulher dele ? Não teríamos ido muito longe não é ?

Existe um terrível inimigo a se combater. Ele se chama “politicamente correto”. Ele é fruto de uma falácia de raciocínio de uma maioria (historicamente) covarde, que assume que se ignorarmos bastante um problema, talvez ele deixe de existir. É decorrente da noção vergonhosa de que certos assuntos não devem ser discutidos, e certas verdades estabelecidas pelas gerações anteriores não devem ser questionadas.

Esse nosso inimigo é antigo. Ele acompanha a humanidade desde seu início, sob a mascara de padre, ou de homem virtuoso, ou de senhora respeitável. Ele rasteja pelos séculos calando bocas, silenciando pensamentos, maquiando de fantasias a “feiúra orgânica” do que é ser verdadeiramente humano. E imperfeito.

Nietzsche combateu até a morte esse terrível monstro. Ele só ficou louco, até que se deu bem. Martin Luther King, Ghandi, John Lennon, Harvey Milk, Sócrates, Steve Biko, Suzana Chavez e mais tantos (conhecidos ou anônimos) morreram simplesmente por dizer o que precisava ser dito. Esse texto não está pedindo para ninguém virar mártir. Só está pedindo para que você fale.

Não se cale diante da injustiça no mundo, não deixe que nenhum assunto seja tabu. Não importa quão louca seja sua opinião sobre qualquer coisa, ela só vai começar a de fato existir no momento que você a tornar conhecida pelos outros.

E quer saber? Não escolha demais onde vai expor sua opinião. Claro, não vá sair por aí falado sobre o Lula num comício do PSDB, não vá reclamar da violencia policial dentro de uma delegacia. Bom senso é bom e saber a hora e o lugar de se colocar pode determinar a diferença entre arranjar alguma briga feia ou conseguir influenciar o mundo de forma positiva. Mas cuidado para não falar o que você tiver que falar apenas para platéias conhecidamente receptivas. Isso vai te prender em uma bolha.

Se você só falar sobre as atrocidades cometidas pelo estado para sua turminha de amigos anarquistas, e no jantar com sua família só conversar sobre a ultima série engraçada que estreou na Warner, você está condenado a se estagnar…e está condenando sua família a se estagnar também. Falar apenas para pessoas condicionadas a concordar com você e condicionadas também a responder o que você quer ouvir é cometer suicídio filosófico.

Diversifique os espaços de discussão. Provoque esses espaços. Descubra o que seu pai ou sua cunhada pensam do mundo. Talvez você pegue as pessoas meio desprevenidas de imediato, mas a longo prazo elas vão te ouvir …e melhor ainda …elas vão falar.

E esse é o ultimo ponto de todos, e para mim talvez o mais importante: A melhor coisa sobre debater qualquer tema é que muitas vezes as pessoas vão discordar de você. E as vezes elas vão estar certas. E de cada debate, cada discussão, seu pensamento vai amadurecer, e se aperfeiçoar… e o mesmo ocorrerá com a outra pessoa. E cada um vai levar esse aprendizado para uma discussão seguinte, e outra, e outra.

E assim a humanidade cresce, e se transforma. Assim caminhamos para o futuro. Então levante sua voz, para que possam ouvi-lo. Estique seu braço, para que possam tocá-lo.

Temos permanecido nas sombras por tempo demais e já basta. Abramos as nossas cortinas, pois não há motivo para se esconder.

Se não em todo o mundo de uma só vez, pelo menos em nossas casas: Que se faça a luz…

Obs 31/05 : Meu amigo Caio Japa colocou uma questao muito interessante aqui. Hoje em dia muitas pessoas recuam diante de um debate ou assunto polemico em nome das “boas relações humanas”, para não se “indispor” com ninguém. Na minha humilde opinião isso ocorreu pois as pessoas se desacostumaram a raciocinar coletivamente. “Debater” se tornou sinonimo de “brigar”, perdeu-se o habito do debate como exercício de retórica, como construção coletiva de idéias. Isso é mais um motivo para estimularmos a criação de espaços de diálogo, para reverter essa situação de ignorancia individualista… Afinal todos nascemos ignorantes, e assim permaneceremos se nao aprendermos uns com os outros.

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Tem alguém ai fora ?

Meu sono de ontem a noite foi embalado pela incrível noticia de que uma vez mais a ganância de poucos se sobrepôs ao conceito – puramente utópico nessa altura do campeonato – do bom senso em prol do bem estar geral. Qual foi a da vez ? O ridículo novo código florestal brasileiro, um retrocesso absurdo que soa quase como uma piada nesses dias em que a moda (ou sinal de mínima inteligência?) é pregar sobre o meio ambiente e sustentabilidade.

No café da manhã degustei outra notícia de sabor igualmente amargo: a do assassinado de dois agricultores que combatiam o desmatamento ilegal no Pará. No caminho até aqui, nesse dia ensolarado e ao mesmo tempo estranhamente cinzento, me peguei contemplando pelo reflexo na janela algumas lembranças desagradáveis.

Lembrei que Julian Assange continua em prisão domiciliar sob a mira da CIA e que grande parte do mundo o considera um terrorista. Lembrei que Israel continua massacrando milhares todos os dias na faixa de gaza e as pessoas ignoram isso em silêncio constrangido, pois é tabu falar contra Israel.

Lembrei que os EUA são uma nação criminosa, que mente e ataca indiscriminadamente países pelo mundo faz décadas e somos aculturados demais para ver isso.

Lembrei que boa parcela da população de meu país acha OK a policia espancar manifestantes na rua, desde que não concordem com a causa pela qual eles protestam (nessa semana foi a marcha da maconha, mas poderia ter sido a marcha de qualquer coisa).

Lembrei que matar dezenas de adolescentes em um campo de batalha, só por usarem uma bandeira de outra cor em seus uniformes militares, ainda é motivo para se ganhar medalhas. Senti um arrepio só de pensar que se meu país decidir declarar guerra contra alguém amanhã eu posso ir para a cadeia por ser pacifista, por me recusar a lutar.

Lembrei que no Brasil com R$ 400,00 e 5 dias úteis se pode abrir uma igreja – isento de impostos – e que não é crime mentir e pedir dinheiro para uma população sem esclarecimento desde que isso seja feito em nome de algum Deus. Lembrei que esse negócio da tão certo que metade dos canais abertos no Brasil foram comprados por pastores, que agora podem roubar em rede nacional.

Lembrei que ser homosexual, ou fumar maconha, ou não acreditar em Deus, ainda dá pena de morte em vários países do mundo – e que mesmo no Brasil, o país da diversidade, é melhor tomarmos cuidado quando formos falar sobre esses temas – sabe-se lá quem podemos irritar. Lembrei que somos o pais de todas as cores, mas se a maioria dos meus amigos aparecer em casa com uma namorada “escurinha”, vai acabar arranjando briga na família.

Lembrei que o excêntrico em nossa sociedade é NÃO QUERER ser rico, ter uma Ferrari, ser vice presidente de marketing de sei lá que corporação. Que o workaholic conformado, que turbinou a economia (a custa de muitos recursos naturais e dos melhores anos de sua vida, ambos irrecuperáveis) é quem ilustra a capa das Você S.A da vida, ganha premio de homem do ano, etc …

Lembrei que a socialite que gasta R$ 12.000 em compras no Cidade Jardins todo domingo sai na capa da Veja São Paulo, enquanto 2 bilhões de pessoas (um terço da humanidade) “sobrevive” abaixo da linha da miséria e boa parte disso passa fome.

Lembrei que vivemos competindo entre nós por migalhas em um sistema econômico descontrolado, que estamos consumindo nosso planeta e nossas vidas em nome de uma maquina que não pode mais parar de funcionar. Me dei conta que o ser humano saiu do centro de seu próprio universo faz décadas, e que países como a China despontam no comércio global tendo como diferencial competitivo justamente IGNORAR o ser humano e escravizar suas linhas de produção.

Lembrei que grande parte da humanidade prefere cagar e andar, ler revista de moda, assistir reality show, trocar o smartphone e o carro (e o que mais a nossa sociedade consumista tiver conseguido tornar descartável) todo ano. Que falar sobre assuntos incomodos é super “boring” e que legal mesmo é estar perto de gente animada, que não liga pra essas coisas e quer mais é curtir.

Lembrei que sou parte de uma raça subdesenvolvida que talvez nunca vá parir o tal “super homem” tão aguardado por Nietzsche. Um bando de macacos evoluídos que um dia sonharam em serem deuses. Me dei conta de que não sou diferente do resto de minha raça, que vejo o absurdo mas estou inserido demais nele para fazer o que deve ser feito.

Resolvi criar esse espaço para poupar meus amigos de minhas queixas entediantes sobre uma coisa ou outra. Talvez escrever de vez em nunca por aqui acabe com meus momentos de chato, quando alguma coisa polemica é lançada e eu resolvo discorrer inflamadamente a respeito.

Talvez então, em vez de incomodar a cerveja alheia, eu possa simplesmente dizer: “Leia no meu blog o que eu penso sobre isso” e pronto.

Pode ser que eu esqueça desse espaço daqui a uma semana, mas talvez ele seja justamente o que eu preciso para separar aqueles que preferem meus sorrisos daqueles que preferem meus maus-humores.

O mundo ainda é um lugar relativamente receptivo para o sorriso. Já para o mau humor, isso eu ainda preciso descobrir ….

 Tem alguém aí fora ?


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