NOTAS SOBRE CUBA

Esse texto esperou quase dois anos para ser escrito. Não foi falta de vontade, nem falta de tempo. O ponto é que normalmente costumo ter muita certeza de tudo o que eu escrevo, e é extremamente difícil ter certeza a respeito de qualquer coisa em Cuba. A realidade multifacetada e complexa dessa linda ilha no Caribe desafia as convicções de qualquer esquerdista (ou direitista) filosoficamente honesto que se aventurar por lá.

 Mais do que nunca, tenho certeza de que os principais abismos que nos separam dos outros cidadãos desse planeta não são formados por distâncias físicas, ou religiosas, mas sim por distâncias sociais. Temos mais em comum com um colega de classe (social) que vive do outro lado do mundo, do que com um irmão Cubano pobre aqui do lado do Brasil. E é com essa reflexão que eu inicio meu texto.

Estive em Cuba no começo de 2012. Gostaria de dizer que morei lá por alguns meses, que viajei na caçamba de velhos caminhões soviéticos, transportando cana pelo interior de Cuba enquanto conversava com camponeses ainda mais velhos e queimados de sol a respeito de Batista, Castro e a revolução. Certamente seria mais romântico, mas acontece que fui a Cuba como turista mesmo, esticando uma semaninha em Havana e depois visitando uma ou duas praias do Caribe, porque ninguém é de ferro. Só uma pessoa que já foi para Cuba entende como isso basta para torcer seu cérebro como se torce um pano de chão usado num tanque de lavar roupa.

Não há experiência frívola em Cuba. Mesmo se você tentar se internar em um resort All Included, descendo no aeroporto de Varadero e fugindo direto para ele na hora de ir embora (o que, acreditem, muita gente faz), não há como se esquivar da realidade brutal e absurda que se arremessa na nossa cara assim que pisamos naquela ilha verde e bonita: Não sabemos nada. Somos mimados. Bobinhos. O simples fato de termos dinheiro para chegar lá e curtir uns dias de férias já denuncia nossa completa ignorância da realidade do mundo, que em Cuba (diferente da maioria de nossos destinos turísticos habituais) não pode ser isolada em alguma periferia, ou escondida atrás de um muro. Bem que tentam.

Geralmente, quando viajamos, tentamos puxar assunto com os taxistas, com as pessoas que nos atendem nos restaurantes. Puxamos conversa, tentamos saber o que eles pensam do prefeito da cidade, sobre como é viver por lá, qual a ultima novidade. Em Cuba, são os locais que vêm falar conosco. O tempo todo. Em dois dias lá, ao menos que você tape os ouvidos e saia correndo cantarolando toda vez que um cubano te abordar, você já terá ouvido umas cinco histórias de vida diferentes, que te deixarão emocionado, bravo, invejoso, compadecido, tudo ao mesmo tempo. Ainda tenho cravado na minha memória o rosto de todos aqueles com quem eu falei ao longo de minha estadia, e tenho certeza de que todo mundo que visitou esse lugar tem os seus.

Claro que cada pessoa tem uma convicção política, um histórico de vida, e processará a experiência de uma forma distinta. Mas pelo que tenho notado, toda vez que converso com minha esposa ou alguma outra pessoa que voltou de lá, noto que existe um tipo de padrão na forma que reagimos a Cuba. Dividirei o restante do meu texto em três tópicos, “Choque”, “Reflexão” e “Conclusão”. O ultimo tópico foi nomeado de forma reconhecidamente falaciosa: aviso desde já que não há conclusão definitiva sobre esse assunto tão complicado.

1.    O CHOQUE

Cuba é uma ditadura. Não há como negar isso, e qualquer pessoa que disser o contrário, nunca foi pra lá.

O cubano não pode falar com o turista por muito tempo, ao menos que seu trabalho exija isso. Se uma conversa durar demais, logo o cidadão é abordado por uma autoridade policial, que manda ele “dispersar”. Conversas corriqueiras na rua então, nem pensar. Conhecemos um casal de cubanos em “Paseo del Prado” e conversando com eles, nos sentimos como se estivéssemos comprando drogas ou algo do tipo.

O cubano não pode usar internet, ao menos que seu trabalho exija isso. Cubanos que possuem amigos ou família fora, geralmente usam colegas que trabalham com internet para manter contato. Conhecemos um cubano, que trabalhava na “Heladeria Copélia”, a famosa sorveteria de “Vedado”, que mandava recados para a namorada americana por meio de um amigo que trabalhava com comércio exterior.

O cubano não pode vender seu carro ou casa. Ou mesmo trocar com outra pessoa. Cada bem é fruto de uma distribuição feita pelo estado ainda na época da revolução. Hoje isso começou a ser flexibilizado por Raul Castro, com severas restrições.

O cubano não pode viajar. O governo de Raul está começando a flexibilizar essa regra também, mas na prática ainda não existe turista cubano indo pra fora. Mesmo dentro da própria ilha, existem praias e regiões restritas para o cidadão, onde só podem ir turistas.

Varadero. Exclusiva para turistas.

Um cubano que perca o emprego, não pode simplesmente pleitear um novo emprego em outro lugar. Ele precisa entrar em uma fila. Conhecemos um taxista em nossa viagem através de “Matanzas”, que era chefe de cozinha e perdeu o emprego quando o restaurante onde ele trabalhava fechou. Foi designado pelo governo para atuar como taxista enquanto aguarda em uma fila, para voltar a exercer sua vocação quando chegar a vez dele. A previsão é de cinco anos ou mais.

Cuba é incrivelmente pobre.

O crescimento do turismo nos últimos dez anos criou uma situação ridiculamente chocante e absurda, que será certamente uma das primeiras coisas a ser notadas por turistas que se aventurarem por lá: Duas moedas. Dois pesos e duas medidas. O peso turístico está em paridade com o dólar, enquanto o peso cubano (acessível apenas ao cidadão ou no mercado negro) é muito menos valioso. O que é uma medida até interessante para manter mais dinheiro dentro do país, acaba tendo conseqüências bizarras, já que uma coca cola e um sanduíche em qualquer barzinho de Cuba, comprado por um turista, pagaria mais de um mês de salário de qualquer trabalhador cubano. O turista se torna automaticamente um milionário, uma árvore de dinheiro. Como conter a prostituição nesse país, sendo que duas noites que uma menina cubana passe com um turista paga um ano inteiro de salário dela? Como reverter a realidade bizarra em que uma faxineira de banheiro de bar, que ganha algumas moedas por noite de turistas embriagados, fecha o mês ganhando mais dinheiro do que um médico ou engenheiro?

Havana é linda e fotogênica. Mas está caindo aos pedaços. Mesmo. Vários prédios estão bloqueados por “Perigo de Derrumbe” e vários deveriam estar. Os prédios decadentes de Havana saem lindos nas fotos, mas certamente não são bons lugares para se viver.

As pessoas não passam fome, mas comem muito pouco. Os cupons-alimentação que recebem do governo não são o bastante, dependendo do tamanho da família, e não é raro ser abordado por um cidadão no meio da rua, pedindo uma caixa de leite. Saímos para jantar com aquele casal que conhecemos em “Paseo del Prado” (claro que pagamos a conta), e vimos com os próprios olhos eles apenas beliscarem a comida, guardando mais da metade para levar para os filhos em casa.

Nunca me esquecerei da noite em que eu e minha esposa conhecemos o porteiro do prédio onde estávamos hospedados (uma amável casa de família, algo bem comum por lá). Fascinado pelo Brasil, nosso novo amigo era fluente em português e outras duas línguas (algo bem comum por lá). O padrinho de seu filho era Brasileiro e o sonho dele era visitar nosso país, mas ele deixou claro, com todas as letras, que jamais iria realizar o sonho do filho. Estavam presos na ilha. Quando nos despedimos dele e entramos no elevador, olhamos um nos olhos do outro e choramos. Choramos por uns 15 minutos.

Viajar para Cuba, se você mantiver seus olhos abertos e não for um completo idiota, é pesado. E naquele momento, acho que o peso de tudo o que recebemos ao longo dos últimos dias bateu mais forte do que nunca.

2.    A REFLEXÃO

No que concerne quase tudo na vida, o primeiro contato com uma realidade nova muitas vezes não acompanha uma subseqüente reflexão. A velocidade com que as coisas acontecem geralmente faz com que nos agarremos à primeira impressão, e possamos virar a página para o próximo assunto. A primeira impressão é a que fica não é?

Não quando o assunto é Cuba.

Não podemos deixar isso acontecer nesse caso, simplesmente porque a reflexão que essa pequena ilha caribenha nos instiga, é uma reflexão muito maior, que atinge diversos aspectos de nossa sociedade e da própria raça humana. Acha que estou exagerando?

Ao menos que você tenha descoberto algum pacote secreto da CVC para a Coréia do Norte, ou então uma máquina do tempo que te leve de volta para a Russia Stalinista, visitar Cuba pode ser sua ultima chance de conhecer um lugar no mundo que não foi contaminado, ou convertido – para usar uma palavra mais leve – por uma forma ou outra de corporativismo. Que ninguém venha falar da China, com seu totalitarismo de estado ultra-capitalista (que talvez reúna o pior dos dois mundos).

Tentar enxergar além do óbvio (os cubanos tem pouca liberdade e vivem em um estado de pobreza) é mais do que desenvolver uma opinião inusitada sobre um destino exótico para as próximas férias. É iniciar uma reflexão essencial sobre o que deveríamos manter em nossa sociedade atual, e o que deveríamos destruir. Basicamente: o que podemos aprender com uma sociedade que se organizou de uma forma completamente diferente da nossa?

Quem lê apenas a primeira parte do meu texto e depois desiste (porque ele é muito longo, eu sei…eu sei…) certamente fica achando que, além de ser um inferno, Cuba é um péssimo destino turístico, já que deixa seus visitantes chocados e deprimidos com uma realidade cruel e esmagadora. Nada poderia ser mais distante da verdade.

Cuba é um lugar lindo, abençoado com uma beleza além da conta, e a despeito de todas as dificuldades que tem que enfrentar no dia a dia, poucas vezes vi um povo tão feliz quanto o cubano.

Apesar de ganhar pouco, todo cubano tem trabalho, que, aliás, executa apenas algumas vezes por semana, tendo mensalmente tantos dias de folga quanto dias úteis (o que torna a idéia de ‘fim de semana’ comicamente abstrata para muita gente com quem conversei, e descansa dia sim, dia não).

Apesar de comer pouco, todo cubano come. Apesar de morar mal, todo cubano tem casa.

Todo cubano fala pelo menos duas línguas, a maioria fala três. Todo cubano tem acesso à medicina de qualidade, e remédios gratuitos.

As cinco em ponto, todos os dias, o “Malecón” de Havana se enche de cubanos jogando conversa fora e dando risada, enrolando duas horas com seu copinho de rum a tiracolo (porque não tem muito) e tocando algum instrumento.

Cubanos descansam ao entardecer no Malecón

Cubanos descansam ao entardecer no Malecón

Ainda que esse mesmo cubano alegre e sorridente tenha críticas ferrenhas a fazer contra Fidel Castro, assim que se sentir seguro o bastante com você para desabafar a respeito, ele está lá, vivendo a vida, enquanto a imensa massa de gente pobre de nosso ultra-capitalismo está apenas começando uma jornada de 3 horas de baldeações entre ônibus e metrô, para chegar em casa, na periferia da periferia.

Entendem onde eu quero chegar? Vamos um pouco mais a fundo…

Vivemos inevitavelmente presos em nossos próprios parâmetros – nossas referências iniciais – e é muito difícil para a elite brasileira, da qual TODOS NÓS fazemos parte (se você está lendo esse texto 99% de chance de se incluir nesse grupo) enxergar a dura realidade na qual a esmagadora maioria do mundo se encontra. Por trás das lentes de nossas câmeras semi-profissionais da Canon, fotografando as ruas belas e decadentes de Havana (para depois poder contar em alguma mesa de bar na Vila Madalena, pagando 8 reais em um chope, que visitamos um lugar exótico nas ultimas férias), certamente Cuba  parece um lugar ridiculamente precário.

As casas estão desabando? É verdade.

A discrepância monetária entre o peso cubano e o peso turístico gera um abismo semi-hediondo entre o turista e o morador? É verdade.

O cubano comum não pode viajar livremente como turista, e está de certa forma preso dentro do seu próprio país? Ainda é verdade pra quase todo mundo…

Mas antes que comecemos a dissertar sobre as vantagens da democracia maravilhosa na qual nós, civilizados, vivemos, eu peço licença para perguntar:

Você já pensou em passar suas próximas férias em uma favela brasileira? Ou em uma comunidade de garimpeiros no norte de Minas Gerais?

Já visitou a casa da sua faxineira?

Já parou pra comparar o seu poder de consumo com o do gari que limpou a sua rua as 3 da manhã de ontem, no frio, enquanto você dormia enroladinho no seu edredom? Sabe quantas refeições ele pula por mês para economizar dinheiro?

Já perguntou pra um empacotador do Pão de Açúcar se ele tem alguma esperança de um dia viajar pra fora do país?

Antes de ficar chocado e emocionado com o discurso do médico Cubano no plenário, essa semana, sobre as péssimas condições de vida dos médicos que trabalham em Cuba; já se perguntou o quão chocantes seriam as realidades e depoimentos se oferecêssemos a mesma voz aos milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, mesmo depois de todos os bolsas famílias e milagres econômicos dos últimos anos?

Somos mimados. Mimados e incapazes de enxergar a realidade da imensa maioria de nossos próprios conterrâneos. Olhamos com pena para o cidadão cubano e somos ao mesmo tempo incapazes de encarar o morador de rua embaixo da ponte por quem passamos na volta pra casa.

Tomemos por exemplo as centenas de populações ribeirinhas que moram no interior da Floresta Amazônica: Vivem sem energia elétrica, sem hospital e sem escola a menos de um dia inteiro de barco. Tomam banho na mesma água onde jogam suas fezes. Sobrevivem com menos de um real por dia. Nascem, crescem e morrem anônimos à nossas vidas protegidas.

Favela ribeirinha brasileira

Favela ribeirinha brasileira

O que pensariam essas pessoas, assim como os milhares de moradores de rua, os centenas de milhares de favelados, e quer saber? Os milhões de trabalhadores de classe baixa de nosso país, se lhes fosse oferecida a oportunidade de viver em um lugar onde saúde e educação publica funcionam? Onde eles teriam comida e moradia garantidas pelo estado?

Fala-se muito da truculência do estado cubano em relação à sua população. Mas alguém que adora falar sobre isso, já visitou uma batida do Bope ou da Rota em um morro? Já testemunhou uma chacina da PM em algum bairro de periferia?

Será que o mesmo cubano que nos vê, bem vestidos e cheios da grana, fotografando seu bairro decadente, invejaria tanto assim nosso estilo de vida se soubesse que sua maior chance (estatisticamente) caso tivesse nascido no Brasil, seria morar em uma favela?

A grande questão que devemos levantar, meus amigos, não é se trocaríamos a nossa vida confortável e mimada, pela vida do cubano pobre.

A questão que devemos levantar é: Se vivêssemos como a imensa maioria da população do Brasil (e do mundo) vive, não preferiríamos viver em Cuba?

3.    CONCLUSÂO

 Indo e vindo nessa reflexão complicada a respeito de tudo o que vi quando viajei para Cuba, fiquei empacado nesse texto por quase dois anos. Ainda não possuo todas as respostas, mas escrevi mesmo assim, para instigar um pouco mais de reflexão para aqueles que acham que as possuem.

Não vou nem entrar no mérito de quanto da pobreza cubana (e da truculência do estado) não é uma conseqüência direta do embargo americano, e ao programa de incentivo à dissidência que eles promovem em Miami. Não vou morder a isca fácil de tornar essa reflexão um texto anti-americano, quando ele pode ser algo mais.

A verdade é que, politicamente falando, sempre tentamos assumir um lado, o da direita ou a da esquerda. E se somos moderados, somos em cima do muro, alienados, não queremos nada com nada. Estamos sempre buscando uma camisa para vestir.

Visitar Cuba é de certa forma, partir um coração idealista: Não existem utopias.

Voltar de Cuba e encarar com realismo esse lado do mundo é igualmente assombroso: Vivemos em direção a uma distopia.

O preço que pagamos para nossa vida confortável é alto demais. O alto salário que certos cargos garantem em nosso país, só consegue ser tão alto à custa de uma imensa massa que vive uma vida miserável, trabalha muito e ganha pouco, vive mal, come mal, não tem acesso a nada. Essa é a realidade que ignoramos todos os dias, para nossa vida não virar um inferno de culpa.

Nossa democracia e sistema de eleições parece livre, mas na verdade foi a muito tempo assimilado pelas grandes empresas, que com patrocínio à campanhas e lobby se apoderaram da agenda política dos governantes que escolhemos. O liberalismo morreu, foi substituído por um corporativismo canceroso.

Nossos recursos naturais estão se esgotando, as massas miseráveis estão se multiplicando, e nosso sistema continua se baseando em uma máxima irrealista de crescimento indeterminado, em um sistema isolado (o planeta Terra) cujos recursos são mortalmente limitados.

O sistema onde crescemos nos ensinou que é um absurdo querermos comprar banana no supermercado, e só ter maçã. Que é absurdo ter alguém limitando o quanto podemos crescer na carreira, o quanto podemos ganhar, quantos bens podemos acumular.

Vivemos em um sistema que nos ensinou a não olhar nem pra trás (para os milhões de pobres que deixamos no caminho) e nem para frente (para a realidade horrível que estamos construindo para nossos netos). Estamos distraídos demais usufruindo de nossa liberdade de consumir e aproveitar a vida.

Incômoda favela crescendo e estragando a vista do morro.

Incômoda favela crescendo e estragando a vista do morro.

Certamente Cuba não possui as respostas, e certamente é cheia de defeitos. Defeitos horríveis que eu não faço reservas (como esse texto mostra) na hora de levantar.

Mas devemos ter em mente, também, que o sistema instituído por Fidel Castro há décadas atrás não tem mais do que alguns anos de vida, e antes que ele desapareça de vez, devemos dedicar algum tempo a refletir sobre ele.

Devemos pensar o quanto não estamos a nossa maneira, vivendo em um tipo de ditadura também. Uma ditadura do capital. Que só não nos incomoda tanto (ainda que eu veja cada vez mais e mais amigos deprimidos com seus trabalhos) porque demos a sorte de nascer na posição privilegiada da pirâmide.

Devemos pensar o quanto não podemos aprender – como espécie – na hora de compartilhar um pouco o que temos, em vez de simplesmente fechar os olhos à realidade horrível que nos cerca e cresce ao nosso redor. E quem sabe não reclamar tanto na hora que lançarem o próximo programa social, ou tentarem instaurar um sistema de tributação pesado sobre riqueza extrema (algo que aliás muitas potências capitalistas, como a Alemanha, instituíram a anos).

Devemos ter cuidado na hora de falar de Cuba, porque nem tudo é o que parece. Nem tudo é tão preto no branco. Um pouco menos de corporativismo, e um pouco mais de consciência social que Cuba acabou desenvolvendo na marra, poderia sim fazer muito bem para nosso Brasil tão reacionário e duro com sua população pobre, que ainda é maioria absoluta.

Às vezes é melhor continuar se questionando do que estacionar na primeira resposta.


“Como desafiar o Status Quo” ou “Resposta a um amigo”

Ontem um amigo meu comentou que as manifestações sindicais dessa ultima quinta feira não são realmente revolucionárias porque “defendem o status quo atual”, simplesmente por não apresentarem oposição direta à presidente Dilma Roussef.

Pensei bastante sobre isso e achei pertinente escrever esse texto, porque eu acho que está realmente rolando muita confusão nos últimos tempos sobre o que é o “status quo” atual, e contra quem lutar no momento em que vamos pra rua levantar uma placa.

Como de costume, não estou aqui para dizer pra ninguém contra quem lutar, ou que posição assumir. Mas também não sou demagogo, não esconderei minhas preferências pessoais, e acima de tudo gostaria de propor uma reflexão essencial:

O que exatamente é “estar no poder”?

É possuir a cadeira da presidência? É representatividade de cadeiras no congresso? Barak Obama teve como promessa de campanha acabar com as guerras no oriente médio e fechar Guantánamo, e não fez nenhuma dessas duas coisas. É necessário compreender que “estar no poder” é muito mais do que ganhar as eleições, na verdade esse é apenas o primeiro passo de uma luta muito maior em busca da governabilidade.

Hoje em dia essa luta envolve principalmente conquistar apoio interno o suficiente para superar a sempre presente oposição, é manter-se fiel aos compromissos estabelecidos com as empresas privadas que sustentam seu partido e suas campanhas e ao mesmo tempo ser fiel às promessas feitas ao povo que te elegeu.

Disso se conclui que o “status quo” não é um cargo político (no caso, o de presidente) e sim toda uma trama de poderes estabelecida, que de forma simplificada, é formada pelos seguintes elementos abaixo (abrirei pequenos parênteses após cada um deles, para comentar algumas coisas):

1 – Os imensos grupos corporativos que financiam campanhas e monopolizam meios de comunicação e licitações públicas no geral, entre eles o Grupo EBX (do nosso querido Eike Batista), o Grupo Globo, o Grupo Abril, o Grupo Estado, a Odebretch, a Monsanto, MRV, Grupo Brookfield e os bancos Itaú Unibanco, Santander, Safra e outros.

Existem leis no Brasil que teoricamente impediriam a formação de certos grupos financeiros, justamente para limitar o poder de monopólio que eles podem exercer. Uma dessas leis prevê que nenhum grupo midiático pode possuir mais do que X canais de televisão, Y publicações impressas, etc. A Rede Globo sozinha excede em dezenas de vezes os limites permitidos pela nossa legislação, operando abertamente contra a lei brasileira a décadas. Porque ninguém faz nada?

Por causa do “Status Quo”

Esse mesmo “Status Quo” é o que permitiu que a Odebretch, principal responsável pelas obras da Usina de Belo Monte, fosse a autora dos estudos de viabilidade ambiental da própria usina (algo completamente ilegal), é o mesmo que permite que a Editora Abril seja a fornecedora EXCLUSIVA de revistas para todas as repartições e escolas públicas do país sem nunca ter participado de uma única licitação, entre outros imensos absurdos que certamente só fazem aumentar o já imenso poder que elas detém.

Esse tal “Status Quo”

2 – As famílias que estabeleceram verdadeiras oligarquias em certas regiões do Brasil, grupo composto não apenas pelas célebres famílias coronelistas como a Calheiros mas também família Marinho, família Moreira Salles, família Lemann, etc. Essas famílias controlam um patrimônio tão gigantesco, e possuem sob suas “asas” uma rede de empresas e negócios tão complexa com o governo, que fazer oposição a elas é suicídio político.

As cinco mil famílias mais ricas do Brasil possuem um patrimônio equivalente a 40% do PIB do país. Em números de 2010, equivale a R$ 1,65

TRILHÕES de reais. É uma média de R$ 294 milhões por família.

Existe um projeto da deputada Jandira Feghali, do PC do B do Rio de Janeiro, para instituir de uma vez um imposto sobre grandes riquezas no Brasil, algo que já existe em praticamente toda a Europa (as nações mais poderosas, como Alemanha e França, instituíram esse imposto a muito tempo). Foi encampada como bandeira pela CUT (segundo meu amigo, esses ‘defensores do status quo’) e apresentada à Dilma Rousseff.

O texto prevê a criação de nove faixas de riqueza em que os contribuintes ficariam obrigados a pagar esta contribuição. Só paga quem tiver patrimônio acima de R$ 4 milhões. Começa pagando anualmente 0,4% sobre o patrimônio, vai subindo até 2,1% para fortunas de R$ 150 milhões ou mais. De toda a população brasileira, aproximadamente 800 contribuintes atingiriam essa faixa.

Alguma chance desse projeto ir pra frente? Muito improvável. Por que? Por causa do “status quo”.

3 – Os diversos grupos políticos já estabelecidos no poder, que fazem constante lobby  e impedem que um presidente possua livre governabilidade. Entre eles podemos citar a famosa “Bancada Ruralista”, que força goela abaixo do presidente diversas medidas para reduzir a rigidez nos controles ambientais, conseguiu reduzir a área de proteção de margens de rios no ano passado e todos os dias tenta tornar nosso código ambiental mais e mais brando. Podemos citar a “Bancada Evangélica”, que ganha mais poder a cada dia que passa e se concentra prioritariamente em medidas que desafiam a natureza laica do estado brasileiro. Podemos citar os partidos-máfia como o DEM e o PMDB, que possuem como modus operandi a venda de votos internos e são verdadeiros “seqüestradores de governabilidade, em troca de apoio político”, entre muitos outros.

TODOS ESSES ACIMA CITADOS FORMAM O QUE A MAIORIA DAS PESSOAS CHAMA DE STATUS QUO, E COSTUMA ATRIBUIR EXCLUSIVAMENTE AO PARTIDO COM A CADEIRA DA PRESIDÊNCIA.

Dentro desse panorama que eu estabeleci (e submeto a questionamento) falar que uma passeata a favor da presidente atual é uma passeata a favor do status quo, não poderia ser falácia maior.

A rede de poderes que se formou para REALMENTE governar nosso país transcende em muito os cargos políticos. Na verdade, políticos de “esquerda” e de “direita” hoje se alternam no poder para atender aos interesses desses mesmos grupos. PT e PSDB possuem os mesmos patrões, e te garanto que esses patrões NÃO SÂO O POVO.

Uma passeata que apresenta apoio à Dilma hoje não faz isso por estar plenamente de acordo com o governo atual, o faz por ver na Dilma um “mau menor” entre as demais opções pré-estabelecidas. Faz isso porque, só pra usar um exemplo, Dilma estava pelo menos TENTANDO estabelecer um plebiscito (uma coisa é certa: plebiscito no mínimo ameaça o ‘status quo’ vigente), enquanto o principal candidato da oposição, o Aécio Neves, se declarou abertamente opositor dessa medida.

Sabe qual o é principal ideal do ser humano? A luta pelo poder. Nietzsche afirmou na “Vontade da Potência” e  eu concordo plenamente. Acima de tudo, TODO MUNDO LISTADO ACIMA QUER ACIMA DE TUDO MANTER O PODER. Isso não exclui a Dilma não, é óbvio, TODO MUNDO.

Escolhemos nossas posições políticas baseados naquilo que acreditamos fazer mais sentido, e escolhemos os nossos candidatos tentando dar ferramentas às pessoas que acreditamos ser mais capazes de apontar o leme de nossa sociedade um “pouquinho” mais pro lado que consideramos correto.

Ao contrário do que muita gente pensa, “socialismo” não é uma doutrina oposta ao capitalismo. Ambas são irmãs gêmeas. Nasceram na mesma época, e tem sofrido constante simbiose mútua desde o principio dos tempos. Se hoje você trabalha apenas 8 horas por dia (e recebe hora extra quando passa disso), se tem direito a férias, ou fundo de garantia, ou seguro desemprego, é porque algum “esquerdinha sindicalista” conquistou isso pra você.

Nenhum “vermelhinho” em sã consciência realmente acredita que votando no PSTU vai conseguir instituir um governo socialista aos moldes da União Soviética de décadas atrás. Mas muita gente vota nesses caras, e SIM, ainda no PT, por acreditar que, a despeito de todo esse STATUS QUO estabelecido lá em cima, esses partidos possuem uma inclinação maior a investir em políticas sociais, a adotar medidas mais liberais e progressistas em assuntos relacionados a drogas e religião de uma forma geral, a enfrentar um pouco mais o capital privado no momento de legislar a respeito de meio ambiente, leis trabalhistas, etc etc

A crise financeira nos EUA e na Europa se deu por causa do liberalismo descontrolado e sem regulação estatal. A operação Condor que matou e massacrou na América Latina inteira e instituiu diversas ditaduras ocorreu por apoio de empresas privadas no Brasil e nos EUA. A gente tomou borrachada da polícia naquela memorável quinta feira, antes de ganharmos as graças da mídia, porque enfrentamos o poder vigente da máfia dos transportes públicos de São Paulo.

Temos recebido constantes evidências de que o capital descontrolado é essencialmente nocivo para a imensa maioria da população, e que quando esse capital descontrolado recebe o amém do estado ele se torna algo ainda mais destrutivo e perigoso. Temos recebido constantes evidências de que a negligência acumulada de décadas de nossos governos em relação à políticas sociais, educação e saúde pública de qualidade só fizeram aumentar a violência nas ruas, e a longo prazo,  atrasar o desenvolvimento do país.

O principal poder estabelecido hoje no Brasil (e no mundo) é o poder do capital privado, em sua simbiose esquizofrênica com o estado. Apresentar oposição aos que enfrentam esse poder (sejam sindicalistas nas ruas ou uma presidenta encurralada em sua cadeira, tentando passar um plebiscito) é que é defender o “status quo”. Apoiar a argumentação de uma mídia completamente dominada por esse capital privado é que é defender o “status quo”.

Sob essa perspectiva, SIM, as manifestações sindicais de 11/07, independentemente de apoiarem um partido ou outro (mesmo se esse partido estiver no ‘poder’), são essencialmente revolucionárias. Mais do que a maioria das passeatas estabelecidas nos últimos dias.

E sob essa perspectiva, SIM, quem defende o verdadeiro “status quo” instituído pelo capital privado é sim REACIONÁRIO. E conservador. Em todos os significados possíveis da palavra.

Existe direita no Brasil SIM.

Ela só não se reconhece como direita, porque a palavra “direita”, assim como “conservador” e “reacionário” se transformou (talvez com justiça) em sinônimos de “BICHO PAPÃO” para a maioria dos brasileiros, e ainda somos “mais ou menos” uma democracia, e ninguém consegue governar nada sem ser eleito (ao menos que tenha dado sorte de nascer numa família milionária). Existe direita SIM, e é o pensamento de direita que controla os grandes grupos citados acima e consequentemente, o “status quo”. Ter uma presidente “de esquerda” no governo hoje em dia é uma pedrinha no sapato. Um incômodo que seria interessante remover, mas que (até agora) não fez lá muita diferença. E a maioria dos velhos “vermelhinhos” que até pouco tempo atrás lutavam contra esse poder, acharam melhor se render a ele, entrar no jogo e sobreviver (os Lulas da vida) do que fazer a coisa certa. Uma pena.

Mas não se enganem. Falar contra “esses caras”, só porque eles se venderam TAMBÉM, é indiretamente falar a favor da oposição, que é ainda mais vendida, mais corrupta e mais nociva.

Falar CONTRA os partidos pequenos que estão indo pra rua tentar mostrar a proposta de governo deles é INDIRETAMENTE falar a favor dos partidos grandes, que já estão no poder, e falar a favor das EMPRESAS e FAMÍLIAS que os controlam.

Muita, mas MUITA, gente dentro do PT se corrompeu, e não existe uma unica pessoa com bom senso que falaria o contrário. Mas um outro amigo meu,  Alexandre Morgado (do GAPP) que está em Recife nesse momento, me falou sobre o governador deles, do PCdoB (o mesmo partido que propôs o imposto sobre grandes fortunas). Ele foi eleito com 78% dos votos no primeiro turno, porque a população votou na extrema oposição do candidato anterior, notório por estar passeando na Europa durante seu mandato. Ele realmente parece ter atendido a maioria das demandas de sua população. Quando começaram as grandes manifestações, sabe o que o governador fez? Conseguiu que as empresas de ônibus levassem e buscassem as pessoas gratuitamente para ir as manifestações, e foi pra rua junto com o povo. Existem centenas de partidos pequenos de esquerda tentando falar com a população, e só precisam ser ouvidos. O PSTU, o PSOL, todos eles possuem propostas de governo e alguém deveria começar a ouvir o que esses caras falam…

Porque por mais que a gente queira ser “apartidário” na hora de ir pra rua, no fim das contas teremos que votar em alguém no ano que vem.

Ser revolucionário hoje é ir pra rua. E amanhã, será votar em partido pequeno. E ver esse partido perder, mas ganhar força, e continuar indo pra rua, e votando em partido pequeno, de novo, e de novo, para que os partidos grandes cada vez mais, por medo de perder o poder, acabem se dobrando mais à vontade do povo em detrimento das minorias oligárquicas de hoje.

A nossa democracia hoje é uma peça de teatro vagabunda. E a meu ver, só desse jeito conseguiremos “invadir o palco, rasgar os cenários, reescrever o script”. TOMAR CONTROLE SOBRE O STATUS QUO.

É nisso que deveríamos estar concentrados hoje.


“Revogamos o aumento da passagem, e agora?” ou “BRASIL: O gigante de muitas cabeças”

Sabe aquela felicidade tão enorme que dá vontade de chorar? De abraçar uma pessoa estranha do seu lado na rua? Não é lá muito comum. Ontem acredito que dezenas de milhares de pessoas sentiram isso, e garanto que foi um sentimento completamente inédito quando se trata de política:

Nós ganhamos. Nós ganhamos. Nós ganhamos.

Em menos de uma semana o jogo virou. Se na semana passada estávamos sendo chamados de vândalos, estávamos sendo ignorados pelo mundo e a revogação do aumento da passagem era uma utopia inalcançável, em menos de 7 dias nós conseguimos:

1 – Revogar o aumento das passagens de ônibus.

2 – Furar as mentiras da mídia e obrigar ela a ficar do nosso lado (e passar para o Datena, o Jabor, o Reinaldo Azevedo e outros boçais um recado que eles nunca mais vão esquecer).

3 – Fazer o cara que estava sentado em casa, sem entender o que estava rolando direito, descer pra rua e marchar do nosso lado. De 20.000 viramos 500.000.

4 – Abaixar a bola do Alckmin, que vai ter que entender que mexer com nosso direito de protestar é algo perigoso que nem ele nem seus sucessores nunca mais poderão ousar fazer.

5 – Mostrar pro mundo que quando a PM não desce a borracha, somos perfeitamente capazes de protestar pacificamente, e que é uma RIDÍCULA  minoria que de fato pratica atos de vandalismo. E que venha a investigação da ONU sobre o massacre da quinta feira, 13/06.

6 – Ensinar os políticos do Brasil que eles não poderão mais cumprir as agendas das grandes empresas lobistas sem se importar com os efeitos disso na população. Não toleraremos mais esses abusos.

7 – Colocar o Brasil – e suas injustiças, e o absurdo da Copa – no centro dos noticiários do mundo.

Agora é hora de esquecer momentaneamente as discussões ideológicas que permearam as ultimas  passeatas (e suas páginas de organização no Facebook). Como eu disse antes, se não formos capazes de comemorar quando vencermos uma batalha, jamais venceremos a guerra. Hoje é dia de celebração, essa vitória nunca será esquecida.

Mas amanhã, junto com a ressaca, surgirá uma pergunta inevitável (e essencial): E agora?

O imenso aumento (em números) dos últimos levantes colocou em pauta uma quantidade massiva de assuntos, problemas e motivos para marcharmos. Claro, o Brasil tem MUITA coisa errada para mudar, e quando as pessoas resolveram ir para a rua, cada uma levou o tema que considera prioritário, e viramos uma imensa massa com centenas de objetivos difusos.

“Se não são apenas 20 centavos, sobre o que é então?”

“Depende.“

Sejamos realistas: O imenso aumento de manifestantes que o movimento viu nessa semana não se deve apenas ao aumento da passagem de ônibus. Seu principal responsável foi a truculência policial da semana passada. A grande maioria das pessoas foi às ruas pelo puro e simples direito de ir. Não que a passagem não continuasse sendo o tema em pauta. Não que sua revogação não representasse nosso principal estandarte. Mas foi a violência da PM o que nos incitou, e o que nos reuniu. Seja de direita ou de esquerda, socialista ou anarquista, a favor ou contra bandeiras em passeatas: Todos querem ser livres para ir, vir, e falar. Isso é o mínimo.

A perspectiva de perder isso nos enfureceu. E nos uniu.

Passeata

Essa união foi maravilhosa e nunca será esquecida. Entretanto, fingir que somos uma única massa indivisível, lutando em uníssono pela resolução de uma lista única de problemas, é uma ilusão. Mais do que ilusório: É perigoso.

Proibir qualquer bandeira. Vetar qualquer ideologia. Taxar absolutamente todo político de corrupto. Pintar um imenso verde e amarelo sobre todas as pessoas da marcha. Eleger o hino nacional o principal canto a ser entoado. Isso tudo me lembra um episódio bem macabro de nossa história, que a imensa maioria de nós definitivamente não quer reviver. Democracia é diversidade. Unidade absoluta não existe, ao menos que alguém te obrigue a isso, e o nome desse processo é ditadura.

Olha só o que andou rolando na rede essa semana:

MILITARES

Sentiram o perigo?

Durante essa semana, anarquistas marcharam ao lado de socialistas, militantes do PSTU marcharam ao lado de pessoas que odeiam bandeiras em passeatas, pessoas gritaram “Fora Dilma” enquanto outras gritaram “Fora PSDB!”. Como esperar que todo mundo continue sempre lutando pela mesma coisa, e chegando a um acordo sobre o que deve ou não ser prioridade?

Se o PSTU não pode levar sua bandeira para a passeata pela revogação do aumento da passagem, deve haver um espaço e momento onde ele possa. Deve haver um espaço para cada um dos grupos expressar seu projeto de país, ou prioridade a ser solucionada, e para que isso seja possível, precisaremos nos dividir.

Isso nos enfraquecerá? Em números sim, mas não em discurso.

Já falei muito sobre o perigo de pautas genéricas em manifestações, mas pautas genéricas é tudo o que conseguiremos, se insistirmos que queremos apenas uma coisa. Claro que todos queremos o fim da corrupção, mas COMO fazer isso? ONDE atacar primeiro? Protestos devem ter pautas específicas, com objetivos mensuráveis: A revogação do aumento da tarifa. O veto à PEC-37. O fim do financiamento privado à campanhas políticas. Quem dirá qual será a próxima pauta?  Quem vai convencer uma massa de 500 mil pessoas a pensar igual, e marchar pelo mesmo grande objetivo?

Na minha opinião, essa é a próxima grande etapa de nosso amadurecimento político: A segregação. E diversidade é boa, meus amigos. É essencial em uma democracia.

Existe coisa demais para ser mudada nesse país, e ao menos que você tenha como objetivo de vida passar todo o seu tempo livre nas ruas, entoando cantos em passeatas, você vai ter que PRIORIZAR.

Que cada um escolha a pauta que lhe for prioritária, e compareça às passeatas que focarem nesse tema. Que sejam organizadas centenas de passeatas de 20.000 pessoas, cada uma com um tema, em vez de dezenas com 100.000 pessoas, sobre 30 temas diferentes.

E se alguém – governo, polícia ou empresa – tentar impedir uma única passeata dessas de ocorrer. Marchemos todos juntos novamente. As vezes não concordando com o que o outro pensa, mas defendendo até a morte seu direito de fazê-lo.

Lembrem-se de que existem forças imensas agindo nas sombras, tentando direcionar essa imensa força revolucionária que está nascendo, tentando transformá-la em massa de manobra. A mídia, que uma semana atrás nos odiava, agora nos ovaciona e acha que pode dizer qual nosso próximo objetivo, qual nossa próxima luta. Não podemos deixar isso acontecer.

A PURA VERDADE

Existem tantas pautas a se escolher:

- As tarifas vão abaixar, mas quem vai pagar a conta? As empresas de ônibus, ou o próprio contribuinte, por meio de outro imposto?

http://www.cartacapital.com.br/politica/camara-de-sp-protocola-cpi-para-investigar-concessoes-de-onibus-4457.html

- O financiamento privado à campanhas políticas continua sendo o maior criador de corrupção do Brasil, fazendo com que o político eleito já suba ao poder com uma agenda definida, que atenderá a seus patrocinadores muito antes de atender ao povo. Seja esse político “direitista” ou “esquerdista”, já não importa mais.

- Belo Monte ainda está sendo construída, e nossos índios ainda estão sendo massacrados.

- A PEC-37 ainda pode ser aprovada, e com isso anulado o poder investigativo do ministério publico.

- A bancada evangélica está se infiltrando em nosso legislativo e promovendo retrocessos imensos em nossas políticas, exemplo mais recente: A cura gay

- Nenhum condenado do mensalão foi pra cadeia ainda.

- A CPI do Cachoeira, a CPI das ambulâncias e o escândalo que envolve o Serra e o PSDB denunciado no livro “A Privataria Tucana” passaram batidos e ninguém parece lembrar do assunto.

- Ainda pagamos 44% de nosso PIB para bancos privados, e o estado ainda considera o aumento dos juros bancários a única medida possível para conter a inflação.

- Ainda há tentativas de tornar manifestação um crime durante a época da Copa do Mundo, o que é uma violação à nosso direito como cidadão e uma ofensa a nossa soberania como país.

- A PM do Alckmin pode até não ter mais coragem de massacrar “playboys” na Avenida Paulista depois do ultimo escândalo, mas continua massacrando gente todo dia nas periferias. Pinheirinho e a desocupação da USP ficaram impunes. A ONU recomenda o fim da PM no Brasil e a investigação de Geraldo Alckmin por violação de direitos humanos.

- A Guerra contra as drogas (mais precisamente contra a maconha) ainda custa ao contribuinte uma quantidade colossal de dinheiro e não produziu nenhum resultado em décadas de duração. A internação compulsória e a criminalização do pequeno traficante são imensos retrocessos que vão na contramão do que o mundo inteiro (EUA incluso) está fazendo…

Eu poderia continuar essa lista para sempre.

Não tem como espremer tudo isso em uma única passeata, até porque não é todo mundo que concorda que isso é importante.

Então escolha sua pauta. Organize seu grupo. Converse com as pessoas. Vá pra rua.

Vá pra rua. Já vimos que funciona.

Esse movimento só teve sucesso porque insistiu na mesma pauta até o fim. É assim que conseguiremos mudar as coisas. O “gigante adormecido” na verdade possui muitas cabeças, e só aceitando essa natureza, e explorando ela como uma QUALIDADE e uma FORÇA, ele continuará sendo realmente perigoso.

Leitura complementar / sugestões:

http://www.viomundo.com.br/politica/marilena-chaui-haddad-tem-que-quebrar-o-cartel.html

http://www.oesquema.com.br/conector/2013/06/19/seis-notas-rapidas-sobre-os-protestos.htm

http://www.viomundo.com.br/politica/sobre-datenas-jabores-e-pondes.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/os-perigos-da-infiltracao-conservadora-nos-protestos.html

http://www.viomundo.com.br/denuncias/no-centro-de-sao-paulo-manifestante-dizia-foda-se-o-brasil-nacionalismo-e-coisa-de-imbecil.html


Aos novatos no movimento: Atenção

Fico triste porque, por mais que seja lindo ver essa galera nova indo pra rua agora, se juntando ao grupo de antes, não vejo uma intenção real em mudar o sistema vigente da parte da maioria dessas pessoas. Derrubar a “Dilma” , “gritar contra a corrupção (genericamente)” ou “aprovar a pena de morte” (e outras loucuras parecidas que já li por aqui) não vai mudar nada gente, isso é “lugar comum”. Vocês estão virando massa de manobra política.

Sabe o que vai acontecer daqui a 2 anos? Essas manifestações e os “Fora Dilma” delas vão acabar derrubando a Dilma mesmo, e o Aécio Neves, do PSDB, vai ganhar a presidência do Brasil. Daí pra frente as coisas vão ficar ainda piores do que estavam. As mesmas empresas lobistas que roubavam durante o governo do PT, roubarão no governo do PSDB, e tudo vai continuar igual ou até pior.

Eu só queria ver um pouco de amadurecimento politico nesse movimento …. e que as pessoas que chegaram agora tentassem se inteirar um pouco antes de sair por aí vomitando “variações” do que leram nos jornais e revistas corporativos nos ultimos anos…

Estar indignado é lindo. Mas a falta de foco é o que fez manifestações extremamente bem intencionadas como o Occupy Wall Street não produzirem nenhuma mudança REAL, a despeito de todo o barulho que foi feito.

Realmente espero que abaixar o passe de ônibus mantenha-se como FOCO desse movimento até o final, porque precisamos de pelo menos UMA vitória concreta.

Realmente espero que essa babaquice de “não precisamos de partido” seja superada, porque ao menos que a gente vá viver na anarquia precisamos SIM de partidos, e é bom que apareça gente nova querendo fazer a diferença, já que tanto PT quanto PSDB estão totalmente degradados e comprometidos…

Realmente espero que as pessoas que estão entrando agora, procurem ler um pouco mais sobre política no geral, e que a galerinha que desceu pras ruas agora porque finalmente percebeu que os jornais estavam mentindo (e a PM estava massacrando a gente, e não contendo ‘baderneiros’ ) pense um pouco e questione as coisas que leram nos jornais nos últimos anos …. o buraco é MUITO mais embaixo do que simplesmente derrubar um político aqui ou outro ali. Hoje são as empresas por trás desses políticos que nos governam de verdade, e elas estão nesse exato momento encontrando formas de sobreviver ao movimento e torná-lo algo inofensivo para elas.

Se não tomarmos cuidado, no final, políticos cairão, bodes espiatórios serão criados. E nada vai mudar.

Recém chegados … obrigado pela boa intenção. Mas pensem nisso…


The “Ticket Bus Protest” in Brazil, or “How Brazil became Turkey for (at least) one night (so far)”

Observation: This is a quick “Google Translate” text, that I made to manage to tell my friends about what went on in Brazil yesterday. Should you require a better translation for any use, please let me know and I will be glad to arrange that .

___________

We arrived at the protest by subway, down the “Santa Cecilia Station” instead of “Anhangabaú Station” because many people were being searched and arrested at this season, or at least that was the rumor. A friend of my brother confirmed when we approach the turnstile: 30 people arrested so far. Most of “possession of vinegar”, which is a good substance to counter the effects of tear gas. Let’s face it: being arrested for bringing VINEGAR with you is being arrested for nothing at all, is not it? Mussolini would love this. But anyway …

Into the street the protest literally came to us. The ground shook. Thousands of voices singing in unison. I know the official numbers are much smaller, but my brother who had gone on Tuesday said: “It is more than double from Tuesday.” If he´s good at counting (guarantee he is) that would be around 20,000 people.

We left the station and went to the streets and the march literally walked towards us, towards Consolation Avenue. It could be a threatening image if it were not so beautiful. Most people holding flowers and the song that was sung was actually an appeal: “No violence.”

We quickly mixed with people and a woman in her 40s, probably a housewife, offered us some flowers that we readily distributed among people around us. We sang “No Violence” alternating with “The People woke up” and other peaceful screams that left very clear that we did not want trouble. There were some strange people in the middle, it’s true: A group of at least four guys that I’m sure were plainclothes police. The absolute majority was only there to express themselves.

We passed in front of the “Love Story” and “Copan Building”, and it seemed that everything would go well. When we got up to the Roosevelt Square on the other hand, the thing swelled. I swear that most of the march had not even seen a cop yet (including me) when we heard the crack of the first bomb. Some people ran away and others shouted “No running, let’s stay together,” and we continued, more slowly, intoning the mantra “No Violence” every time we felt that something was going wrong or dangerous.

Well, the thing swelled considerably before we could go one block. The police formed a barrier in the opposite direction we descended and began hurling tear gas and stun grenades at us at the same time. The air was thick.

Tear gas enters into your eyeballs burning, like an acid, and you can not see anything. The burning throat, burning lips, burning everything. People screaming everywhere, people falling to the ground, rolling. Sleeves outstretched everywhere begging for a little vinegar.

You see, I´m not the “F**** the police !!!! ” kind of guy. I hate violence. I promised my mother I would protect my brothers, I promised my wife that if thing got too dangerous I´d go away. At that moment it became clear that I no longer had that option: I had to join the mass to be around them, because the alternative would be beaten and arrested. Who came out at that time, who tried to give up, would be beaten and arrested. Many were.

Halfway through the run I found two of my friends, who joined the group. Didn´t have the chance to celebrate the encounter, because a new bomb exploded by our side. People bleeding from the shrapnel bomb (discovered after a friend of my brother had some shrapnel stuck in his leg). People who fainted and fell headlong to the ground. My brother almost fainted by the gas, but once he recovered he began distributing vinegar on the sleeves of people. Many people also came offering vinegar to me. Everyone united with the purest and simplest of goals: Not to be beaten and arrested. At that moment, that was the main goal of that mass, which came in more goodwill only to claim a quality transportation at a fair price.

In the middle of the mess I spotted a Record Ntework reporter. I ran up to him and shouted: “Film me! I want to talk. ” I recorded a statement, even with the flower that I held in my hand, stepped through and wilt after much confusion. The morning after I knew I was on TV and the media was getting on our side, but at the time I recorded a testimony of desperation, with little hope that the camera was even on, to begin with.

To continue at Consolation Avenue would have been suicide, so we crossed the Roosevelt Square toward the Rua Augusta. The crossing was frightening, helicopters hovered over us and it seemed that at any moment they would throw Napalm in our head, just like in that movie, Apocalypse Now. Who was there knows that I’m not exaggerating.

More gas bombs exploded by our side and behind us, we fell. I saw a female, 18 year old student, desperately crying, paralized by pannic … I saw even an old dude, so scared that I wonder if he was in march or just not informed enough before leaving home that day.

A small group of people tried to vandalize a cabin public bathroom, completely furious and mad with anger at the police. The remaining protesters prevented these people, which almost caused a fight within the demonstration. We all started screaming “No Violence” again and the mood calmed down. Entered in Augusta Street.

At that stage of the game, something became clear to me: Most people were on our side. Stuck in traffic, within their cars, people greeted us, honked the rhythm of our music and often opened the windows. They were not afraid of us. Sure, there were the gentlemen in suits and truculent in their trucks, probably posting on Facebook about how they expected the PM to kick our asses. There are always those. But most were with us.

I saw many funny things, as we passed by a brief and mild sense of security: I saw a guy in an Anonymous mask kissin a pretty girl who was driving a car, and stuck in traffic. I saw a parent with a child at the window, waving to the demonstration, and protesters all nodded and played with the little boy in return. They all laughed and danced togheter. I saw men and women open their home windows to deliver bottles of vinegar in solidarity. We received MANY applauds. My faith in humanity, hurt by a lot of crap from Facebook in recent weeks, began to regenerate.

All that is good lasts just: Getting close to the Paulista, by Bela Cintra, started hearing explosions again. The parties gathered their flags. Someone commented on my side: “The PM closed the Paulista and is waiting for us up there. Things are gonna get messy. “. I told my two friends, but it was the last time I saw them, because shortly after people started running back, because they were “opening fire” with rubber bullet on protesters who were trying to enter the Paulista. More explosions. We believe that while we were in the middle of the cars which were stuck in traffic, we would be safe, but the police started shooting it between cars. Many people who were trying to get home, stuck in traffic, breathed the gas that was meant for us.

We entered Pedro de Taque Street, trying to escape back to the Consolation, but saw mounted police in weight and also guns that launch the gas pump. Still screaming “No violence” we ran to Consolation Avenue once more. One of the Avenue´s ways was now released, and the police started to come from below, catching a whole bunch from the side. We were already divided. Who has ascended to the Paulista failed to descend, was already being butchered. And with them, workers, bystanders and even old ladies out of St. Louis Church. Many people who were not even protesting.

At this point we had already heard stories of reporters beaten and even a girl from the Folha de São Paulo Newspaper that supposedly had been shot in the eye. It is amazing what really makes Whatsapp and Cellular at a demonstration.

It was no longer a demonstration: It was a bloodbath. I could only think about the safety of my brothers. Screw the bus. Screw the governor Alckmin. I just wanted to protect my family and take them away safely. The opportunity arose. A street was cleared, and we could run to Moema and leave. We gathered a group of about 20 people, because we knew that smaller groups could be pursued, beaten and arrested. It was happening. We saw it by our side.

We crossed the Consolation Avenue running and we could hear the noise of the bombs, and see the light of the grisly police sirens coming up the road to meet the flank march. Tactics of war against the people that the police was supposed to protect.

Who was there after 9 p.m had two choices: Run or Fight. Fighting wasn´t a very good idea, since they had guns and we had nothing but vinegar.

The battery of my phone was gone, and I did not know if my friends were safe, but at least had taken my brothers away.

This march is for MUCH more than the £ 0.20 raise on the ticked fare. No wonder that the numbers have only grown since the first was organized. This march is for something that should be a priority for all of us who should matter most of all: FREEDOM.

When you realize the population should fear the police, even when not doing ANYTHING but expressing their opinion peacefully, you realize you´re living in a fascist like state.

Even the media turning to our favor (clearly frightened by the turn of public opinion) there is still a lot of people calling us vandals and saying we deserved the gas and the violence. I don´t care. Actually I feel sorry for those people who prefer to live as comfortable lackeys, rather than face the harsh reality that our state is turning, I repeat, into a fascist state.

I’m feeling lighter than ever today. I went to the street because it was the right thing to do. And sometimes we need to do things just because it’s RIGHT. Sometimes we need to accept the idea of ​​being hurt or in danger, if it is to stand up for what we believe, it is this notion that makes it worth being alive.

I was not there because fighting the police is my idea of ​​a great Thursday night. I was there for my wife, even though she was at home worried sick. Was there for my future children, they will not like it one bit if they have to live in a fascist Brazil. Was there for my friends, my parents, for all the people who can not understand what I was doing, but who will reap the fruits planted by those who left home yesterday, BECAUSE IT WAS THE RIGHT THING TO DO.

This is far from over, and everyone should go to the streets. We can not be afraid, because that’s what they want. If we shut up, sit on the couch home and turn on the television, they win.


“A grande passeata de 13/06/2013″ ou “Quanto o Brasil virou Turquia”

Chegamos na passeata de metrô, descendo pela “Santa Cecília” em vez do “Anhangabaú” porque muita gente estava sendo revistada e presa naquela estação, ou pelo menos o boato era esse. Uma amiga de meu irmão confirmou quando nos aproximamos da catraca: 30 pessoas presas até agora. A maioria por “porte de vinagre”, que é uma boa substancia para combater os efeitos do gás lacrimogêneo. Convenhamos: ser preso por porte de VINAGRE é ser preso por coisa alguma não é? Mussolini adoraria essa. Mas continuando…

Saímos na rua e a passeata literalmente veio até nós. O chão tremia. Milhares de vozes cantando em uníssono. Sei que os números “oficiais” são bem menores, mas meu irmão que tinha ido na terça falou: “É mais do dobro de terça”. Se ele for bom de conta ( garanto que é) seriam umas 20.000 pessoas.

Saímos da estação e fomos pra rua, e a passeata literalmente caminhava na nossa direção, sentido consolação. Poderia ser uma imagem ameaçadora até, se não fosse tão linda. A maioria das pessoas estava segurando flores e a canção entoada era na verdade um apelo: “Sem violência”.

Rapidamente nos misturamos às pessoas e uma mulher de uns 40 e poucos anos, provavelmente uma dona de casa, nos ofereceu algumas flores, que prontamente distribui entre meus irmãos. Cantávamos “Sem Violência”, alternando com “O Povo Acordou” e outros gritos pacíficos, que deixavam bem claro que não queríamos encrenca. Tinha umas pessoas estranhas no meio, é verdade: Um grupo de pelo menos quatro caras que eu tenho certeza se tratar de policiais à paisana. A absoluta maioria estava lá apenas para se expressar.

Passamos na frente do Love Story e do Copan, e parecia que tudo ia correr muito bem. Quando chegamos à altura da Praça Roosevelt por outro lado, a coisa engrossou. Juro que a maioria da passeata nem tinha visto um policial ainda (eu inclusive) quando escutamos o estampido da primeira bomba. Algumas pessoas corriam pra longe e outras gritavam “Sem correr, vamos continuar juntos”, e continuamos avançando, mais lentamente, entoando o mantra “Sem Violência” toda vez que sentíamos que a coisa ia engrossar.

Bom, a coisa engrossou consideravelmente antes que pudéssemos avançar mais um quarteirão. A policia formou uma barreira no sentido oposto ao que descíamos e começou a arremessar bombas de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra nós ao mesmo tempo. O ar ficou espesso. O gás lacrimogêneo entra dentro de seus globos oculares queimando, como se fosse um ácido, e você não consegue enxergar nada. A garganta queima, os lábios queimam, tudo queima. Gente gritando por toda parte, gente caindo no chão, rolando. Mangas estendidas por toda parte implorando por um pouco de vinagre.

Vejam bem, eu nunca fui de sair na mão com a policia. Prometi para minha mãe que ia proteger meus irmãos, prometi à minha mulher que se a coisa ficasse perigosa demais, iria embora. Naquele momento ficou claro que eu não tinha mais essa opção: Tinha que me juntar à massa, ficar perto deles, pois a alternativa seria ser espancado e preso. Quem saísse naquele momento, quem tentasse desistir, seria espancado e preso. Muitos foram.

No meio da correria encontrei dois amigos meus, que se juntaram ao grupo. Não deu nem pra comemorar, porque uma nova bomba explodiu do nosso lado. Gente sangrando por causa do estilhaço da bomba (descobri depois que um amigo do meu irmão teve alguns estilhaços enfiados em sua perna). Gente que desmaiou e caiu de cabeça no chão. Meu irmão quase desmaiou pelo gás, mas assim que se recuperou ele começou a distribuir vinagre nas mangas das pessoas. Muita gente também chegou oferecendo vinagre para mim. Todo mundo unido com o mais puro e simples dos objetivos: Não ser espancado e preso. Naquele momento, aquele era o principal objetivo daquela massa, que chegou na mais boa vontade apenas para reivindicar um transporte de qualidade por um preço justo.

No meio da bagunça avistei um repórter da Record. Corri até ele e gritei: “Me filma! Quero falar”. Gravei um depoimento, ainda com a flor que eu segurava na mão, meio pisada e murcha depois de tanta confusão. Depois eu soube que ele passou na TV e que a mídia estava ficando do nosso lado, mas na hora eu gravei o depoimento por puro desespero, mas com pouca esperança de que a câmera estivesse sequer ligada.

Continuar na consolação era suicídio, então atravessamos a Praça Roosevelt em direção à Rua Augusta. A travessia foi assustadora, os helicópteros pairavam sobre nós e parecia que a qualquer momento eles despejariam Napalm na nossa cabeça, como naquele filme, o Apocalipse Now. Quem estava lá sabe que não estou exagerando. Mais bombas de gás explodiram do nosso lado e atrás de nós, gente caiu, menina estudante de 18 anos chorando desesperada…vi até um senhorzinho, tão assustado que me pergunto se ele estava na passeata ou só não se informou o bastante antes de sair de casa aquele dia.

Um pequeno grupo de pessoas tentou depredar uma cabine de banheiro público, completamente furiosos e enlouquecidos de raiva com a polícia. Os demais manifestantes impediram essas pessoas, o que quase gerou uma briga dentro da própria manifestação. Começamos a gritar “Sem Violência” de novo e a coisa acalmou. Entramos na Augusta.

Naquela altura do campeonato, algo começou a ficar claro para mim: A maioria das pessoas estava do nosso lado. Nos carros, as pessoas paradas no trânsito nos cumprimentavam, buzinavam no ritmo de nossa musica e muitas vezes abriam as janelas. Não estavam com medo de nós. Claro, havia os senhores engravatados e truculentos dentro de suas  caminhonetes, provavelmente postando no Facebook como esperavam que a PM descesse a borracha nos “vagabundos” que atrapalhavam seu retorno pra casa na hora da novela. Sempre tem. Mas a maioria estava com a gente.

Vi muita coisa engraçada, nessa subida que nos passou uma leve sensação de segurança: Vi um cara de máscara de Anonymous tascar um selinho em uma moça bonita que estava dirigindo um carro preso no trânsito. Vi um pai com uma criança pequenininha na janela, acenando para a manifestação, e os manifestantes todos acenarem e brincarem com o garotinho em retorno, que riu e dançou. Vi homens e mulheres abrirem suas janelas de casa para entregar garrafas de vinagre, em solidariedade. Recebemos MUITAS aplaudidas. Minha fé na humanidade, machucada por muita baboseira de Facebook nas ultimas semanas, começou a se regenerar.

Tudo o que é bom dura pouco: Chegando perto da Paulista, pela Bela Cintra, começamos a ouvir as explosões de novo. Os partidos recolheram suas bandeiras. Alguém comentou do meu lado: “A PM fechou a Paulista e está esperando a gente lá em cima. Agora o bicho vai pegar mesmo.”. Avisei meus dois amigos, mas foi a ultima vez que eu vi eles, porque pouco depois as pessoas começaram a voltar correndo, porque estavam “abrindo fogo” com bala de borracha nos manifestantes que estavam tentando entrar na Paulista. Mais explosões. Pensamos que enquanto estivéssemos no meio dos carros parados no transito estaríamos seguros ao menos do gás lacrimogêneo, mas a polícia começou a atirar mesmo entre os carros. Muita gente que estava tentando voltar pra casa, preso no transito, respirou o gás que era destinado para nós.

Entramos na Pedro Taques, tentando fugir de volta para a Consolação, mas vimos policia montada em peso, e também as armas que lançam bomba de gás. Ainda gritando “Sem violência” saímos encurralados pela consolação. Uma das vias estava liberada agora, e a polícia ia começar a vir de baixo, pegando um grupo inteiro pela lateral. Já estávamos divididos. Quem subiu até a Paulista não conseguiu descer, já estava sendo massacrada. E com eles, trabalhadores, transeuntes e até velhinhas saindo da Igreja São Luis. Muita gente que nem estava protestando, só estava passando. Nesse momento já tínhamos ouvido histórias de repórteres espancados e até de uma moça da Folha de São Paulo que supostamente tinha sido baleada no olho. É impressionante o que muito Whatsapp e Celular faz em uma manifestação.

Não era mais uma passeata: Era um banho de sangue. Eu só conseguia pensar na segurança dos meus irmãos. Dane-se o ônibus. Dane-se o Alckmin e o Haddad. Eu só queria proteger minha família e tirar eles dali com segurança. Surgiu a oportunidade. Uma rua estava liberada, e por ela poderíamos correr para Higienópolis e sair dali. Juntamos um grupo de umas 20 pessoas, pois sabíamos que grupos menores podiam ser atocaiados, espancados e presos. Estava acontecendo. Estávamos vendo isso do nosso lado.

Atravessamos a consolação correndo e podíamos ouvir o barulho das bombas, e ver a luz macabra das sirenes de polícia subindo a rua para ir de encontro à passeata pelo flanco. Tática de guerra contra as pessoas que a policia supostamente deveria proteger. Quem ficou lá a partir das 21h40-22h00 não teve escolha: Ou fugiu ou apanhou. A bateria do meu celular tinha acabado, e eu não sabia mais se meus amigos estavam em segurança, mas pelo menos tinha tirado meus irmãos dali.

Essa passeata é por muito, mas MUITO mais do que R$ 0,20. Não é a toa que os números só têm crescido desde que a primeira foi organizada. Essa passeata é por algo que deveria ser prioridade para todos nós, que deveria importar mais do que tudo: LIBERDADE. No momento que a população deve temer a própria polícia, mesmo quando não está fazendo NADA a não ser expressar a própria opinião pacificamente, é porque seu estado se transformou em um estado fascista.

Mesmo a mídia virando a nosso favor (claramente assustada pela virada da opinião pública) ainda tem muita gente nos chamando de vândalos e dizendo que merecemos o gás e a borrachada. Eu não me importo. Na verdade tenho pena dessas pessoas, que preferem viver como lacaios confortáveis, em vez de encarar a dura realidade de que nosso estado está se transformando, eu repito, em um estado fascista.

Estou me sentindo mais leve do que nunca hoje. Fui para a rua, dei a cara pra bater, porque era a coisa certa a fazer. E as vezes a gente precisa fazer as coisas só porque é CERTO. As vezes precisamos aceitar a idéia de nos machucar, ou correr perigo, se for para defender aquilo em que acreditamos, pois é essa noção que faz valer a pena estar vivo.

Não estava lá porque apanhar da polícia é minha idéia de uma ótima quinta feira a noite. Estava lá pela minha esposa, por mais que ela estivesse em casa morrendo de preocupação. Estava lá pelos meus futuros filhos, que não vão gostar nem um pouco se tiverem que viver em um Brasil fascista que se calou quando a PM transformou o povo em bandido. Estava lá pelos meus amigos, pelos meus pais, por todas as pessoas que podem nem entender o que eu estava fazendo, mas que colherão os frutos plantados por aqueles que saíram de casa ontem, PORQUE ERA A COISA CERTA A FAZER.

Isso está muito longe do fim, e todo mundo deveria ir pra rua. Não podemos ter medo, porque é isso que eles querem. Se a gente calar a boca, sentar no sofá de casa e ligar a televisão, eles ganham.


MENSALÃO: UM DESABAFO

Nas ultimas semanas nosso país foi estremecido pelo julgamento do Mensalão, que muito antes de sua conclusão já era chamado por toda a nossa grande mídia de “O mais importante acontecimento da nossa história política recente”.  Eu falo com as pessoas nos jantares, nas filas e nas mesas de bar, e tenho visto tanta gente radiante com a condenação de Dirceu, Genoíno e seus  “comparsas” que estou até me deixando contaminar por um pouco dessa alegria.

Quem sabe, não é? Talvez estejamos realmente assistindo o momento histórico em que a política brasileira vislumbrou uma luz de ética no fim do longo e escuro túnel no qual estávamos enfiados por tantos anos. Talvez as coisas estejam realmente melhorando, e o julgamento do mensalão seja o arauto de uma nova era para nossa democracia.

Poxa vida, não estava todo mundo dizendo que o julgamento ia dar em pizza, afinal foi o Lula que apontou os juízes (e todo mundo sabe que o Lula come criancinhas)?

Nesse clima de esperança que me acometeu, só me resta torcer para que as coisas não parem por aí. Que os bravos e imparciais juízes do STF, liderados por seu presidente-super-herói Joaquim Barbosa e contando com o suporte de nossa ética e assertiva grande mídia, continuem firmes em sua cruzada.

Que com o mesmo ímpeto demonstrado nos últimos meses, essa poderosa “liga de homens bravos” que se formou possa agora voltar sua atenção ao caso de Carlos Cachoeira, tão negligenciado durante a época do mensalão,  e esmiuçar mais a fundo as comprovadas relações do contraventor com o jornalista da VEJA Policarpo Jr e com o Grupo Abril.

E quando esse caso estiver esclarecido, que seja permitida a essa “Liga da Justiça” revisitar o curioso caso de compra de votos identificado na campanha de reeleição de 1998 do PSDB, o já esquecido “Mensalão Tucano” ou “Mensalão Mineiro”. Protagonizado por Eduardo Azeredo e Marcos Valério (e Fernando Henrique Cardoso? Afinal ele ‘não tinha como não saber’), esse evento nunca virou CPI nem ganhou um décimo da exposição do “Mensalão Petista”, mas foi o famoso evento do qual fala a consagrada frase de Carlos Ayres Britto: “Caixa dois é um modelo mais do que espúrio. É um modelo maldito de financiamento de campanha em nosso País.”. Talvez agora que a verdade esteja cavando seu caminho no meio das mentiras de nossa política, esse caso possa finalmente se esclarecer.

Ainda sobre 98, quem sabe não chegou também o momento em que a população brasileira finalmente entenderá o que aconteceu de verdade na privatização da Telebrás, e porque as gravações escandalosas da cúpula do governo da época – envolvendo negócios inescrupulosos na casa de R$ 22 bilhões – nunca viraram CPI e nunca prenderam ninguém.

Aliás, falando em privatizações, seria interessante que nossa mídia pudesse agora dedicar alguma atenção ao dossiê de 115 páginas preparado pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr.: “A Privataria Tucana”.

O Best Seller tem como tese que a privatização de diversas empresas estatais do Brasil, realizada durante gestão tucana e sob sua liderança, foi a maior roubalheira da história da república.

Os personagens principais dessa documentada roubalheira são gente do alto tucanato: Ricardo Sérgio de Oliveira (senhor dos caminhos das offshores caribenhas), Gregório Marin Preciado (sócio de José Serra), Alexandre Bourgeois (genro de José Serra), a filha de Serra, Verônica (cuja offshore caribenha, em sociedade com Verônica Dantas, lavou pelo menos 5 milhões de dólares), o próprio José Serra e o indefectível Daniel Dantas. Isso não deve ser problema para nossos imparciais paladinos.

Segundo o dossiê, durante um bom tempo nosso governo vendeu patrimônio público a preço de banana a empresas de parentes (laranjas), lavando dinheiro com a tranqüilidade de que nunca seria jogado aos leões.

Talvez esse Amaury Jr. seja realmente um agitador, um fanfarrão. Talvez essas provas sejam falsas, os documentos não sejam válidos. Mas eu adoraria ver o assunto discutido na televisão, quem sabe no Jornal Nacional. Adoraria ver uma reportagem da VEJA  ou uma capa de Estadão sobre o assunto. Quem sabe na hora que o Mensalão sair de moda os diagramadores não dão um jeito de conseguir um espacinho?  Gostaria de ver alguns dos nomes citados nos parágrafos acima prestando contas para Joaquim Barbosa e nossos prestigiados juízes.

Já que estamos desenterrando o passado, talvez seria hora de revisitar o caso do PC Farias, e buscar os demais 110 empresários e 400 empresas envolvidas no escândalo onde ele foi o único condenado. Bastaria revisitar as centenas de páginas do inquérito feito pela Policia Federal na época, e convenientemente esquecido pouco depois.

Já que estamos finalmente fazendo justiça nesse país, acho que seria de bom tom revisitar algumas das 69 CPIs barradas pelo governo Fernando Henrique Cardoso (o governo que mais barrou CPIs na história de nosso Brasil). Não estou exagerando não, foram 69, que serão listadas como anexo no fim deste artigo.

Enfim. Quem estou tentando enganar? Qualquer leitor capaz de identificar o mínimo de ironia já deve ter percebido que eu não estou nem um pouco eufórico com o final do julgamento do mensalão.

Peço para que os leitores deste artigo não confundam a ironia de minhas palavras com qualquer tipo de cinismo. Adorei ver aqueles políticos corruptos serem condenados, antes se julgando invulneráveis mas finalmente sentindo o peso da justiça sob suas cabeças. O julgamento do mensalão foi realmente algo sem precedentes, e ele pode realmente ser o sinal de novos tempos. Mas isso não depende de nenhum “juiz super herói” e sim de toda a população. E depende do que vai acontecer agora.

Quando o povo brasileiro for capaz de se libertar desse imenso clichê maniqueísta que dominou o debate sobre o assunto (PT = quadrilha, PSDB = bonzinhos), e realmente exigir de sua mídia, de seu Supremo Tribunal, de sua polícia, um tratamento imparcial e verdadeiro sobre o que é lutar pela ética em nosso país, nesse momento as coisas vão realmente começar a mudar.

No momento em que os mesmos juízes que condenaram Dirceu se mostrarem capazes de condenar José Serra, ou Policarpo Jr, eu realmente me convencerei de que eles estão lutando pela ética como um conceito, e não pelo benefício ou interesse de um partido ou outro.

Na hora que a população brasileira cansar de ser joguete na guerra entre partidos, parar de acreditar em tudo que lê no jornal e começar a buscar informação em mais de um lugar, daí sim estaremos vislumbrando um acontecimento histórico.

Não há dúvida de que houve mensalão. Estou feliz pela condenação dos responsáveis, e se houver mais alguém que deva ser acrescentado ao grupo, Lula incluso, que seja. Mas vou comemorar comedidamente. Não estou convencido de que essa celebração toda, por enquanto, não é acima de tudo só um clamor da classe media alta pela possibilidade de ver o PT se ferrando.

Apenas no momento que a população brasileira cansar de ser entretida pelo “pão e circo intelectual” que foi o espetáculo televisionado do mensalão, e acordar para o fato de que a corrupção nesse país é estrutural e apartidária, me permitirei festejar de verdade.

Na época do Mensalão Mineiro (aquele que crucificava o PSDB em 98), o juiz Ricardo Lewandowski (o mesmo que hoje é considerado um vendido e um criminoso) foi um dos grandes “paladinos” pela condenação de Eduardo Azeredo. Por isso essa história de chamar o Joaquim Barbosa de Batman e o Lewandowski de Coringa não cola. Não mesmo. Existe gente honesta e gente desonesta em todos os partidos, e não por acaso quanto maior o partido, maior o problema (o poder absoluto corrompe absolutamente).

Infelizmente, o discurso ético do político de partido grande (ou jornalista político) de nosso país ainda segue aquela máxima do Getúlio Vargas: “A meus amigos: tudo. A meus inimigos: a lei”.

Chegou a hora da população brasileira aceitar que está muito mais imersa na sujeira do que o noticiário otimista comemorando a condenação de Dirceu tem feito parecer. Chegou a hora do brasileiro parar de acreditar em super-heróis (e supervilões) e virar gente grande.

Quando isso acontecer, contem comigo para organizar a festinha…

Referências: 

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/10/mensalao-jose-dirceu-e-mais-sete-sao-condenados-por-corrupcao-ativa.html

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/como-funcionava-a-parceria-veja-cachoeira

http://terramagazine.terra.com.br/bobfernandes/blog/2012/08/21/o-julgamento-do-mensalao-a-farsa-e-os-farsantes/

Livro: A Privataria Tucana – Amaury Ribeiro Jr.

Lista de CPIs: 

http://frasesdadilma.wordpress.com/2011/05/24/psdb-de-alckmin-e-serra-barrou-mais-de-100-cpis-em-8-anos/


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